Luciana Bugni http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. Sat, 25 Jan 2020 13:43:41 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Você ainda se sente jovem? Veja os filhos dos Titãs adultos e mude de ideia http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2020/01/24/voce-ainda-se-sente-jovem-veja-os-filhos-dos-titas-adultos-e-mude-de-ideia/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2020/01/24/voce-ainda-se-sente-jovem-veja-os-filhos-dos-titas-adultos-e-mude-de-ideia/#respond Fri, 24 Jan 2020 07:00:14 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1636 Se você nasceu nos anos 70 e 80, provavelmente, gostando ou não, tem a lembrança dos Titãs como símbolo de ousadia e juventude. Foram eles que disseram que a gente não precisava da polícia, que a gente não gostava de igreja nem dizia amém. Foram eles que deixaram bem claro que diversão era solução, sim. E que a gente precisava também de arte, além de comida, claro.

Titãs foram revolucionários para o rock brasileiro dos anos 80 e estão até agora jovens e rebeldes na nossa imaginação ou nas caixas de som e playlists de churrascos. Não tem como separar minha adolescência da banda. Deve ser difícil separar a sua também. Em algum momento a trilha sonora é Go Back, ou Família, ou Marvin.

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Aí, aconteceu o quê? O implacável tempo fez com você o que você achou que demoraria mais para acontecer. Você envelheceu. Acontece de repente, quando, na segunda hora de um show de rock, sentimos uma dor estranha no ciático. Ou quando uma ressaca vira uma doença profunda que dura 48h e cogitamos internação. Ou quando nos sentimos obrigados a parar de fumar, pois dizíamos que faríamos isso quando completássemos 30 anos e agora já passou dos 40 e…

Cabelos brancos, pele flácida e outras pequenas mudanças estéticas dão pequenos toques que a gente tenta ignorar. Um dia olhando as fotos tiradas num show dos Titãs em 1995, você toma um susto ao não reconhecer a si mesmo. “Acho que sou eu aqui ou essa era a Virginia?”

Você começa a ser muito mais velho que seus colegas de trabalho. Eles não conhecem os personagens da Escolinha do professor Raimundo (mesmo que exista um remake moderno nas TVs atuais, eles não veem TV).

Você se empolga com um vale-night e queima a largada. Não aguenta nem o esquenta. Vai para casa dormir e acorda cansado.

Se se identificou com qualquer dessas situações, é provável que você esteja envelhecendo. Não é indolor, mas é normal. Se ainda não se conformou com isso, pode confirmar abaixo: até os filhos dos Titãs já são adultos.

Desejáveis rapazes, esses garotos são a prova de que seus dias de jovenzinha decididamente ficaram para trás. Provavelmente eles te chamariam de “tia” na rua. E tudo bem. Dificilmente nossos próprios filhos acreditariam que aqueles respeitáveis senhores eram os roqueios rebeldes que cantavam palavrões e eram condenados pelos nossos pais.

Mas que a genética da rebeldia faz um bem danado, ah isso faz.

João Mader é a Malu Mader com as cores do Toni Bellotto, né?

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Max Fromer, menino, para de fumar, garoto.

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Max in the jungle

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Pensando bem, acho que ele tá bem de saúde.

 

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Zé Brito, eu lembro do dia que você nasceu.

Théo Reis toca violão charmosamente.

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Seriamente tentando acertar um acorde . . foto: @_carolpimenta

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Bento Melo é mais rebeldão.

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Na verdade a tia está só brincando. Não esqueçam de pegar um casaco, meninos.

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Estupradas por conhecido, elas não conseguem denunciar: violência não acaba http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/12/24/karina-burh-e-estupradas-por-conhecido-a-violencia-sexual-nunca-acaba/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/12/24/karina-burh-e-estupradas-por-conhecido-a-violencia-sexual-nunca-acaba/#respond Tue, 24 Dec 2019 17:36:00 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1627

Reprodução/ Instagram

No decorrer desse ano, editei inúmeras matérias de violência contra a mulher em Universa.  Mergulhei um universo sombrio: o da violência sexual. E não só aquela, repugnante, em que um desconhecido nos aborda na rua e nos obriga a fazer sexo com ele.

Mas também quando um conhecido estupra a mulher. Esse tipo de agressão é um pouco mais difícil de digerir. Não raro, o senso comum palpita que a mulher devia ter reagido, gritado, denunciado. Mas o poder silenciador de nossa sociedade é aterrorizante.

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Não é algo que fazemos conscientemente. É que as forças necessárias para falar de casos como esse geralmente faltam às vítimas, que estão fragilizadas. Também não há muito apoio das pessoas próximas. “Como vou deixar que minha filha denuncie meu irmão”, pensa a mãe da vítima, “isso vai destruir minha família”. O raciocínio é uma forma de negação. Se ninguém joga o que aconteceu no ventilador, nada fica espalhado pela sala e dá para fingir que nunca aconteceu, certo?

Errado. Karina Buhr descreve sua omissão com uma emoção corajosa no texto que divulgou ontem. Ela criou coragem a partir dos depoimentos das mulheres estupradas por João de Deus, em dezembro passado. Só ontem conseguiu verbalizar o nome do estuprador: o pai Dito de Oxóssi, que morreu no último dia 15. Seu longo relato, que vale a leitura, nos faz pensar em como a vítima de abuso continua sendo abusada para sempre. “Não queria contar isso, é terrível lembrar, queria esquecer, mas é algo que não se apaga. Senti muita culpa durante e depois”, ela diz.

A morte do algoz despertou em Karina os sentimentos mais profundos e devastadores. A liberdade nunca chega. E ela, bravamente, expôs tudo isso num relato que pode ajudar as mulheres que vivem situações como essa em que a fé camufla o abuso. “Mas preciso falar, quero que caso alguém mais tenha passado por isso lá ou em outro lugar se sinta mais confortável pra abrir isso pro mundo, nessa tarefa de livrar o peso das situações de abuso e da convivência com a culpa, apesar de sermos vítimas.”

Mesmo assim, ela é julgada por ter feito isso apenas após a morte do criminoso. À Karina, meu mais solidário abraço. Num tsunami de sentimentos inconfessáveis, que envolvem ainda a injusta vergonha de ser vítima, ela fez justiça como pôde. E, assim, certamente alcançou quem ainda não consegue sair de uma teia desse tipo.

A repórter Ana Bardella escreveu a importante e indigesta matéria: “Revejo meu abusador na ceia“. Uma amiga me escreveu imediatamente para contar que ela também vê o abusor na ceia. A repulsa já chega dias antes do Natal. Ela não denuncia por pressão da mãe, a velha história de que isso arruinaria a família. Minha amiga disse que se preocupa com a filha dele, mais nova. Mas não faz nada. No Natal, procura ficar com as primas de quem gosta. “Tem uma coisa sobre o abuso que é o fato dele nunca acabar, sabe? Aquilo fica reverberando em você para sempre de várias formas. Mesmo que tenha ocorrido na minha infância, já me tirou o sono muitas vezes na vida adulta”, ela disse.

Muito mais leve que a história dela, mas também criminosa, é a situação que minha amiga descreveu dia desses. Em casa, falou meio perplexa de quando estava sentada no ônibus e um cara em pé insistia em passar de raspão seus genitais no ombro dela. Ela disse que ele provavelmente estava sem cueca. E ficou paralizada em um ônibus cheio, diante da evidente ereção do criminoso. Todos à mesa nos exaltamos: “Você tinha que ter gritado!” Ela respondeu timidamente que não conseguiu fazer nada, envergonhada e travada tentando se esquivar da violência.

O quadro, infelizmente, é conhecido nosso. Hoje temos o respaldo da lei de importunação sexual, criada para que mulheres se sintam mais seguras em situações como essa. A prática, no entanto, é diferente. Culturalmente, como minha amiga no ônibus, parece mais fácil calar e esperar que aquilo acabe o mais rápido possível. Denunciar, no entanto, é uma forma de proteção. Não só para quem vive o crime ali, naquele momento. Mas para todas as outras mulheres que são potenciais vítimas do criminoso.

Tudo isso me fez pensar no livro mais importante que li em 2019: Missoula, de Jon Krakauer, que vira a mexe volta nas conversas sobre o assunto. Meninos de boa família também são estupradores. As garotas estupradas na cidade americana do estado de Montana sofrem uma segunda violência quando denunciam: e essa é eterna. Os cidadãos duvidam dela, o júri duvida delas, elas ouvem provocações durante todo o julgamento que, às vezes, se arrasta por meses. E é comum verem, no fim desse calvário, seu estuprador inocentado.

Somos (quem foi estuprada e quem não foi) vítimas de uma sociedade machista muito injusta que duvida e culpabiliza vítimas. O jeito de mudar isso é falar sobre isso o máximo possível, doa a quem doer. É mais fácil ainda botar a boca no trombone se você nunca foi violentado. E é obrigação de todos nós dar voz a quem está fragilizado.

Eu sugiro emplacar o indigesto assunto à mesa, nas festas de fim de ano. Tem sempre alguém que será sensibilizado pela mensagem e poderá pensar duas vezes antes de julgar uma vítima.

Faço isso por aqui e torço para alguém ouvir.

 

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Papai Noel existe? Ideias de como agir quando seu filho faz essa pergunta http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/12/22/papai-noel-existe-ideias-de-como-agir-quando-seu-filho-faz-essa-pergunta/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/12/22/papai-noel-existe-ideias-de-como-agir-quando-seu-filho-faz-essa-pergunta/#respond Sun, 22 Dec 2019 07:00:24 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1615

O natal e seus muitos brilhos (iStock)

Na década de 80, eu sabia que os papais-noéis de shopping eram homens velhos (ou nem tão velhos) vestidos de vermelho. Para mim estava muito claro que eles eram diferentes entre si. E que eles são podiam estar na TV, no shopping, no Pólo Norte e em todos os lugares ao mesmo tempo. E que, se fosse o de verdade, ele não chegaria de helicóptero. Quem é que trocaria um confortável trenó cheio de renas e de brilhinhos por um instável e barulhento helicóptero?

Era óbvio que aqueles velhinhos profissionais não tinham nada do Bom Velhinho que eu imaginava. E ainda era esquisito que eles se vestissem daquele jeito, sendo que fazia um calor danado no Natal e até o vovô, que andava sempre de calça, se arriscava a usar bermuda.

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Minha mãe me explicou que Papai Noel era mágico e, portanto, não tinha essas coisas de frio ou calor. Eu esperava ansiosa a noite de Natal para vê-lo mesmo que rapidamente — mamãe também tinha me avisado que os trenós eram muito rápidos e ele precisava largar o presente na garagem voando para dar tempo de entregar os outros em to-das-as-ca-sas-de-cri-an-ças-do-mun-do. Gente, que trabalhão.

Então eu me empoleirava no sofá na casa da vovó e ficava com os olhos bem abertos olhando a janela para ver se conseguia enxergá-lo. Mas o danado era rápido demais e sempre (sempre, sempre) tocava a campainha quando eu estava fazendo outra coisa (correndo atrás do meu irmão, tomando mais sorvete). Quando eu abria a porta desesperada e esbaforida, nada feito. O presente estava lá na garagem. O Papai Noel já tinha se empirulitado.

O tempo foi passando e eu comecei a ficar desconfiada. Na casa das minhas amigas ele entrava, sentava, tomava umas cervejas, até entortava a barba às vezes, mas só na minha que não? Minha mãe explicou que aquele Papai Noel das minhas amigas era alguém fantasiado. Que o verdadeiro, na verdade, só existia na ideia das pessoas.

Você sabia disso? É assim com mágicas e fantasias em geral. Pode ser que o Harry Potter de verdade não exista. Mas ele existe na ideia das pessoas e isso é um jeito de existir para sempre. O mesmo vale para o Bom Velhinho. Não é maravilhoso?

Quando eu cresci, li numa matéria da SuperInteressante que é justamente por meio dessas fantasias que as crianças começam a entender o mundo. E, veja só, nós precisamos da fantasia para dar conta de nossas angústias e ansiedades. Para as crianças, ainda é mais importante para o entendimento de questões complexas como vida, amor, caridade…

Meu filho, João, por exemplo, gostava muito da chupeta dele. Ela era a companheirinha dele nas curtas noites de sono que  cedia aos inúmeros encantos do mundo e dormia um pouquinho, para meu alívio. Mas João entendeu que, às vésperas dos três anos, era hora de ceder as chupetas para crianças mais novas, que precisavam muito delas.  Quem faria essa ponte seria o Papai Noel. Ele ficaria tão grato que daria, bem… o Lego do Toy Story para o João. Eu sei. Eu estava indo bem, mas cedi aos caprichos capitalistas do mundo.

Assim foi: João colocou a chupeta na árvore e, numa mágica de logística do pai dele, numa tarde atarefada de dezembro, o trem do Toy Story foi parar embaixo da árvore. As noites que se seguiram foram um pesadelo em que eu maldisse muitas vezes o fato daquele velho vestido de vermelho existir nas ideias das pessoas. Mas finalmente João aprendeu a dormir sozinho.

Outro dia, alguém disse que o Papai Noel estava no shopping. Ele me disse que queria falar com ele. Pensei que ia pedir outro Lego (do Carros? da Patrulha Canina?), já ensaiei o discurso anti-consumismo. Ou a chupeta de volta. “Eu queria dizer pra ele obrigado, mamãe. Porque ele levou minha chupeta e agora eu sei dormir sozinho que nem uma criança grande. Eu não preciso mais da chupeta, mamãe. Agora quem usa são os bebês.”

Nunca vou deixar de achar incrível a ideia do Papai Noel existir. Seja lá nos 80, ajoelhada no braço de um sofá estampado e olhando pela janela, seja agora, quando vejo aquele menininho dormindo. A fantasia é boa demais.

Agora, se ele existe? É lógico que existe, ou não passaríamos a vida toda falando dele.

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E os namoradinhos? Como está o pavor dos solteiros nas festas de fim de ano http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/12/19/e-os-namoradinhos-como-esta-o-pavor-dos-solteiros-nas-festas-de-fim-de-ano/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/12/19/e-os-namoradinhos-como-esta-o-pavor-dos-solteiros-nas-festas-de-fim-de-ano/#respond Thu, 19 Dec 2019 07:00:43 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1609

Namorado de Natal, a série norueguesa da Netflix: precisa mesmo estar acompanhada?

A pergunta causa arrepios nas almas solteiras, que sabem que terão que explicar sua condição civil para tios, madrinhas, avós e até primos. O problema aumenta conforme envelhecemos e seguimos sem ser um casal. Esse é o tema da (ótima) série norueguesa Namorado de Natal.

Johanne está cansada de passar pela humilhação de sentar entre os sobrinhos, um par de gêmeos de menos de um ano. Em sua casa, nas festividades de Natal, quem não tem um par ainda não é tratado como adulto. Ela tem 30 anos, e decide tomar uma atitude radical: inventa que tem um namorado. A partir daí, tem 24 dias para se virar e arrumar um. Quem nunca pensou em fazer algo parecido que atire a primeira pinha. 

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Há uma pressão gigante sobre o mês de dezembro em geral. No trabalho, precisamos concretizar metas para entrar no novo ano livres. Em casa, é importante arrumar tudo para receber as pessoas que vão chegar. E no coração, bem, é preciso ter um par para mostrar para a família que você não é uma largada, uma desprezada ou uma mal amada — talvez tudo isso junto.

Sabemos que essas críticas não fazem sentido, afinal, o feminismo já deu suas lições. Mas como explicar com didatismo para mães e demais parentes que cobram um par apaixonado: ei, gente, é ok ser solteira. E como não se abalar com as críticas e achar que realmente precisa ter o namorado de Natal que Johanne sai como uma doida para buscar nos aplicativos?

Uma amiga disse que no fim do ano os contatinhos entram em modo de espera. E que tudo bem: ela está ocupada demais cuidando da vida para se preocupar com isso. Outra amiga falou que coloca o assunto “boy” em suspenso, na lista do “resolvo isso no ano que vem”. Ela está feliz pensando no Natal com a família, no ano novo com os amigos, em conversar com a cachorra que acabou de adotar: “Tenho amor demais para dar. Ninguém ia aguentar. Ela (a cachorra) aguenta. Me acompanha em casa o dia todo e eu olho para ela e não acredito em como pode ser tão fofa”. Amor é amor, ué.

A série noruguesa se passa em um vilarejo de 5 mil habitantes coberto pela neve onde todo mundo se conhece. Nas lojas, os pijamas natalinos são vendidos apenas para casal. Embora estar com alguém pareça uma lei, os personagens todos parecem solitários aprendendo a lidar consigo mesmos. Minha velha máxima de adolescência: somos sozinhos que andam juntos. No fundo, não importa quem usa um pijama estampado com renas igual ao nosso. A solidão é intrínseca e o grande lance dessa existência é saber lidar com a nossa própria companhia.

Como vamos mostrar isso para quem nos cerca é o grande lance da vida. Johanne dá preciosas lições sobre o assunto nos seis episódios da série. Sem mais sopilers, eu sugiro que você veja. Vai ser, na pior das hipóteses, uma companhia deliciosa para algumas das horas melancólicas desse finzinho de ano.

 

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Adam Driver é um gostoso ou é um feio talentoso: internet segue discutindo http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/12/12/adam-driver-e-um-gostoso-ou-e-um-feio-talentoso-internet-segue-discutindo/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/12/12/adam-driver-e-um-gostoso-ou-e-um-feio-talentoso-internet-segue-discutindo/#respond Thu, 12 Dec 2019 07:00:07 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1598

O que ele tem? (AFP PHOTO/ ALBERTO PIZZOLI)

Aprendemos na adolescência que homens bonitos eram aqueles de olhos claros ou algo perto disso. Personificados pelo sucesso de Leonardo di Caprio no fim da década de 90, o galã era bem limpinho, quase com cheiro de talco. Mesmo os ídolos do grunge, um estilo em teoria sujo, Eddie Vedder e Kurt Cobain, tem um quê de asseados.

Ou você imagina que Vedder exale algo diferente de cheiro de Phebo misturado com cigarro e vinho? A combinação parece atraente. Uma amiga chegou bem perto e disse que ele é, sim, cheiroso. Ela também disse que nunca mais ia lavar nenhuma parte do corpo depois do aperto de mãos. Não julgo.

Muito mudou nos últimos anos. No Brasil dos anos 00, chegamos ao ponto de aclamar os barbudos do Los Hermanos como galãs. O estilo lenhador conquistou corações e até ganhou um coque nos anos 10. Enfim: o conceito do que é um homem gato virou uma coisa mais elástica.

Mas há quase uma década a polêmica continua a mesma toda vez que Adam Driver entra em cena.

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Afinal, ele é um gostoso ou só um feio (muito) talentoso?

O ator começou a mostrar a que veio em “Girls”, em 2012. Nas cenas da série desconstruída, em que a roteirista e protagonista Lena Dunhan está bem longe dos antigos padrões de beleza, ele chama a atenção justamente por que, bem, está bem longe dos padrões de beleza: “mas o que é que ele tem?” Uma amiga garante que nunca sentiu tanto tesão vendo alguma coisa quanto nas cenas de pegação de Lena e Adam em “Girls”. “Ele é um gostoso de um talentoso”, ela diz.

Quando uma mulher que não é linda (como imaginamos que devia ser a beleza) faz sucesso, ok, a gente respeita (ou nem isso). Quando um homem que não é lindo faz sucesso, a gente acha que talvez ele seja lindo. Sim, pois é.

Em “Infiltrado na Klan”, filme de Spike Lee que concorreu ao Oscar no ano passado, o carisma de Driver compete até com o do protagonista (John David Washington), um homem negro que tem a ideia genial de se infiltrar em uma organização criminosa racista. É o judeu que ele interpreta quem dá a cara a tapa. É por ele que torcemos nas duas horas de filme. Adam é gigante.

Não é só pelo 1,89 que ele ocupa espaço na tela. Driver é sensível e muito talentoso. Mesmo vendo claramente as presepadas que ele aprontou durante a relação com Nicole (Scartlett Johansson), suspiramos alguns “óuns” durante o filme “História de um Casamento”. A obra, monotema da semana em 10 entre 10 rodas de conversa, mostra diversas situações em que o machismo velado de um artista progressivão faz muito mal para a mulher. Sentimos raiva? Nãoooo. Queremos acolher o ator deitado no chão da cozinha (e ocupando todo o território do cômodo), totalmente desamparado. Vem aqui, vem.

O borogodó de Driver enche mais a tela que a beleza extraordinária de Scarlett. Como é que pode, rapaz?

Não sei dizer o que Driver tem. Não é o olhar de cachorro pidão que Leonardo di Caprio faz. Não é o desleixo calculado de estrela do rock que Vedder executa muito bem. Não é a safadeza espirituosa de Brad Pitt em cima de um telhado consertando a antena sem camisa em “Era uma vez em Hollywood” (credo, que delícia demais). Não é também o aspecto desencaixado Idris Elba, que parece sempre perguntar “o que eu estou fazendo aqui”.

Driver sabe onde está, sabe o que faz. Quando perguntado sobre o aspecto diferente de seu rosto (eufemismo mal educado da imprensa quando quer dizer o que ele acha de fazer sucesso sendo feio), ele responde que é apenas o seu rosto. Para ele, não é diferente. Ponto. E não é mesmo, a autoestima do homem hétero tem muito a nos ensinar.

Em cena de “Inside Llewyn Davis”, ele, Justin Timberlake (de uma beleza limpinha que não podia ter saído de outra década que não os anos 90) e Oscar Isaac (num visual mais sujo, descabelado e cigarro na boca, que tem seu valor) cantam juntos “Please, Mr Keneddy”. Ali, Adam apenas empresta sua voz para fazer uns ruídos e cacos na música. Basta: consegue chamar mais atenção até mesmo que o carismático Justin.

Deve fazer o mesmo em Star Wars, que estreia ainda esse mês no cinema. Um pouco de esquisitice em guerras estrelares. Mas, gente, o que esse homem tem?

A discussão segue rendendo na internet. Mulheres e homens parecem inconformados de estarem tão encantados com sabe-se lá o que.

Não sabemos mesmo o que tem Adam Driver.

E quem deveria se importar com o que ele não tem?

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História de um Casamento e o divórcio: o que sobra do amor quando ele acaba http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/12/10/historia-de-um-casamento-e-o-divorcio-o-que-sobra-do-amor-quando-ele-acaba/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/12/10/historia-de-um-casamento-e-o-divorcio-o-que-sobra-do-amor-quando-ele-acaba/#respond Tue, 10 Dec 2019 07:00:09 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1591 Quando o casamento desmorona, a gente tem que lembrar do que gostava no outro para que o resto de nossa existência seja possível (Divulgação)

O roteirista e cinéfilo Diego Olivares, que (ainda bem) é meu amigo, me disse na sexta-feira (6): “História de um Casamento estreia hoje na Netflix. Vi na mostra em outubro e esperei até hoje para indicar para você.”

Obedeci na mesma noite e, prostrada no sofá de minha sala em uma madrugada insone, assisti as 2h16 de um filme extremamente sensível, que fala sobre o fim do amor. E não é de se impressionar, mas a gente esquece: a obra, que foi a campeã de indicações ao Globo de Ouro (6 categorias), é, na verdade, sobre o amor que nunca acaba.

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“História de uma Casamento” começa com a leitura em off de duas cartas: uma de Nicole (Scartlet Johason) para Charlie (Adam Driver) e uma dele para ela. Ambos dizem, em um texto repleto de doçuras ilustradas por cenas que aquecem o coração, o que mais amam no outro. A cena seguinte é no consutório de um terapeuta que pede que Nicole leia sua carta. Ela se recusa.

Apesar de todo amor estampado nas palavras que acabamos de ouvir, o casal está se separando. E, segundo o psicólogo, é importante que se lembrem porque um dia gostaram um do outro para que o divórcio seja o mais pacífico possível. É esse o jeito de evitar que ambos não sofram muito mais. Mas, além disso, é importante que não causem mais sofrimento para o filho deles, Henry, que tem 8 anos e, clichê: não tem nada a ver com a história.

O filme não causou uma avalanche de sentimentos apenas na minha casa, onde pensei nos amores e divórcios que já vi (de dentro ou de muito perto). Em uma enquete rápida no Instagram, recebi diversas mensagens de outras mulheres que também estavam atônitas diante da clareza com a qual o diretor Noah Baumbach expõe a história de todos nós. Os amores acabam, já aprendemos a essa altura. Estamos ainda em uma idade em que é raro que acabem sem filhos — e isso muda a história de Charlie, de Nicole, de todos nós. 

A situação é um clássico das relações: a mulher que larga seus sonhos para investir na carreira promissora do marido. Quando percebe, é tarde. Ela mora em uma cidade em que não quer, não sabe direito quem é, se submete à análise profissional dele que, além de marido, de homem organizado e exigente, é seu diretor em uma companhia de teatro. Quando ele abre o caderninho para dar “toques” profissionais que ela ouve com humildade, fica claro que vários anos de críticas chegaram a um limite.

Mas a história vira. Sabemos que num processo de divórcio não há vencedores. Todos os envolvidos estão perdendo algo (ou muito), seja dinheiro, autoestima, dignidade ou tempo com aqueles que amamos. Inclusive aqueles que, ali na história, não se divorciaram: Baumbach nos lembra o tempo todo de que os filhos são as vítimas indefesas de uma briga amorosa repleta de egos. “Meu filho precisa saber que eu lutei por ele”, diz Charlie. “Mas hoje é meu dia”, diz Nicole num outro momento. A frase dói nos ouvidos de quem, de fora, vê que amor não se mede em montante de horas.

Em outra cena, o garoto passa pelo pai deitado, sangrando no chão da cozinha após se ferir com um canivete, e nem percebe que há um problema ali. Fica claro que estamos esperando coerência de uma criança de 8 anos, já que seus pais não conseguem se comunicar de maneira não-bélica.

A belicosidade só aumenta quando entram em cena advogados nada conciliadores, que claramente estão usando a dor humana para provarem sua própria competência. Lógico, há exceções: um dos advogados de Charlie tenta o tempo todo fazer com que o processo seja o menos doloroso possível. Mas os conciliadores externos não têm muita voz no divórcio quando o ódio grita mais alto. O público logo nota que a corência depende de quem está se separando. Pena que às vezes tudo isso fique claro para os maiores interessados tarde demais. Ou nunca.

Amamos e nos relacionamos pensando que esses enlaces vão durar. Não temos filhos cogitando que esse amor todo vá terminar numa sala fria em que um estranho lê em termos rebuscados os motivos para o fracasso de nossa vida amorosa. Isso acontece, sabemos. Se o divórcio é um amontoado caro de perdas que mencionei acima, também é, em muitos casos, inevitável. E o ganho de liberdade pode suprir tudo de ruim que vem junto. Basta lidar de uma maneira minimamente coerente com o que se quer para os próprios filhos. E não imagino que seja diferente de empatia, compreensão, amor.

Charlie e Nicole nos mostram por mais de duas horas a nossa impermanência. O quanto podemos nos fechar em nós mesmos sem que olhemos para o outro. Nossa dor é maior, nosso ciúme é maior, nosso egoísmo é maior que o nosso amor por nossos filhos — por mais que doa demais admitir que uma hipótese maluca dessa seja verdadeira.

Que a gente possa aprender a ser menos ensimesmado nas relações, possa pedir ajuda e ajudar. Que a gente saiba ler a carta que nos lembra porque raios fomos gostar tanto um dia daquele estranho. Que a gente guarde as palavras cruéis antes de proferir — será essa violência que verbalizamos que nos derrubará de joelhos, como aconteceu com Charlie na cena que ilustra esse post.

O tsunami causado por Noah Baumbach na verdade é um lembrete pungente de quem somos e do que podemos vir a ser. Diego trouxe em seu texto sobre o filme uma lembrança do hit de Bidê o Balde, nos anos 00. “É sempre amor mesmo que acabe”.

Se a gente não esquecer disso nunca, fica mais fácil tocar o barco.

 

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A “surra de bumbum” de Anitta é uma lição de amizade entre mulheres http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/11/29/a-surra-de-bumbum-de-anitta-e-uma-licao-de-amizade-entre-mulheres/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/11/29/a-surra-de-bumbum-de-anitta-e-uma-licao-de-amizade-entre-mulheres/#respond Fri, 29 Nov 2019 21:59:21 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1582

(Divulgação)

O novo clipe de Anitta, “Combatchy”, foi lançado há 10 dias e já tem 15 milhões de visualizações na hora em que escrevo esse texto. Agora que você está lendo, deve ter ainda mais. No vídeo, de pouco mais de três minutos, Anitta dá um tempo nos “featuring” internacionais e se une a outras três brasileiras: Lexa, Luisa Sonza e MC Rebecca.

Elas simulam uma richa no começo do clipe. Estão indo para uma festa em carros diferentes e não querem encontrar o que parecem ser as meninas de outras gangues. Quando chegam no estacionamento do lugar, declaram que vai ter “fight de bumbum”. O tipo de duelo é muito parecido com aquele do clipe “No guidance”, de Chris Brown com Drake, que também tinha carros e a estética da rua à noite.

Os dois dançam para ver quem ganha na performance. Brown, que é dançarino, humilha Drake e essa é a piada. Anitta, aliás, usa um penteado de tranças de lado que lembra o de Drake em alguma fase da carreira. Outra esperteza danada, já que rolou polêmica na passagem do cantor pelo Brasil, quando ambos começaram a se seguir nas redes.

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Na batalha das mulheres a história é diferente. Pois começa o “Combatchy”, que dá nome à música. “Agora vai começar o combate/ Quica, quica, bate, bate/ Hoje vai rolar um fight de bumbum/ Aqui não vai ter empate/ O bagulho é de verdade”.  Cada uma das cantoras avisa que “seu popô vai dar nocaute em qualquer um”. E aí que está a fina ironia e, pasme, a lição de sororidade. Mulher na pista não compete com mulher. O que elas mais querem é que dê empate, sim. E todo mundo vá até o chão.

O clipe segue estruturando os rounds de uma luta que só existe no passado. Ali, rebolando, as meninas estão em uma grande festa em que torcem uma pela outra. As supostas gangues do começo a história viram um grupão de mulheres dançando e sorrindo.

É assim mesmo que funciona a dinâmica da pista de dança hoje. Lembrei de uma festa, no ano passado, em que a repórter Camila Brandalise tentava me ensinar a rebolar como ela. Caso eu aprendesse a executar os movimentos (não aconteceu do jeito que eu queria, infelizmente), ela vibraria por mim. “Não é competitivo, pelo contrário. Quando eu começo a rebolar, quanto mais mulher estiver na pista rebolando muito comigo, melhor”, ela me disse. É verdade.

Diferentemente na maioria dos clipes de Anitta em que um homem legitima o impressionante rebolado da cantora, dessa vez o recorte é fiel à realidade. Na pista, a gente não se importa com os caras mesmo. Fica muito mais legal se estivermos botando pra tremer, descer, jogando e indo até o chão entre nós mesmas.

Anitta tem uma participação importante nisso. Ela legitimizou o “você pensaram que eu não ia rebolar minha bunda hoje?”, seu bordão nos shows. A frase perdeu a vulgaridade de uns anos atrás. Ela até deixou a expressão “bunda” pra trás também e adotou o pueril “bumbum” (“cê tá louca tá mexendo com o bumbum”, “vai tomar surra de bumbum”). Uma educação quase recatada, que deixaria minha mãe orgulhosa. Ok, exagerei.

Aprendi também recentemente com as repórteres de Universa que existe até a rabaterapia: uma aula que acontece no centro de São Paulo com o objetivo de fazer as mulheres tirarem amarras e traumas pelo simples fato de mexer a bunda. Digo, o bumbum (desculpe, mãe).  Nathália Geraldo e Ana Bardella, aqui da redação, testaram. Funciona mesmo, elas garantem.

Na semana em que soltamos essa matéria, conversamos com algumas universitárias de comunicação que moravam na comunidade de Paraisópolis. “Uma aula, pra mexer a raba?”, elas estranharam. “É só ir no baile que a gente ensina, ué”.

É isso, mexer a raba é sororidade. É de extremo interesse de qualquer mulher que outras também vão “até o chão” (até o chão).

Deve ser meio difícil para um homem entender isso. A gente compreende. Não dá para ter a dimensão do que nunca viveu. E pior: não estamos muito interessadas em dividir esses momentos com as amigas com caras que nos olhem com qualquer olhar que não seja o de partilha de um momento bom. Mexer a raba, rapaz do céu, é muito bom.

O clipe de Anitta é, sim, empoderador. A gente termina de ver fazendo “Turudum Turudum Turudum Turudum” na cadeira.

Na nossa pista, deu empate. E todo mundo saiu ganhando.

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Caiu outro avião e a gente não aprendeu a aproveitar o momento e os amigos http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/11/21/caiu-outro-aviao-e-a-gente-nao-aprendeu-a-aproveitar-o-momento-e-os-amigos/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/11/21/caiu-outro-aviao-e-a-gente-nao-aprendeu-a-aproveitar-o-momento-e-os-amigos/#respond Thu, 21 Nov 2019 07:00:12 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1570

(iStock)

Eu estava saindo da redação na véspera de feriado, quando ouvi: caiu um avião.

Minutos depois, estava saindo do metrô, e minha amiga, a editora Andressa Zanandrea, escreveu: “você conhece quem estava no avião”. Meu coração deu uma paradinha até a próxima mensagem chegar. Era Marcela Brandão, estudamos juntas por quatro anos na faculdade. Nunca fomos próximas, mas lembro exatamente do rosto dela e da voz dela. Chique, bem vestida. Ela era muito amiga da Thami Nóbrega, de quem eu sou amiga. Marcela tinha 37 anos, como eu. Ela tinha um filho como eu. Ela tinha melhores amigas como eu.

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Fui até minha casa naquela quinta-feira chuvosa tentando entender as mortes repentinas. Uma mulher está indo para um feriado em família e, de repente, acontece uma tragédia. O existir e o não-existir repentino. Me coloquei no lugar de Thami, perdendo uma de suas grandes amigas.

Thami me disse que na última conversa ao vivo com Marcela, elas haviam falado sobre ter tempo para quem a gente ama. É uma conversa constante nas rodas de mulheres da minha idade que, tomadas pelos afazeres da maternidade e do trabalho, sentem falta de três horas a mais por dia. Para lavar o cabelo, para ver uma série, para ter uma conversa aprofundada em alguma coisa que não seja reclamar que está faltando tempo. Para dar risada com os amigos. Para ficar quieta, sem fazer nada, olhando a chuva bater no vidro por 15 minutos.

Desde o dia do acidente penso na falta de tempo. Nas respostas que não dou quando estou no trabalho, nas mensagens que nem chego a ler porque não consigo. Na chupeta do meu filho que não consigo tirar porque não tenho disposição para enfrentar algumas noites sem dormir (não agora). E o não agora vai passando para o próximo mês, e os dentes dele estão ficando tortos, e isso só aumenta minha cobrança diária por ter mais tempo para ter mais disposição para ensinar aquele garoto a dormir sem chupeta. Toda essa angústia ajuda em exatamente nada.

Outro dia, uma sexta-feira, passei no mercado próximo à minha casa para comprar algumas coisas depois do trabalho. Na fila, uma dezena de pessoas sozinhas e cansadas, com garrafas de vinho ou cerveja na mão. Tive a impressão que as pessoas trabalham para pagar os drinques que podem fazer com que elas se esqueçam do trabalho e tenham forças para trabalhar no dia seguinte e possam comprar sua diversão de novo. E, te digo, não sou ninguém pra julgar.

Lógico que é muito bom ter um trabalho. Lógico que é muito bom ter amigos que sintam nossa falta como sentimos a deles. Lógico que ter filhos é legal demais e, pensando bem, aquele menino é fofo com chupeta e tudo.

Mas não tem um jeito, um jeitinho muito específico, de curtirmos tudo isso e nossos próprios momentos apesar do cansaço, apesar da tristeza, apesar dos pesares todos?

Fico pensando em Thami e Marcela, nos 20 anos de amizade em que uma brindou a outra com esse carinho extremo que é se colocar a disposição para ouvir. Ciente de que isso nunca substituiria sua melhor amiga, eu me coloquei a disposição para escutar Thami sempre que ela precisar dizer qualquer coisa.

E você, já escutou alguém hoje? A gente conta demais com o amanhã, com a sexta-feira, com o vinho que a gente vai buscar correndo no supermercado.

Mas a verdade mesmo é que a gente só tem o hoje.

 

* esse texto é para a Virginia, com um abraço apertado para todos os familiares da Marcela.

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O que aprendi sobre os brancos desde que me casei com um homem negro http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/11/17/o-que-aprendi-sobre-os-brancos-desde-que-me-casei-com-um-negro/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/11/17/o-que-aprendi-sobre-os-brancos-desde-que-me-casei-com-um-negro/#respond Sun, 17 Nov 2019 07:00:36 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1548

E se seu ambiente de trabalho fosse assim, meio a meio? (iSTock)

“Eu não sou racista”, “Não é possível que ainda exista racismo no Brasil” são frases que nós brancos dizemos com tranquilidade. Eu nunca entendi direito durante minha adolescência e grande parte da idade adulta, o que era o racismo na prática. É impossível que eu entenda isso, como é impossível que você, meu leitor branco, entenda também. Não dá para compreender o que a gente não vive.

Por isso, a gente estuda. Entender o racismo funciona mais ou menos assim: você não consegue entender o que o outro sente, então você ouve o outro. Vale para qualquer relação: casais, amigos, colegas de trabalho. E brancos com negros. Ah, mas então o negro precisa parar e ouvir o que eu, branco, sinto quando perco minha vaga para ele por causa das cotas? Se ele quiser, sim. Mas a verdade é que ele não precisa. Porque, como você estudou na escola, os negros foram arrastados em navios até aqui por muitos séculos. Eles foram libertos há pouco mais de 130 anos, mas o que foi feito desde então para reparar essa condição? Ficaram sem trabalho, sem casa e sob um forte senso de racismo que não os considerava SERES HUMANOS. Ok, tudo isso você sabe, porque você estudou. E agora, passado esse século e meio: em que ponto nós, brancos, estamos, dessa luta?

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Quando conheci meu marido, o jornalista esportivo Rodolfo Rodrigues, não imaginei que ele vivesse o racismo. Negro de pele clara, ele herdou da mãe os traços brancos gaúchos que são revestidos pela pele escura que ele herdou no pai. A mistura resulta no eufemismo racista que vira e mexe dizemos para pessoas negras de pele clara na praia: “Você está com uma cor linda”. Ele ouve o “elogio” calado. Ele não está com aquela pele. Ele É negro.

Não sei quantas vezes na minha vida eu disse que estava ficando pretinha, que meu objetivo do verão era ficar preta, que eu ia voltar da praia bem pretinha. Aprendi muito tardiamente (eu diria que algumas semanas atrás, com a repórter Nathália Geraldo, que trabalha em Universa e também é negra de pele clara) que isso é racismo. Beleza, bola para frente. Eu quero ficar bronzeada. Preta, neguinha, negra, nunca serei. Sou uma pessoa branca.

Com a convivência com Rodolfo, percebi que ser negro era considerado um apelido engraçado. Há quase uma década, cabia ainda brincar com piadas altamente racistas sob a desculpa de “ele é meu amigo e nunca se incomodou com isso”. Eu acreditava que ele realmente não se incomodava até o dia em que perguntei: “Você se incomoda quando todos estão dizendo que você é preto em tom de brincadeira repetidas vezes?” Surpresa: ele se incomodava. Com a difusão da informação nos últimos anos, graças a Deus, os brancos de nosso círculo foram parando de fazer brincadeiras com a cor da pele dele. E eu aprendi mais essa: não é porque a pessoa não diz que se incomoda que ela está de boa com aquilo. Próximo passo.

A gente convive com negros, claro que convive. Várias das pessoas que nos servem são negras. Trabalhando conosco nas grandes redações? Poucos.

Essa crítica foi muito bem-feita pela repórter da Piauí Yasmin Santos na matéria de capa desse mês. Ela faz uma bela análise sobre o assunto sob a própria perspectiva, de mulher negra isolada na grande imprensa. É importante que nós, brancos, reconheçamos o racismo no meio em que estamos inseridos. O meu é o jornalismo. Trabalhar com Nathália Geraldo me ensina todos os dias.

O racismo corre embaixo das nossas vistas

Um dia, no auge da temporada de réveillon no Rio de Janeiro, ficamos, eu e Rodolfo, na praia até mais tarde e não conseguimos achar um taxi ou uber para voltar para casa. Entramos no metrô naquele horário de rush do começo da noite. O Rio de Janeiro inteiro saindo da zona sul e indo para algum lugar. No vagão, Rodolfo disse: “você é a única branca daqui”. Eu tinha percebido. Todos os passageiros, que estavam na praia se divertindo ou trabalhando, estavam indo para casa naquela noite de metrô, o meio de transporte mais barato, e eram negros. Eu, normalmente no conforto de um taxi essa hora, nunca tinha notado. O racismo anda debaixo da terra. A gente realmente não vê, se não quiser.

Há algumas semanas, o técnico do Bahia Roger Machado fez uma declaração emocionante numa coletiva. Ele disse que era raro alcançar uma posição como aquela no futebol, por mais que os negros sejam os verdadeiros protagonistas do esporte em nosso país. Ele discutiu na coletiva a população carcerária, diferenças salariais, número de mortes, violência etc. por cinco minutos em que os jornalistas ficaram ali, aprendendo. Encantados.

Nossos colegas ficaram empolgados — e eu também — afinal, finalmente estamos falando sobre isso. Rodolfo teve uma reação que eu estranhei a princípio. “Não adianta curtir o discurso do Roger se dentro das redações continuamos sem pessoas negras”, ele disse em seu popular Twitter, onde normalmente posta os números do futebol, setor em que ele se especializou. As postagens reclamando de racismo tiveram um número consideravalmente mais baixo de interações do que ele está acostumado.

Por que ninguém quer falar disso?, eu perguntei ingenuamente. E, num indigesto café da manhã, ele perguntou se eu tinha contratado algum jornalista negro recentemente. Eu havia contratado uma repórter branca há duas semanas. Ele deu de ombros como quem sugere que o racismo estava lá dentro de nossa casa — essa casa interracial que eu me gabo de ter.

Recentemente, após os casos de injúria racial constantes no futebol, o narrador Julio Oliveira falou em um programa da Sportv. Ele dizia que vê o racismo quando, num restaurante vazio, é acomodado nos fundos. Nunca acreditei que isso existia e é mesmo de duvidar (afinal, sou branca, nunca vivi nada parecido). Só entendi quando cheguei com meu marido em um restaurante famoso, uns anos atrás, às 18h30. O local estava totalmente vazio, mas o maître, confuso, pediu que esperássemos. Ainda sob a luz do horário de verão, ele não sabia se nos acomodava na varanda, que tinha vista para calçada, o que queríamos. Nesse tempo, uma senhora loira chegou e o maître arrumou uma mesa para ela imediatamente. Depois de um tempo, ele nos colocou na varanda, como desejávamos, mas atrás de uma planta, na última mesa, próxima ao banheiro. Rodolfo disse que estava acostumado. Eu fiquei muda.

A situação se repete em lojas de shopping — sou atendida bem antes dele em qualquer situação. Dia desses, andando na Av. Faria Lima, em São Paulo, em um dia frio, ele entrou no Shopping Iguatemi para usar o banheiro. Ele estava de jeans e moleton com capuz e nem percebeu que “deveria” ter tirado o capuz. Foi seguido por dois seguranças até o banheiro. Saiu constrangido.

Lembro disso cada vez que penso em atravessar a rua quando vejo um moleque de capuz — e geralmente eles são negros. Sabemos o que eles sentem? Nem ideia. Jamais entenderemos. O que podemos, como sugere Chelsea Handler em seu documentário na Netflix “Hello, Privilege”, é pensar sobre isso. E então, imediatamente, começar a fazer. Olhar para o lado, constatar que vivemos entre brancos e traçar estratégias para mudar esse quadro imediatamente.

O filme de Chelsea, aliás, é feito de uma branca para brancos. Os negros sabem tudo aquilo de cor. A gente é que tem que colocar a cabeça para funcionar e pensar em onde está o nosso racismo que não chama negros para trabalhar com a gente com a desculpa de “eu não os conheço”. Não ser racista não basta, já disse Angela Davis há 40 anos. Ser antirracista é ir buscá-los onde eles estiverem e treiná-los para que se equiparem em qualidade ao profissional que teve todos os privilégios que eu e você tivemos.

Mas estamos caminhando para isso?

Quando vi a bancada da Sportv essa semana com a repórter Débora Gares e o repórter Diego Moraes, fiquei empolgada. Aquilo para mim é esclarecedor. Mandei uma mensagem para o Rodolfo dizendo que 50% das pessoas no debate era negra. Ele de novo se mostrou desesperançoso. “São dois negros falando sobre racismo de costas para uma redação majoritariamente branca. Eu quero é metade da redação negra e todo mundo falando só de futebol, que é um assunto muito mais legal”.

Fiquei meio irritada: afinal, nada está bom para ele? Aí fui percebendo a postura do próprio Diego: ele estava com medo de falar todo o racismo que vivencia na sua profissão, por receio de perder o emprego. Será que aí na sua empresa não tem alguém com medo de reclamar do nosso comportamento? Mas peraí: quantos negros tem aí na sua empresa?

Outro dia perguntei isso para um amigo que vende carros de luxo. Ele disse que da porta da oficina para trás, 100%. No salão onde ficam os carrões, bem… nenhum.

A bailarina Naiane Rosa me disse que não consegue evitar entrar nos eventos e festas que frequenta e observar quantos negros estão ali além dela. Ela diz que sempre constata que nenhum — se houver, estão a servindo. No prédio de um bairro chique de São Paulo onde ela vive, as vizinhas brancas param na porta esperando que ela segure o portão para elas passarem. No elevador, perguntam em que andar ela trabalha. Naiane tem uma carreira de sucesso e é lindíssima. Ela conta que quando é olhada na rua, as pessoas dizem que é porque ela é bonita. “Mas eu sei reconhecer o olhar de racismo”, ela fala. Eu arrisco dizer que o olhar quer dizer: mas como essa preta se atreve a ser assim tão bonita?

Talvez você só tenha lido esse texto até aqui porque eu sou branca. Se o texto fosse do Rodolfo, da Nathália, da Débora, do Júlio, do Diego ou da Naiane, você acharia chato. É só mais um negro reclamando de racismo no Brasil, não é? No dia em que realmente pudermos ouvi-los, quem sabe, depois de um tempo, não haverá mais negro reclamando, nem racismo. Aí o Rodolfo vai poder falar só de futebol que, aliás, é o assunto que ele mais gosta.

Eu só estou aqui dizendo o óbvio.

É utópico, é distante. Mas é nesse mundo que eu e você queremos viver, eu acho. Por isso, é urgente.

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Débora Nascimento não amou filha logo no parto. Você se choca com isso? http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/11/14/debora-nascimento-nao-amou-filha-logo-no-parto-voce-se-choca-com-isso/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/11/14/debora-nascimento-nao-amou-filha-logo-no-parto-voce-se-choca-com-isso/#respond Thu, 14 Nov 2019 07:00:11 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1550

Débora e Bella: é ok não estar plena o tempo todo, ok? (Reprodução/ Instagram)

“Você não nasce amando aquele pedacinho de carne. Não vou ser hipócrita e leviana de falar que assim que ela saiu de mim, eu já estava amando. Não é tão fácil assim. É um processo que todas passamos”, disse Débora Nascimento, com um discernimento de fazer inveja, em entrevista à Revista Quem. 

Sabrina Sato também falou umas verdades sobre a gravidez ontem. Que romantizar o período a fez quebrar a cara: ela só chorava com Zoe na barriga. Eu só consigo pensar que é algo bom falarmos nisso abertamente.

As frases de Débora e Sabrina podem chocar muita gente que se vê capaz de amar o filho já na barriga. Mas abraça muitas outras mães que não se sentem totalmente ligadas ao filho assim que ele nasce. Eu me enquadro nesse segundo grupo. Lembro da sensação de, na maternidade, com filho dormindo em uma caminha transparente e eu eliminando coágulos gigantescos na hora do banho, pensar: o que foi que eu fui fazer? “Agora estou aqui com esse completo desconhecido, a quem estarei ligada pelo resto da vida, toda acabada”, eu falava para mim mesma.

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Antes que você julgue o pensamento egoísta, veja a fala de Débora sobre o tema: “Aprendi algo essencial: nunca julgue uma mãe. Cada criança é uma criança, cada vivência daquela mulher é diferente e cada mãe é uma mãe”.

É lógico que eu não odiava meu filho. Mas é pedir um pouco demais que eu amasse loucamente uma pessoa que não conhecia. Spoiler: hoje eu o amo mais que tudo. Convivemos intensamente por mais de dois anos, aprendemos coisas um do outro, dormimos pouco, comemos bem — tudo isso junto. Não trocaria nossa convivência pela minha liberdade nunca na vida.

Mas se aquela Luciana lá atrás viesse aqui e visse um dia da minha vida… talvez eu tivesse usado camisinha. A questão é que aquela Luciana não existe mais. E isso é maravilhoso.

Débora prossegue: “Ela faz parte da minha vida, mas não vivo em função apenas dela. Existe um período que a gente tem o boom de hormônios e que você e a neném são quase que uma pessoa só. Mas sempre tive consciência de que eu e ela somos pessoas distintas.” Que alívio é que possamos ler algo assim. Umas décadas atrás, era um pecado uma mãe admitir que não vivia só para o filho. Pensando bem, algumas pessoas se chocam até hoje.  

Mas a gente segue buscando um jeito de sermos nós mesmas nos intervalos da maternidade. Mentira, maternidade não tem intervalo. A gente segue tentando.

Ontem eu estava doente.  Meu dia tinha começado às 6h da manhã num laborátorio de exames, seguiu por hospitais em busca de diagnóstico, continuou ao chegar tarde no trabalho e, por consequência, ficar até mais tarde para dar conta de tudo.

Às 21h, quando cheguei em casa, posso dizer que olhar aquela carinha que dizia “brinca comigo, mamãe?” foi o ponto alto do meu dia. Mas não era exatamente o que eu QUERIA fazer. Sentei no chão com ele, mas estava com dor. Estava cansada. Estava com fome. Eu queria brincar, mas não queria nem um pouco brincar. Parece loucura, mas tenho aprendido que ser mãe é exatamente isso. Uma contradição eterna que beira o insano.

Aquela coisinha fofinha querendo brincar de dinossauro, de casas de Lego, de quebra-cabeça, de pintura com tintas e tudo isso junto, às 21h, era o que eu menos queria enfrentar. Mas sinto total liberdade de dizer isso em voz alta. Entre minhas amigas, podemos reclamar das crianças com frequência. “Não aguento mais levar no penico”, “Estou enlouquecendo com as birras” e, quase sempre que alguém o elogia: “Você quer levar para você?”.

Nenhuma de nós chegou ao extremo de doar a criança (talvez porque ninguém tenha aceitado, também). A piada só existe porque o sentimento é o extremo oposto. Um amor extremo.

Mas talvez a liberdade de falar abertamente de quando eu não quero estar com aquele menino adorável seja justamente o que me dá forças para sentar no chão e brincar um pouquinho. E depois inventar uma leitura de livros, em que nenhum dos dois se mexa muito, e que logo evolui para o soninho. Logo, no caso do meu filho, é depois das 23h. Mas as vitórias podem tardar na maternidade. Aliás, o que é demorar duas horas para alguém que passou 15 horas em trabalho de parto e quatro horas só no expulsivo? Tá tudo beleza.

Que bom que as Déboras e Sabrinas estão por aí falando a verdade sobre o que a gente sente. E quem não sente, tudo bem, também. É na diferença que mora a maravilha de ser humano. Agora, olha só, vou na reunião de pais. E depois sentar no chão e brincar — a nova moda da minha casa é cantar parabéns para todos os filhotes da Patrulha Canina (brincadeira qe se estende por horas).

Sigamos. Sorrindo quase sempre, felizes da vida. Mas confessando que a gente não é de ferro quando o bicho pega para valer.

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