Luciana Bugni http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. Thu, 21 Nov 2019 07:00:12 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Caiu outro avião e a gente não aprendeu a aproveitar o momento e os amigos http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/11/21/caiu-outro-aviao-e-a-gente-nao-aprendeu-a-aproveitar-o-momento-e-os-amigos/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/11/21/caiu-outro-aviao-e-a-gente-nao-aprendeu-a-aproveitar-o-momento-e-os-amigos/#respond Thu, 21 Nov 2019 07:00:12 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1570

(iStock)

Eu estava saindo da redação na véspera de feriado, quando ouvi: caiu um avião.

Minutos depois, estava saindo do metrô, e minha amiga, a editora Andressa Zanandrea, escreveu: “você conhece quem estava no avião”. Meu coração deu uma paradinha até a próxima mensagem chegar. Era Marcela Brandão, estudamos juntas por quatro anos na faculdade. Nunca fomos próximas, mas lembro exatamente do rosto dela e da voz dela. Chique, bem vestida. Ela era muito amiga da Thami Nóbrega, de quem eu sou amiga. Marcela tinha 37 anos, como eu. Ela tinha um filho como eu. Ela tinha melhores amigas como eu.

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Fui até minha casa naquela quinta-feira chuvosa tentando entender as mortes repentinas. Uma mulher está indo para um feriado em família e, de repente, acontece uma tragédia. O existir e o não-existir repentino. Me coloquei no lugar de Thami, perdendo uma de suas grandes amigas.

Thami me disse que na última conversa ao vivo com Marcela, elas haviam falado sobre ter tempo para quem a gente ama. É uma conversa constante nas rodas de mulheres da minha idade que, tomadas pelos afazeres da maternidade e do trabalho, sentem falta de três horas a mais por dia. Para lavar o cabelo, para ver uma série, para ter uma conversa aprofundada em alguma coisa que não seja reclamar que está faltando tempo. Para dar risada com os amigos. Para ficar quieta, sem fazer nada, olhando a chuva bater no vidro por 15 minutos.

Desde o dia do acidente penso na falta de tempo. Nas respostas que não dou quando estou no trabalho, nas mensagens que nem chego a ler porque não consigo. Na chupeta do meu filho que não consigo tirar porque não tenho disposição para enfrentar algumas noites sem dormir (não agora). E o não agora vai passando para o próximo mês, e os dentes dele estão ficando tortos, e isso só aumenta minha cobrança diária por ter mais tempo para ter mais disposição para ensinar aquele garoto a dormir sem chupeta. Toda essa angústia ajuda em exatamente nada.

Outro dia, uma sexta-feira, passei no mercado próximo à minha casa para comprar algumas coisas depois do trabalho. Na fila, uma dezena de pessoas sozinhas e cansadas, com garrafas de vinho ou cerveja na mão. Tive a impressão que as pessoas trabalham para pagar os drinques que podem fazer com que elas se esqueçam do trabalho e tenham forças para trabalhar no dia seguinte e possam comprar sua diversão de novo. E, te digo, não sou ninguém pra julgar.

Lógico que é muito bom ter um trabalho. Lógico que é muito bom ter amigos que sintam nossa falta como sentimos a deles. Lógico que ter filhos é legal demais e, pensando bem, aquele menino é fofo com chupeta e tudo.

Mas não tem um jeito, um jeitinho muito específico, de curtirmos tudo isso e nossos próprios momentos apesar do cansaço, apesar da tristeza, apesar dos pesares todos?

Fico pensando em Thami e Marcela, nos 20 anos de amizade em que uma brindou a outra com esse carinho extremo que é se colocar a disposição para ouvir. Ciente de que isso nunca substituiria sua melhor amiga, eu me coloquei a disposição para escutar Thami sempre que ela precisar dizer qualquer coisa.

E você, já escutou alguém hoje? A gente conta demais com o amanhã, com a sexta-feira, com o vinho que a gente vai buscar correndo no supermercado.

Mas a verdade mesmo é que a gente só tem o hoje.

 

* esse texto é para a Virginia, com um abraço apertado para todos os familiares da Marcela.

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O que aprendi sobre os brancos desde que me casei com um homem negro http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/11/17/o-que-aprendi-sobre-os-brancos-desde-que-me-casei-com-um-negro/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/11/17/o-que-aprendi-sobre-os-brancos-desde-que-me-casei-com-um-negro/#respond Sun, 17 Nov 2019 07:00:36 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1548

E se seu ambiente de trabalho fosse assim, meio a meio? (iSTock)

“Eu não sou racista”, “Não é possível que ainda exista racismo no Brasil” são frases que nós brancos dizemos com tranquilidade. Eu nunca entendi direito durante minha adolescência e grande parte da idade adulta, o que era o racismo na prática. É impossível que eu entenda isso, como é impossível que você, meu leitor branco, entenda também. Não dá para compreender o que a gente não vive.

Por isso, a gente estuda. Entender o racismo funciona mais ou menos assim: você não consegue entender o que o outro sente, então você ouve o outro. Vale para qualquer relação: casais, amigos, colegas de trabalho. E brancos com negros. Ah, mas então o negro precisa parar e ouvir o que eu, branco, sinto quando perco minha vaga para ele por causa das cotas? Se ele quiser, sim. Mas a verdade é que ele não precisa. Porque, como você estudou na escola, os negros foram arrastados em navios até aqui por muitos séculos. Eles foram libertos há pouco mais de 130 anos, mas o que foi feito desde então para reparar essa condição? Ficaram sem trabalho, sem casa e sob um forte senso de racismo que não os considerava SERES HUMANOS. Ok, tudo isso você sabe, porque você estudou. E agora, passado esse século e meio: em que ponto nós, brancos, estamos, dessa luta?

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Quando conheci meu marido, o jornalista esportivo Rodolfo Rodrigues, não imaginei que ele vivesse o racismo. Negro de pele clara, ele herdou da mãe os traços brancos gaúchos que são revestidos pela pele escura que ele herdou no pai. A mistura resulta no eufemismo racista que vira e mexe dizemos para pessoas negras de pele clara na praia: “Você está com uma cor linda”. Ele ouve o “elogio” calado. Ele não está com aquela pele. Ele É negro.

Não sei quantas vezes na minha vida eu disse que estava ficando pretinha, que meu objetivo do verão era ficar preta, que eu ia voltar da praia bem pretinha. Aprendi muito tardiamente (eu diria que algumas semanas atrás, com a repórter Nathália Geraldo, que trabalha em Universa e também é negra de pele clara) que isso é racismo. Beleza, bola para frente. Eu quero ficar bronzeada. Preta, neguinha, negra, nunca serei. Sou uma pessoa branca.

Com a convivência com Rodolfo, percebi que ser negro era considerado um apelido engraçado. Há quase uma década, cabia ainda brincar com piadas altamente racistas sob a desculpa de “ele é meu amigo e nunca se incomodou com isso”. Eu acreditava que ele realmente não se incomodava até o dia em que perguntei: “Você se incomoda quando todos estão dizendo que você é preto em tom de brincadeira repetidas vezes?” Surpresa: ele se incomodava. Com a difusão da informação nos últimos anos, graças a Deus, os brancos de nosso círculo foram parando de fazer brincadeiras com a cor da pele dele. E eu aprendi mais essa: não é porque a pessoa não diz que se incomoda que ela está de boa com aquilo. Próximo passo.

A gente convive com negros, claro que convive. Várias das pessoas que nos servem são negras. Trabalhando conosco nas grandes redações? Poucos.

Essa crítica foi muito bem-feita pela repórter da Piauí Yasmin Santos na matéria de capa desse mês. Ela faz uma bela análise sobre o assunto sob a própria perspectiva, de mulher negra isolada na grande imprensa. É importante que nós, brancos, reconheçamos o racismo no meio em que estamos inseridos. O meu é o jornalismo. Trabalhar com Nathália Geraldo me ensina todos os dias.

O racismo corre embaixo das nossas vistas

Um dia, no auge da temporada de réveillon no Rio de Janeiro, ficamos, eu e Rodolfo, na praia até mais tarde e não conseguimos achar um taxi ou uber para voltar para casa. Entramos no metrô naquele horário de rush do começo da noite. O Rio de Janeiro inteiro saindo da zona sul e indo para algum lugar. No vagão, Rodolfo disse: “você é a única branca daqui”. Eu tinha percebido. Todos os passageiros, que estavam na praia se divertindo ou trabalhando, estavam indo para casa naquela noite de metrô, o meio de transporte mais barato, e eram negros. Eu, normalmente no conforto de um taxi essa hora, nunca tinha notado. O racismo anda debaixo da terra. A gente realmente não vê, se não quiser.

Há algumas semanas, o técnico do Bahia Roger Machado fez uma declaração emocionante numa coletiva. Ele disse que era raro alcançar uma posição como aquela no futebol, por mais que os negros sejam os verdadeiros protagonistas do esporte em nosso país. Ele discutiu na coletiva a população carcerária, diferenças salariais, número de mortes, violência etc. por cinco minutos em que os jornalistas ficaram ali, aprendendo. Encantados.

Nossos colegas ficaram empolgados — e eu também — afinal, finalmente estamos falando sobre isso. Rodolfo teve uma reação que eu estranhei a princípio. “Não adianta curtir o discurso do Roger se dentro das redações continuamos sem pessoas negras”, ele disse em seu popular Twitter, onde normalmente posta os números do futebol, setor em que ele se especializou. As postagens reclamando de racismo tiveram um número consideravalmente mais baixo de interações do que ele está acostumado.

Por que ninguém quer falar disso?, eu perguntei ingenuamente. E, num indigesto café da manhã, ele perguntou se eu tinha contratado algum jornalista negro recentemente. Eu havia contratado uma repórter branca há duas semanas. Ele deu de ombros como quem sugere que o racismo estava lá dentro de nossa casa — essa casa interracial que eu me gabo de ter.

Recentemente, após os casos de injúria racial constantes no futebol, o narrador Julio Oliveira falou em um programa da Sportv. Ele dizia que vê o racismo quando, num restaurante vazio, é acomodado nos fundos. Nunca acreditei que isso existia e é mesmo de duvidar (afinal, sou branca, nunca vivi nada parecido). Só entendi quando cheguei com meu marido em um restaurante famoso, uns anos atrás, às 18h30. O local estava totalmente vazio, mas o metri, confuso, pediu que esperássemos. Ainda sob a luz do horário de verão, ele não sabia se nos acomodava na varanda, que tinha vista para calçada, o que queríamos. Nesse tempo, uma senhora loira chegou e o metri arrumou uma mesa para ela imediatamente. Depois de um tempo, ele nos colocou na varanda, como desejávamos, mas atrás de uma planta, na última mesa, próxima ao banheiro. Rodolfo disse que estava acostumado. Eu fiquei muda.

A situação se repete em lojas de shopping — sou atendida bem antes dele em qualquer situação. Dia desses, andando na Av. Faria Lima, em São Paulo, em um dia frio, ele entrou no Shopping Iguatemi para usar o banheiro. Ele estava de jeans e moleton com capuz e nem percebeu que “deveria” ter tirado o capuz. Foi seguido por dois seguranças até o banheiro. Saiu constrangido.

Lembro disso cada vez que penso em atravessar a rua quando vejo um moleque de capuz — e geralmente eles são negros. Sabemos o que eles sentem? Nem ideia. Jamais entenderemos. O que podemos, como sugere Chelsea Handler em seu documentário na Netflix “Hello, Privilege”, é pensar sobre isso. E então, imediatamente, começar a fazer. Olhar para o lado, constatar que vivemos entre brancos e traçar estratégias para mudar esse quadro imediatamente.

O filme de Chelsea, aliás, é feito de uma branca para brancos. Os negros sabem tudo aquilo de cor. A gente é que tem que colocar a cabeça para funcionar e pensar em onde está o nosso racismo que não chama negros para trabalhar com a gente com a desculpa de “eu não os conheço”. Não ser racista não basta, já disse Angela Davis há 40 anos. Ser antirracista é ir buscá-los onde eles estiverem e treiná-los para que se equiparem em qualidade ao profissional que teve todos os privilégios que eu e você tivemos.

Mas estamos caminhando para isso?

Quando vi a bancada da Sportv essa semana com a repórter Débora Gares e o repórter Diego Moraes, fiquei empolgada. Aquilo para mim é esclarecedor. Mandei uma mensagem para o Rodolfo dizendo que 50% das pessoas no debate era negra. Ele de novo se mostrou desesperançoso. “São dois negros falando sobre racismo de costas para uma redação majoritariamente branca. Eu quero é metade da redação negra e todo mundo falando só de futebol, que é um assunto muito mais legal”.

Fiquei meio irritada: afinal, nada está bom para ele? Aí fui percebendo a postura do próprio Diego: ele estava com medo de falar todo o racismo que vivencia na sua profissão, por receio de perder o emprego. Será que aí na sua empresa não tem alguém com medo de reclamar do nosso comportamento? Mas peraí: quantos negros tem aí na sua empresa?

Outro dia perguntei isso para um amigo que vende carros de luxo. Ele disse que da porta da oficina para trás, 100%. No salão onde ficam os carrões, bem… nenhum.

A bailarina Naiane Rosa me disse que não consegue evitar entrar nos eventos e festas que frequenta e observar quantos negros estão ali além dela. Ela diz que sempre constata que nenhum — se houver, estão a servindo. No prédio de um bairro chique de São Paulo onde ela vive, as vizinhas brancas param na porta esperando que ela segure o portão para elas passarem. No elevador, perguntam em que andar ela trabalha. Naiane tem uma carreira de sucesso e é lindíssima. Ela conta que quando é olhada na rua, as pessoas dizem que é porque ela é bonita. “Mas eu sei reconhecer o olhar de racismo”, ela fala. Eu arrisco dizer que o olhar quer dizer: mas como essa preta se atreve a ser assim tão bonita?

Talvez você só tenha lido esse texto até aqui porque eu sou branca. Se o texto fosse do Rodolfo, da Nathália, da Débora, do Júlio, do Diego ou da Naiane, você acharia chato. É só mais um negro reclamando de racismo no Brasil, não é? No dia em que realmente pudermos ouvi-los, quem sabe, depois de um tempo, não haverá mais negro reclamando, nem racismo. Aí o Rodolfo vai poder falar só de futebol que, aliás, é o assunto que ele mais gosta.

Eu só estou aqui dizendo o óbvio.

É utópico, é distante. Mas é nesse mundo que eu e você queremos viver, eu acho. Por isso, é urgente.

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Débora Nascimento não amou filha logo no parto. Você se choca com isso? http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/11/14/debora-nascimento-nao-amou-filha-logo-no-parto-voce-se-choca-com-isso/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/11/14/debora-nascimento-nao-amou-filha-logo-no-parto-voce-se-choca-com-isso/#respond Thu, 14 Nov 2019 07:00:11 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1550

Débora e Bella: é ok não estar plena o tempo todo, ok? (Reprodução/ Instagram)

“Você não nasce amando aquele pedacinho de carne. Não vou ser hipócrita e leviana de falar que assim que ela saiu de mim, eu já estava amando. Não é tão fácil assim. É um processo que todas passamos”, disse Débora Nascimento, com um discernimento de fazer inveja, em entrevista à Revista Quem. 

Sabrina Sato também falou umas verdades sobre a gravidez ontem. Que romantizar o período a fez quebrar a cara: ela só chorava com Zoe na barriga. Eu só consigo pensar que é algo bom falarmos nisso abertamente.

As frases de Débora e Sabrina podem chocar muita gente que se vê capaz de amar o filho já na barriga. Mas abraça muitas outras mães que não se sentem totalmente ligadas ao filho assim que ele nasce. Eu me enquadro nesse segundo grupo. Lembro da sensação de, na maternidade, com filho dormindo em uma caminha transparente e eu eliminando coágulos gigantescos na hora do banho, pensar: o que foi que eu fui fazer? “Agora estou aqui com esse completo desconhecido, a quem estarei ligada pelo resto da vida, toda acabada”, eu falava para mim mesma.

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Antes que você julgue o pensamento egoísta, veja a fala de Débora sobre o tema: “Aprendi algo essencial: nunca julgue uma mãe. Cada criança é uma criança, cada vivência daquela mulher é diferente e cada mãe é uma mãe”.

É lógico que eu não odiava meu filho. Mas é pedir um pouco demais que eu amasse loucamente uma pessoa que não conhecia. Spoiler: hoje eu o amo mais que tudo. Convivemos intensamente por mais de dois anos, aprendemos coisas um do outro, dormimos pouco, comemos bem — tudo isso junto. Não trocaria nossa convivência pela minha liberdade nunca na vida.

Mas se aquela Luciana lá atrás viesse aqui e visse um dia da minha vida… talvez eu tivesse usado camisinha. A questão é que aquela Luciana não existe mais. E isso é maravilhoso.

Débora prossegue: “Ela faz parte da minha vida, mas não vivo em função apenas dela. Existe um período que a gente tem o boom de hormônios e que você e a neném são quase que uma pessoa só. Mas sempre tive consciência de que eu e ela somos pessoas distintas.” Que alívio é que possamos ler algo assim. Umas décadas atrás, era um pecado uma mãe admitir que não vivia só para o filho. Pensando bem, algumas pessoas se chocam até hoje.  

Mas a gente segue buscando um jeito de sermos nós mesmas nos intervalos da maternidade. Mentira, maternidade não tem intervalo. A gente segue tentando.

Ontem eu estava doente.  Meu dia tinha começado às 6h da manhã num laborátorio de exames, seguiu por hospitais em busca de diagnóstico, continuou ao chegar tarde no trabalho e, por consequência, ficar até mais tarde para dar conta de tudo.

Às 21h, quando cheguei em casa, posso dizer que olhar aquela carinha que dizia “brinca comigo, mamãe?” foi o ponto alto do meu dia. Mas não era exatamente o que eu QUERIA fazer. Sentei no chão com ele, mas estava com dor. Estava cansada. Estava com fome. Eu queria brincar, mas não queria nem um pouco brincar. Parece loucura, mas tenho aprendido que ser mãe é exatamente isso. Uma contradição eterna que beira o insano.

Aquela coisinha fofinha querendo brincar de dinossauro, de casas de Lego, de quebra-cabeça, de pintura com tintas e tudo isso junto, às 21h, era o que eu menos queria enfrentar. Mas sinto total liberdade de dizer isso em voz alta. Entre minhas amigas, podemos reclamar das crianças com frequência. “Não aguento mais levar no penico”, “Estou enlouquecendo com as birras” e, quase sempre que alguém o elogia: “Você quer levar para você?”.

Nenhuma de nós chegou ao extremo de doar a criança (talvez porque ninguém tenha aceitado, também). A piada só existe porque o sentimento é o extremo oposto. Um amor extremo.

Mas talvez a liberdade de falar abertamente de quando eu não quero estar com aquele menino adorável seja justamente o que me dá forças para sentar no chão e brincar um pouquinho. E depois inventar uma leitura de livros, em que nenhum dos dois se mexa muito, e que logo evolui para o soninho. Logo, no caso do meu filho, é depois das 23h. Mas as vitórias podem tardar na maternidade. Aliás, o que é demorar duas horas para alguém que passou 15 horas em trabalho de parto e quatro horas só no expulsivo? Tá tudo beleza.

Que bom que as Déboras e Sabrinas estão por aí falando a verdade sobre o que a gente sente. E quem não sente, tudo bem, também. É na diferença que mora a maravilha de ser humano. Agora, olha só, vou na reunião de pais. E depois sentar no chão e brincar — a nova moda da minha casa é cantar parabéns para todos os filhotes da Patrulha Canina (brincadeira qe se estende por horas).

Sigamos. Sorrindo quase sempre, felizes da vida. Mas confessando que a gente não é de ferro quando o bicho pega para valer.

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Ok, Camila Pitanga é bissexual, você não é. E o que temos a ver com isso? http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/11/11/ok-camila-pitanga-e-bissexual-voce-nao-e-e-o-que-temos-a-ver-com-isso/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/11/11/ok-camila-pitanga-e-bissexual-voce-nao-e-e-o-que-temos-a-ver-com-isso/#respond Mon, 11 Nov 2019 19:38:08 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1543

Sim, ela é bonita. E pode ser o que quiser (Reprodução/ Instagram)

O rumor mexeu com a internet nessa manhã: Camila Pitanga está namorando uma mulher. Mais tarde, a assessoria da atriz confimou para Léo Dias a relação. Especula-se que Camila não se sentia à vontade para assumir o namoro, que já dura um ano, mas após a publicação da primeira matéria, num jornal carioca, achou melhor fazê-lo.

Deve ser muito chato se ver nessa situação. Todas as pessoas deviam poder escolher quando querem dizer as coisas para os outros. Isso inclui as  famosas. Eu detesto dar satisfações da minha vida para gente que vive cobrando, você também não deve gostar. Celebridades também deviam ter esse direito de falar de si só quando têm vontade.

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Bastou a primeira notícia da bissexualidade da atriz para o mundo começar com a velha ladainha nas redes sociais (que infelizmente são gratuitas, então todo mundo escreve o que dá na cabeça).

1. “Mas uma mulher tão bonita…” – Pois é, uma mulher bonita. Porque orientação sexual nada tem a ver com ser ou não bonita ou desejada. Proximo tópico.

2. “Tá faltando homem mesmo” – Na verdade, não está. A questão é muito mais simples que isso: ela se apaixonou por uma mulher. Tem nada a ver com homem existir ou não.

3. “Deus criou a…” – Eita, peraí: nós não temos certeza do que Deus criou ou não. Mas mesmo quando acreditamos que fomos criados por Deus, precisamos ter em mente que Ele não criou todo mundo igual. E essa diferença também é criação Dele. Já pensou nisso? Aí, o que vamos fazer com as nossas diferenças… isso já é problema nosso mesmo.

Teve mais chorumela e nem vale a pena descrevê-las aqui. O que nós temos a ver com quem uma mulher famosa (ou não famosa) beija (ou não beija)? Ou se apaixona? Ou namora? A resposta é óbvia: nada. Já é difícil demais cuidar de nossos próprios rolês. Eu admiro o tempo livre de quem se disponibiliza a fazer análise de relacionamento dos outros. Mas sugiro ainda empregar esse tempo livre em outras atividades mais proveitosas, tipo ler livros. Ou outra coisa que você achar mais legal — vale até, de repente, experimentar beijar alguém do mesmo sexo. Vai que, né.

Uma vez uma amiga minha, recém-separada, disse que estava apaixonada. Eu perguntei o nome dele, de onde ela tinha conhecido o cara. Ela disse meio sem-graça que era uma mulher. A minha primeira reação foi um susto. Ela sempre saiu com homens, foi casada com um inclusive, nunca disse nada a respeito, como assim, saindo com uma mulher. A segunda reação foi um pouco mais assertiva: ela pode fazer o que quiser e a mim cabe apenas escutar e vibrar por ela.

Foi o que eu fiz: a ouvi. Ela estava mais surpresa que eu por se apaixonar tão perdidamente por alguém do mesmo sexo. Ela não achava que era possível se descobrir bissexual tantos anos depois da adolescência. Ela, como todo pessoa extremamente apaixonada, dizia que a garota era perfeita, era doce, era meiga, era engraçada e que, juntas, elas tiveram o melhor sexo de suas vidas.

A relação delas durou alguns meses. Depois disso, ela namorou outros homens e mulheres. Mas ainda diz que aquela garota foi o melhor sexo de sua vida.

Você consegue ver algo errado nisso? Ou gostaria de alguém palpitando na sua escolha amorosa?

Vamos deixar Camila Pitanga em paz. Vamos deixar todo mundo em paz. Quem sabe assim a gente vive também um pouco mais em paz e não tem que encarar um mundo de tanto ódio.

Inclusive, se todo mundo estivesse apaixonado, não ia sobrar tanto tempo livre para cuidar da vida dos outros. E nem ia dar, imagina que delícia, para odiar ninguém.

https://youtu.be/jG7dqY8pf1U

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No Pânico, Emílio diz que “nem mulher” briga como Glenn e Augusto: sério? http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/11/07/no-panico-emilio-diz-que-nem-mulher-briga-como-glenn-e-augusto-serio/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/11/07/no-panico-emilio-diz-que-nem-mulher-briga-como-glenn-e-augusto-serio/#respond Thu, 07 Nov 2019 18:44:01 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1532

(Reprodução: Youtube)

Você deve estar sabendo: no programa Pânico, o jornalista Glenn Greenwald, foi agredido fisicamente por Augusto Nunes. Nunes discorda da maneira como a abordagem jornalística do colega atrapalha a Lava Jato. Por isso, acusou Glenn e o marido David Miranda de não cuidarem direito de seus filhos.

A discussão familiar não tinha nada a ver com o trabalho do jornalista do Intercept. Sabemos que não devemos botar a família no meio de nossas brigas, né? Glenn ficou bravo. No programa de rádio Pânico, que é transmitido também na internet, chamou o colega de covarde.

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Nunes respondeu com um soco. “Covarde”, replica Glenn. “Sou covarde, mas você levou um soco na cara”, diz o jornalista, como se agredir fosse um mérito. No meio da confusão, o apresentador Emílio Surita interrompeu a transmissão dizendo que nem mulher briga tão feio assim.

Eita. Como assim nem mulher? O que a gente tem a ver com essa treta?

Eu sou mulher há 37 anos e eu nunca briguei na vida. Quer dizer, uma vez, quando tinha 8 anos de idade, eu dei um tapa na Maria Cecília porque ela disse que eu jogava queimada muito mal. Ela não estava mentindo. Mas eu me ofendi. Estava certa de dar um tapa na Maria Cecília? Não. Percebi logo no minuto seguinte e pedi desculpas chorando. Maria Cecília zombou de mim: “Ela que me bate e ela que chora”. Fim da briga. Aliás, desculpe de novo, Maria Cecília.

Aprendi com 8 anos de idade que não se briga com os outros no braço. Com outra mulher, então, isso não teria nem cabimento. Não consigo me imaginar numa briga física com uma mulher desde 1990. Minhas amigas também não. Então como assim, a briga dos jornalistas na rádio é mais feia que briga de mulher?

Homens, por outro lado, têm um histórico de agressões. Eles brigam no futebol, eles brigam no pátio da escola. Eles quebram o pau. E essas brigas não ficam na quadra da escola num jogo de queimada, não. Tem cara que vai para a balada para arrumar briga até hoje. Conheço muito marmanjo que conta orgulhoso as tretas do passado como se os socos trocados fossem o símbolo máximo da virilidade. Corta para Augusto Nunes, orgulhoso, no auge da tensão de uma briga repetindo a máxima: pelo menos fui eu quem bateu. Pelo amor de Deus.

Na volta do programa, Augusto não estava mais na bancada. Surita tentou responsabilizar a produção do programa pela escolha equivocada de convidados que não se dão.

Calma aí, dois homens têm uma briga horrorosa ao vivo para milhares de pessoas e a culpa é a da pessoa (uma mulher, no caso, a produtora Paulinha Kraushe). Dois caras educados e maiores de idade não conseguem controlar sua raiva e a culpa é da mulher que os convidou?

Paulinha tentou se defender ao vivo, mas Emílio a interrompeu. Outro comportamento típico masculino: interromper mulheres quando elas estão falando — tem até nome, chama manterrupting.

Não, Emílio, eles não brigaram mais feio que mulheres. Eles brigaram como os homens que são. E não foi porque uma mulher os convidou. Foi porque eles não controlam as emoções adequadamente.

Nós, mulheres, não temos nada a ver com isso. Ficamos aqui só assistindo perplexas.

Aliás, muito perplexas.

Augusto Nunes e Glenn Greenwald trocam tapas no “Pânico”

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Kim Kardashian diz que vai evitar roupa sexy, a pedido de Kanye. E você? http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/11/07/kim-kardashian-diz-que-vai-evitar-roupa-sexy-a-pedido-de-kayne-e-voce/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/11/07/kim-kardashian-diz-que-vai-evitar-roupa-sexy-a-pedido-de-kayne-e-voce/#respond Thu, 07 Nov 2019 07:00:52 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1521

É, ele não gostou do vestido. (Angela Weiss/ AFP)

À primeira vista, o pedido de Kanye West para a mulher, Kim Kardashian, causa arrepios nas mulheres. Como um pai antigo e enciumado, ele disse que não gostava da roupa que a mulher havia escolhido para o MET Gala 2019 — aquele vestido bege que parece molhado. Supersexy, decotado, com sua cintura sobrenatural marcada e o quadril que dispensa rótulos também.

Nós já sabemos que não é legal um cara dar palpite na roupa da mulher. Kanye está num caminho artístico diferente: ele fez um álbum cujo título é Jesus is King e admite estar em transformação. Kim rebateu de uma maneira honesta quando ele a criticou: “Você me fez ser uma pessoa sexy e confiante. Não é porque você está em uma transformação que eu estou no mesmo lugar que você”, disse, e foi ao evento com o vestido que havia escolhido. Que bonita declaração de amor.

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Mais tarde ela admitiu estar pensando na crítica. “Ele é meu marido, e eu obviamente quero honrá-lo. O que ele está sentindo é válido”, falou em uma entrevista. “Eu concordo com Kanye, mas sempre serei quem eu sou. Nós estamos conversando sobre onde estão os limites. Eu sou uma mãe de quatro filhos, e completarei 40 anos em 2020. Quando é a hora de parar?”, continuou. Estar conversando sobre isso é mais bonito ainda. 

Estamos em 2019, sabemos que os homens não podem decidir a roupa que devemos sair de casa. Isso não diz respeito apenas a um vestido ultrasexy que eu e você nunca vestimos ou cogitaríamos sair de casa usando. Mas as pequenas críticas estão nos detalhes:

-Por que você não usa um salto?

Homem adora fazer essa pergunta. É curioso, porque a maioria deles nunca pisou em um salto antes, não tem ideia de como o scarpin deforma os ossos a longo prazo, não tem obrigação alguma de esmaltar as unhas para ostentar um peep toe chiquérrimo. Mas mesmo assim eles gostam de dizer isso. Eles nos achariam bonitas de salto andando até nas ruas irregulares de Paraty.

– Prefiro esmalte claro.

É também intrigante que eles prefiram esmalte claro visto que raramente os vejo usando esmaltes. E se preferem mesmo tons discretos, deviam usá-los (um vidrinho custa só três reais) e nos deixar livres para usar nossas cores berrantes com nomes engraçados.

-Batom escuro chama a atenção demais.

Esse é um ponto muito importante que mostra a inteligência masculina. Batom vermelho realmente chama muito a atenção e é justamente por isso que a gente usa. Quem não quer chamar atenção pode sair com um clarinho na boca e tudo bem também. Vale para todxs.

-Esqueceu metade da saia?

Não, ninguém esquece uma parte da saia. Sair de saia curta requer um cuidado intenso com os movimentos e a gente só sai daquele jeito porque quer mesmo. Aí entra uma frase que parece mal educada, mas é bem verdadeira e diz alguma coisa como “se as pernas são minhas, sou eu que decido onde eu as exibo”. Na verdade é mais curta que isso: meu corpo, minhas regras.

Mas Kim está coberta de razão

Porém, Kim está com quase 40 anos, já usou as roupas que quis pelo tempo que quis e percebeu que a crítica do homem que ela ama a fez pensar. Também não vejo defeitos. Usar roupa curta e decotada requer um esforço enorme. E se ela realmente estiver cansada?

Eu mesma, adepta das saias e shorts de um palmo de comprimento, tenho repensado a vestimenta para ir a um buffet infantil, por exemplo. Não porque vou ser olhada, não porque vou ser julgada, mas porque não quero correr atrás de criança na piscina de bolinhas usando aquilo. Minhas regras, ué.

Isso tudo para dizer que maridos não têm que dar palpite nas roupas que usamos, nem devem se sentir feridos por elas. Mas que se a mulher quiser repensar o que veste, tudo bem também. A gente muda, não precisa carregar eternamente o rótulo que nos demos há 20 anos.

Usar salto cansa, pintar a unha toda semana também. Você ajeita suas regras do jeito que bem entender.

Para os homens, mais fácil ainda: é só respeitar o que ela quiser.

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Emma Watson vai fazer 30: por que essa época é de tanta cobrança pra mulher http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/11/05/emma-watson-vai-fazer-30-por-que-essa-epoca-e-de-tanta-cobranca-pra-mulher/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/11/05/emma-watson-vai-fazer-30-por-que-essa-epoca-e-de-tanta-cobranca-pra-mulher/#respond Tue, 05 Nov 2019 18:21:09 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1515

(Reprodução/Instagram)

Primeiro: sim, aquela menininha mal humorada de Harry Potter vai completar 30 anos no ano que vem. Você que é fã da série de livros e filmes também pode já ter passado por isso. Ou ainda vai passar. Isso superado (é verdade, o tempo passa muito rápido, estamos velhos etc.), podemos falar sobre algo que pega todo mundo:

Por que ter 30 anos é esse terremoto na vida da mulher?

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Lembra aquela cena de Friends do episódio “em que todos fazem 30 anos”? A imagem emblemática é Rachel (Jeniffer Aniston) sentada em uma mesa tomando café da manhã enquanto os amigos dão presentes que ela havia sugerido. Ela está arrasada, em negação. O namorado, um garoto novinho e bonitinho de seu escritório, está por ali, mas não a completa.

De repente, ela faz as contas. Pretende ser mãe com 35 anos. Deve se casar uns três anos antes disso. E quer namorar com o homem de sua vida pelo menos dois anos antes de se casar. Pronto, ela conclui: ela deveria estar com o homem de sua vida nesse momento. A câmera vai para o lado e o namorado está brincando com um patinete. Feliz, satisfeito e moleque. Ela então se dá conta que precisa começar tudo de novo.

Miga, tamo junto (Reprodução/ Friends)

Quase toda mulher tem seu dia de Rachel quando está prestes a fazer 30 anos. O momento em que você percebe que, por uma falha da biologia, está muito próxima do período decisivo de ter ou não um filho. E que, muitas vezes, como Rachel, parece estar muito longe de uma série de fatores que a levam a procriar, ou ser bem sucedida, ou ter uma casa própria.

Emma Watson, como a maioria de nós, também não entendia o que havia de tão importante em fazer trinta anos.

“Corta para os 29 [ela completa 30 em abril do ano que vem], e estou tão estressada e ansiosa. Percebi que é porque de repente há um fluxo enorme de mensagens subliminares em volta de você. Se você não tem uma casa, não tem um bebê, e está fazendo 30 anos, se você não está num lugar muito seguro de sua carreira, se você ainda está descobrindo coisas… é um montante de ansiedade inacreditável”, ela disse para a revista Vogue britânica.

Ela diz também que não acreditava que era possível ser feliz nessa idade sendo solteira. Hoje ela reproduz esse discurso e diz com segurança que é sua própria parceira. Que conceito bonito: ser sua própria parceira. Que pena que eu demorei tanto para entender o que isso queria dizer. E, depois que isso aconteceu, desenvolvi as mais belas parcerias com outras pessoas.

Olhando daqui, parece realmente difícil acreditar que tenhamos sobrevivido à pressão dessa época. Recém-divorciada, eu me via obrigada a começar tudo de novo, enquanto criava armadilhas para não sair do lugar — quem se identifica?

Comprar uma casa sozinha, rever as amizades, entender se era mesmo aquela carreira que eu queria, arrumar um namorado legal. E, surpresa, após passar a vida dizendo para todo mundo que eu não queria ter filho, meu sistema reprodutivo me pregou uma peça e procriar virou algo a me preocupar dia e noite.

Sheila Heiti fala sobre isso nas 300 páginas de seu livro Maternidade (Ed. Companhia das Letras). Uma mulher de 30 e poucos anos passando da curva em que é possível deixar a decisão de engravidar para mais tarde. Em maior ou menor escala, essa questão abala grande parte das mulheres.

Ter 30 anos não é só um guinada porque o relógio biológico começa a te lembrar que você tem um ovário e um útero e poderia usá-los de outra maneira que não fosse apenas impedi-los de funcionar. Estar prestes a fazer 30 anos é questionar seu trabalho, seu dinheiro, o que você construiu, o que sonhou e o quanto está longe de alcançar. Mesmo que você seja a Emma Watson e seja rica, linda, fazendo sucesso no mundo todo. A gente sempre arruma um espacinho para frustrações.

Eu, aos 30 anos, estava na esquina de um bar conversando com um amigo, em uma noite quente. Ele falava sobre os dois filhos adolescentes, sobre as dificuldade de educá-los em meio à confusão de seu divórcio. Ele nem cogitava se envolver com alguém outra vez e via isso como uma decisão definitiva.

Naquele dia, não sei se pelo calor ou pelas cervejas, eu repeti para ele algo que eu sempre dizia: que não teria filhos, meu tempo tinha passado e eu tinha que aceitar. Ele disse que as coisas às vezes mudavam rápido e eu devia parar de repetir aquilo. Que estava na minha cara que eu seria mãe. Eu fiquei meio emocionada, deixei para lá, acendi outro cigarro.

Hoje, o filho que eu não teria corre de um lado para o outro na minha casa e suja as portas de vidro com mãozinhas suadas. E aquele meu amigo da esquina do bar acabou de me ligar para perguntar o que eu vou querer para o jantar.

A gente acha que as coisas são eternas. A gente acha que tudo é definitivo. Mas a verdade mesmo é que a gente não sabe de nada.

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Chilique e ameaças ao ser atacado: Bolsonaro nos ensina como não agir http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/10/31/chilique-ao-ser-atacado-como-bolsonaro-nos-ensina-como-nao-agir/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/10/31/chilique-ao-ser-atacado-como-bolsonaro-nos-ensina-como-nao-agir/#respond Thu, 31 Oct 2019 07:00:43 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1505

(Reprodução/ Twitter)

No filme Coração Vagabundo, um documentário de Fernando Groinstein com muitas imagens inéditas de Caetano Veloso, o cantor declara: “Sempre que tenho um chilique, me arrependo cinco minutos depois”.

A frase ficou na minha cabeça: acho que todo mundo que tem chiliques se arrepende logo em seguida. Felizes são as pessoas que conseguem controlar os ânimos mesmo quando a coisa esquenta, a cobra fuma, o bicho pega, o cinto aperta e ok, você entendeu. Eu não sou uma delas. E, como ele, sempre que me exalto, me arrependo logo em seguida, por mais que esteja certa. Afinal, não tenho mais dois anos de idade.

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Mas achei a fala de Caetano interessante porque ele próprio havia tido um chilique daqueles comigo mesma alguns meses antes. Foi durante uma tentativa de entrevista em que me recebeu sob uma saraivada de impropérios. Em Salvador, em frente ao mar, na véspera do ano novo: nada sensibilizou meu cantor favorito ao ser surpreendido por uma repórter no meio da tarde. Entre outras grosserias, antes mesmo que eu fizesse alguma pergunta (e ele tinha todo o direito de não responder), ele mandou que eu sumisse da frente dele.

– Suma! Suma daqui! Saia da minha frente!, dizia cerrando os dentes.

Eu fiquei ali um tempo, o fotógrafo que estava comigo, Marcos Rosa, tentou amenizar a situação e não teve jeito. Nosso primeiro encontro acabou assim, antes mesmo de começar.

Ao assistir o filme de Groinstein, num evento em que o próprio Caetano estava presente — dessa vez para dar entrevistas — perguntei se ele se lembrava de todos os chiliques que teve para realmente se arrepender deles. Ele perguntou quando havia sido grosseiro comigo, eu respondi. E, algumas perguntas depois, voltou-se a mim para pedir desculpas. Imediatamente desculpei. Não sou das pessoas mais calmas, já fui bem adepta do barraco. Digo que sou uma barraqueira em reabilitação. E passei um pano para Caetano, como faço às vezes com as pessoas que admiro muito. Perdoo e toco o barco.

Lembrei dessa história e desse ensinamento na manhã de quarta (30), ao assistir pela segunda vez o chilique de 23 minutos que o presidente Jair Bolsonaro dá ao ver seu nome em uma reportagem do Jornal Nacional ligado  à morte da vereadora Marielle Franco. Ou Mariela, como diz o presidente, de tão nervoso, durante a live. Sem nenhuma ponderação, Bolsonaro tenta se defender das acusações, mas o vídeo se transforma em um chilique para Caetano nenhum botar defeito. Ele grita, gesticula, troca palavras, se irrita, fala palavrões. Atitudes que, convenhamos, não cabem ao líder da nação, eleito pela maioria dos brasileiros e de quem se espera ponderação e calma frente às maiores crises.

Mas mais do isso, não cabe ao próprio presidente. O chilique será mais lembrado que sua defesa. No ímpeto de xingar o acusador, ele nem se dá conta que a própria reportagem havia dito que era impossível que o presidente estivesse na casa 58 e em Brasília ao mesmo tempo. De tão exaltado, Bolsonaro diz que não quer ver o nome de filhos dele ligados ao escândalo, sendo que nenhum dos filhos havia sido citado. E insiste que querem ver seus filhos presos.

Quando o emocional sobe muitos tons acima desse jeito, o jeito é dar as rédeas para a razão. É fácil fazer isso no auge da tensão, com o sangue quente correndo mais rápido que o costume? Não é. Mas há de ser um exercício diário de prudência.

Está nervoso demais para falar? Não fale. Está nervoso demais para expor o que pensa? Não grave um vídeo que eternize o chilique. Está nervosa demais para falar com um funcionário na empresa? Acalme-se e fale depois. Isso não é uma crítica ao presidente, mas algo que Caetano me ensinou da pior maneira possível.

Não há porque dar chilique, mesmo que tenha razão de estar bravo, se fatalmente vai se arrepender deles depois. Por mais que desafie a lógica, ninguém te ouve quando você está gritando.

Questão de inteligência mesmo.

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Grupos no Whats pra imitar moto e Faustão… que horas o jovem vai estudar? http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/10/24/grupos-no-whats-pra-imitar-moto-e-faustao-que-horas-o-jovem-vai-estudar/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/10/24/grupos-no-whats-pra-imitar-moto-e-faustao-que-horas-o-jovem-vai-estudar/#respond Thu, 24 Oct 2019 07:00:12 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1498

Você consegue imaginar um jeito de tirá-los desse túnel? (Istock)

O jovem no sofá de casa diz: criaram aqui um grupo para imitar barulho de moto. “Quê?”, dizem os dois adultos na cena (e eu sou um deles). Um grupo, ele explica, em que todas as pessoas mandam áudios de barulhos de moto feitos com a própria voz. Nos entreolhamos incrédulos, enquanto o garoto dá o play. “Papapapapapapa”, alguém imita um escapamento. “Vruvruvrrrrrrrrrrrrrum”, esse é um acelerador. Nós rimos.

Ele fica meio decepcionado, pois o grupo para fazer barulho de moto está lotado.

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Olha, ele diz de novo, um grupo para imitar o Galvão Bueno (haja coração), para falar igual o Faustão (ô loco, meu), para fazer a voz do Mickey (é isso aí!), para imitar barulho de caixões velhos (?). E lá se vai mais meia hora na rotina do rapaz que está prestes a fazer vestibular e poderia, por exemplo, estar estudando.

Achei curioso, postei no Stories do Instagram: “olha o que os jovens estão fazendo”. Recebi diversas mensagens de pessoas (adultas) sugerindo outros grupos: “imitar o Lula”, “falar gritando”, “fazer coisas impróprias em sigilo”. Se tem uma coisa que eu tenho inveja nessa vida é do tempo livre da galera.

Para entender o que fazem as pessoas que têm tempo livre, eu fiquei 21 minutos no grupo de imitar o Mickey Mouse. Escolhi porque não tinha a menor ideia de como imitar o Mickey e poderia ser interessante aprender para agradar meu filho pequeno. Das 10h11 às 10h32 da manhã de quarta, 12 áudios entre uma infinidade de mensagens (incontável mesmo). Muitos pedidos para passar trote para o fulano. Contato do fulano. Entre os áudios, alguns eram encaminhados de outras pessoas. Em geral, o próprio fulano que vem recebendo trotes de integrantes desses grupos que pede gentilmente para que a pessoa que está divulgando seu número pare de fazer isso ou seja denunciada. Muitas fotos, prints de tela comprovando que as pessoas estão passando os trotes, muitos kkkk. Áudios de Mickey mesmo, uns quatro. Apenas uma boa imitação. Saí do grupo e voltei à vida.

Sou adulta e um pouco azeda. Além disso, infelizmente não tenho muito tempo livre. Mas fiquei pensando como deve ser difícil ser adolescente, ver todos os amigos mandando essas bobagens uns para os outros, rir de algumas coisas engraçadas (eu mesma ri das motos) e mesmo assim achar tempo para fazer as obrigações da vida. Entre elas, estudar. Arrumar a cama. Lavar a louça. Pendurar ali uma roupinha para os pais, né? Como é que você vai fazer essas chatices se tem à mão um túnel em que todos os seus amigos chamam para ver a próxima piada do momento.

Claro que faz parte da nossa obrigação educá-los e ensinar a dividir o tempo de uma maneira inteligente. Mas competir com as facilidades do 3G ao alcance da mão até para passar trote não é fácil, não. Na minha época, tínhamos que atravessar a rua e ir até o orelhão da praça para fazer isso. Nesse tempo também já era chato estudar. Aliás, procrastinação era um privilégio há mais de 20 anos. Uma hora o tédio falava mais alto (não podia ligar a TV antes de terminar as obrigações) e eu sentava e fazia a lição.

É, esse texto é careta e meio nerd. Claro que não tem problema nenhum em rir de imitações do Faustão, essa fera aí. Mas que nós, adultos, devemos dar uma paradinha no uso desenfreado das redes para qualquer fim, ah, isso devemos. Assim, quem sabe, os jovens se espelhem no nosso bom exemplo e abram os livros outra vez.

No mais, “papapapapapapa”, a voz de um desconhecido ecoa na minha orelha o dia seguinte inteiro.

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O que aconteceria se Geisy entrasse na faculdade com o vestido rosa agora? http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/10/23/o-que-aconteceria-se-geisy-entrasse-na-faculdade-com-o-vestido-rosa-agora/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/10/23/o-que-aconteceria-se-geisy-entrasse-na-faculdade-com-o-vestido-rosa-agora/#respond Wed, 23 Oct 2019 16:08:13 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1491

Pra se importar com roupa dos outros tem que ter muito tempo livre (Rivaldo Gones/ Folhapress)

Geisy desce do ônibus com dificuldade. O vestido rosa curto não é o mais adequado para descer a escada do busão. O salto também não ajuda, mas ela vai em frente com agilidade. Com 20 anos de idade, ela tem alguma experiência em andar com sapatos altos. E sabe que isso a deixa mais bonita. Aliás, sacrifícios em nome da estética. Ela vai andando pelo calçamento irregular da Avenida Dr. Rudge Ramos, no bairro de mesmo nome, em São Bernardo do Campo. A prefeitura devia dar um jeito nesses buracos.

Ali na calçada, já percebe olhares. Ela gosta de chamar atenção. Quando saiu de casa, sabia que o vestido pink neon atrairia olhares de cobiça. E tudo bem. Geisy é empoderada. Ela sabe que pode vestir o que quiser. Fosse uns anos atrás, até pensaria se escolheu a roupa certa. Hoje ela sabe que pode se vestir do jeito que achar melhor. E que os homens podem olhar, sim, mas sempre com respeito. Mexer, falar impropérios? Isso é coisa do passado. Colocar a mão? Isso é crime. Como é bom ser uma mulher dos tempos atuais que tem plena consciência de que seu lugar é em todo lugar.

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Ela atravessa o pátio da faculdade. Nas mesas da praça de alimentação de porcelanato bege, pessoas comem apressadamente, revisam textos para as aulas, conversam sobre as novidades, marcam o bar que vai acontecer depois do intervalo. Geisy atravessa. Entre as plantas artificiais que adornam os pilares, ninguém diz nada: nem poderiam, o que eles têm a ver com a vida dela? A resposta é obvia – nada. Geisy paga suas contas (quer dizer, é o pai dela que paga a faculdade, mas nem por isso poderia dar algum palpite no que ela veste). Todo mundo sabe que as mulheres não devem obedecer normas de comportamento que lhe foram impostas por homens de terno e gravata.

E se, por acaso, alguém quiser obedecer regras antigas, até pode. Toda mulher é dona de si e pode fazer o que quiser. Geisy tem amigas que se vestem de maneira tradicional. Saias abaixo do joelho, camisas fechadas até o pescoço. Ela respeita. Claro que sim, ué, ela iria dizer que todo mundo deve se vestir igual a ela mesma? Que coisa de maluco seria que a gente quisesse impor nosso padrão para os outros. Não tem o menor cabimento.

Geisy senta na sala de aula, abre seu caderno. Acomoda o celular no colo, porque uma amiga vai mandar mensagem amanhã confirmando uma entrevista de emprego. Geisy quer trabalhar, está ansiosa. Ajeita o cabelo para trás da orelha, começa a prestar atenção na aula.

Alguém diz:

– Isso é roupa de vir para a faculdade, Geisy?

Ela nem entende a pergunta. Roupa de ir para a faculdade… sim, é uma roupa. Uma colega de sala manda o garoto ficar quieto. Ele prossegue:

-Não consigo prestar atenção na aula com esse vestido da Geisy.

O professor pergunta se ele quer um para ele. Os colegas de sala ficam incomodados com a balbúrdia. Desde quando a roupa de outra pessoa interfere em alguma coisa na sua vida? O rapaz não se emenda:

– Acho que a gente deveria dar um jaleco branco para ela se cobrir. Não dá para ficar na sala desse jeito.

O aluno é então convidado a se retirar da aula pelo professor. As meninas riem da cara dele. Geisy ajeita o cabelo atrás da orelha de novo, cruza a perna. O celular acende: a amiga confirmou a entrevista de trabalho amanhã. Ela sorri.

A aula continua.

Como é bom viver em 2019.

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