Luciana Bugni http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. Mon, 10 Feb 2020 18:09:38 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 SexEducation mostra o que toda mulher tem em comum: mas tem muito mais http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2020/02/01/sexeducation-mostra-o-que-toda-mulher-tem-em-comum-mas-tem-muito-mais/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2020/02/01/sexeducation-mostra-o-que-toda-mulher-tem-em-comum-mas-tem-muito-mais/#respond Sat, 01 Feb 2020 07:00:52 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1659

Uma cena me impressionou em SexEducation, a série britânica que os jovens do mundo não param de maratonar até terminar, na Netflix. Um grupo de meninas é forçado a ficar em uma sala até achar algo em comum entre elas. A missão é difícil: elas se detestam e algumas não gostam nem de chocolate. Então finalmente descobrem que todas foram assediadas em algum momento da curta vida delas (as moças têm apenas 17 anos).

O resultado da atividade é: “o que temos em comum são pênis não solicitados”. Infelizmente é um assunto que une qualquer mulher de qualquer idade. Todas nós fomos vítimas de algum tipo de comportamento abusivo em alguma fase da vida adulta. E, às vezes achamos que não fomos, mas só não percebemos.

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Para as meninas da série, é fácil perceber isso. Elas são jovens e já foram criadas sob os preceitos do feminismo, esse movimento centenário que bagunçou nossas cabeças há uns anos. Para as mulheres maduras, um pouco mais difícil. Crescemos aprendendo que mulheres não deviam ser nossas parceiras. Que mulheres puxam nossos tapetes. Que mulheres roubam nossos namorados. Que mulheres estragam nossa paz no ambiente de trabalho.

Um tempo atrás, discuti com uma colega de trabalho sobre o assunto. Marília Filgueiras, hoje uma das minhas amigas do peito, dizia que o feminismo era necessário e eu discordava. Eu achava que as pessoas eram iguais. Ela me explicava que não. Eu não conseguia nem computar os abusos e machismos que já havia enfrentado, vivia em negação dizendo frases como: “mulher é muito chata”, “meus grandes amigos são homens”, “quem aguenta mulher”. Foi aos poucos, lendo bastante, conversando muito com outras mulheres que percebi o que as meninas de SexEducation descobriram ainda no colégio.

Na TV, quando uma delas confessa o medo de subir no ônibus e viver um novo assédio, todas se unem no ponto de ônibus e entram juntas. Juntas somos mais fortes mesmo. O que temos em comum, infelizmente, é a nossa impotência individual. Mas juntas, ela deixa de existir. E então, o que temos em comum é o nosso afeto, a nossa adimiração. A nossa consciência de potência.

Essa manhã, minha amiga da adolescência me ligou para falar sobre nossas carreiras. Ao telefone, como nos tempos antigos, vibramos uma pela outra. Aos 16 anos, eu “roubei” o namorado dela. Passamos alguns anos sem nos falar. O namorado se foi e nós ficamos. Juntas somos mais fortes. Ela soube me compreender, eu soube explicar: e somamos mais de 20 anos naquela conta da adolescência.

Hoje, também, minha primeira amiga de infância me escreveu no Instagram. Nós não nos falamos há décadas, mas eu lembro até da voz dela. Ela deve ter me encontrado pelo Uol, pela rede social, eu não sei. Sei que passei meu Whatsapp e ela disse: “vou levar as crianças na escola e já falamos com calma”. Pronto. Está absolutamente claro o que temos ainda em comum. Somos mulheres correndo atrás de dar conta de tudo e tentar falar com calma com alguém querido no fim do dia.

Eu sei que você que está me lendo tem muitas amigas queridas e torce por elas. Mas a beleza do movimento feminista que virou nossas cabeças é ver essa mulher querida até naquela desconhecida no ponto de ônibus que pode estar apavorada de medo, pode estar com pressa, pode estar com o coração partido, pode estar com saudade do filho, pode estar feliz da vida. Ela pode estar exatamente como você. Que saibamos cada vez mais partilhar e nos proteger até ficarmos invencíveis.

Esse blog vai dar um tempinho por aqui (mas logo volta). Enquanto isso, você pode continuar essa conversa comigo no Instagram: @lubugni . Vai ser um prazer seguir dividindo e aprendendo com vocês.

 

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Por que será que nesse BBB ninguém se pegou ainda? http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2020/01/30/por-que-sera-que-nesse-bbb-ninguem-se-pegou-ainda/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2020/01/30/por-que-sera-que-nesse-bbb-ninguem-se-pegou-ainda/#respond Thu, 30 Jan 2020 07:00:02 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1649

Uma semana  preso em uma casa com pessoas bonitas, saradas, esculpidas pelo leg press. Há 20 anos, essa é a receita para o sucesso da pegação no BBB. Bastam as primeiras festas para a libido gritar mais alto, o álcool dar aquela mãozinha e pronto: todo mundo se pegar.

Quer dizer, parece que esse ano a coisa está um pouco mais devagar. Primeiro, rolou uma suspeita de assédio. Aí os homens começaram a fazer comentários sobre as “feias” mulheres lindas que estão na casa (e que eles só pegariam se estivessem bêbados). A internet achou estranho, porque os caras não são, assim, o modelo de padrão de beleza. E tudo bem não ser, o problema é criticar os outros.

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Então eles começaram a dizer que elas são frágeis, e que não dá para ficar com elas pois existe o risco de se prejudicar no jogo. Aí rolou novamente um movimento meio estranho e desrespeitoso (algumas delas perceberam, outras nem tanto). O fato é: ninguém se pegou. Não rolou nem flerte. Não rolou nada, exceto comentário machista e histeria na internet. Lá dentro, elas estão dizendo até que isso é misoginia.

Um fã do programa perguntou em que esgoto Boninho achou os caras, ele respondeu que nem ele sabia. Arrisco a dizer que Boninho sabe, sim. Eles procuraram atentamente por garotos machistas que dão esses “closes errados”. A técnica funciona e a gente cai: olha eu aqui falando do BBB nesse portal. Resultado é audiência para o programa e para os sites. Todo mundo ganha. Quer dizer… todo mundo menos as meninas da casa.

Tenho outra teoria sobre o celibato na casa mais vigiada do Brasil. As mulheres perceberam que esses caras não valem muito a pena. Está acontecendo aqui fora, entre minhas amigas. Não dá mais para, em 2020, se arriscar a ficar com um boy lixo só porque ele é gostosinho. As ideias e a inteligência viraram um afrodisíaco imprescindível para a atração sexual. Acontece.

Lógico que os dias vão passar entre mergulhos de biquíni, fofocas e comentários de quem ainda não entendeu nem o básico do feminismo. A carência vai aumentar e talvez os integrantes da casa baixem a régua que mede quem merece ou não merece uns beijos. Mas que, por enquanto, está puxado para quem está na casa… olha, meu bem, tá sim.

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Segundo os homens do BBB, mulher é frágil, apegada e carente: e você? http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2020/01/29/segundo-os-homens-do-bbb-mulher-e-fragil-apegada-e-carente-e-voce/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2020/01/29/segundo-os-homens-do-bbb-mulher-e-fragil-apegada-e-carente-e-voce/#respond Wed, 29 Jan 2020 07:00:46 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1644

Reprodução/ Globoplay

Guilherme, Felipe e Hadson bateram um papo nessa terça (28) na casa do BBB. As frases, repletas de clichê, giravam em torno da fragilidade da mulher.

Posso estar sendo um pouco radical, mas não acho possível uma mulher, esse ser que entra em trabalho de parto e inclusive na maioria das vezes consegue parir, ser classificada como frágil. Eu sei que é um conceito antigo, o tal do sexo frágil, mas acho que não vale a pena a gente continuar reproduzindo, sabe?

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Aí, meus carinhosos leitores vão se manifestar aqui embaixo. Vão dizer que se não somos frágeis, então, que tratemos de encher um carrinho de mão de tijolos. Que mudemos a geladeira de lugar sozinhas. Que (que afronta) aprendamos de uma vez por todas a abrir os vidros de azeitona e palmito.

Então vamos lá, valentes leitores. Vocês são realmente na maioria das vezes mais fortes que nós fisicamente. É verdade. Vocês estão certíssimos. Em comparação de bíceps, a maioria dos homens que já conheci na vida ganharia do meu em volume e músculos. Vocês andaram de bicicleta muito mais que eu na infância. Quando eu simulava cólicas no colégio para matar aula de educação física, vocês estavam lá brigando para montar time. A vida esportiva de vocês é incomparável à minha inexistente na adolescência.

Nunca enchi um carrinho de tijolos (porque nunca precisei, mas poderia fazer se pudesse colocar um tijolo de cada vez). Nunca mudei geladeira de lugar (minhas cozinhas são pequenas e elas, as geladeiras, não têm muito para onde ir). E já abri alguns vidros de palmito (um pouco de técnica supera a força na maioria das atividades humanas).

Tudo bem, vocês são mais fortes. Os garotos do BBB, enormes e musculosos, são mais fortes que a maioria dos garotos que já conheci. Ok, nada errado com isso. Acontece que isso não tem muito a ver com força emocional.

O que não dá pra entender é em que ponto o corpo que tem mais dificuldade para levantar peso seria mais fraco para levar um relacionamento adiante ou lidar com um pé na bunda. Já vi muita mulher sofrer, é verdade. Eu mesma já deitei no cantinho do quarto em posição fetal chorando e fungando enquanto tentava aceitar que alguém não queria ficar mais comigo. Mas homem não tem mais facilidade com isso, não. Pelo contrário: tem homem que não aceita o fim dos relacionamentos e usa a própria força pra AGREDIR a mulher que o dispensou. Quem é frágil emocionalmente agora?

Aí volta o meu leitor à caixa de comentários para dizer: “Ah, mas eu conheço um cara que apanhou da mulher quando terminou com ela”. É verdade, tem mulher que agride também. Bem menos, é verdade. E não dói, porque, como vimos acima, elas são normalmente mais frágeis que eles.

Não, não estou falando das lutadoras de UFC, não precisa nem usar esse argumento.

Pois bem, Guilherme diz a seguinte frase no BBB:

“Posso te falar uma coisa? Mulher é frágil. Se depois acontecer um ‘ah, mas agora ele não quer mais ficar comigo’. Por isso eu estou esperando a hora certa”

Não dá para entender muito bem o raciocínio, mas aparentemente existe uma hora certa de ficar com a mulher “frágil”. Uma hora em que você não queira mais deixar de ficar com ela? Uma hora de ganhar o BBB? Uma hora em que ela esteja bêbada (nessa hora a gente fica frágil para valer mas aparentemente ninguém se preocupa e manda ver mesmo assim)?

Felipe completou, sem explicar de quem estavam falando: “Ela deve ser apegada. Aí pode ser o ponto em que ela pode jogar contra você”.

Ser “apegada” é o que mesmo? É valorizar as pessoas com quem ficamos? Ou é, segundo o garoto, não libertar o cara que quer só ficar com você uma noite e obrigar a namorar depois? Aprisioná-lo numa torre e exigir que ele cumpra obrigações sexuais por todo o sempre ou até que o confinamento acabe. É, pode acontecer. Mas nada que um diálogo franco e honesto não evite, né?

Hadson completou: “Ela está carente e isso pode confundir a cabeça dela”.

Nunca conheci um jovem adulto que não seja carente. Nunca conheci um jovem adulto que não seja confuso da cabeça. Próximo passo.

Não deve ser fácil ficar com pessoas ao vivo em rede nacional sendo observado por uma audiência gigante (dentre eles, a sua mãe). Já é difícil se relacionar sem esses graus de dificuldade. Mas certamente não é reproduzindo clichês entre homens que vocês vão aprender um pouco mais sobre as mulheres e as relações.

No mais, a reação do diretor do programa sobre a postura masculina no programa é a mais coerente que você vai ver hoje.

Vou abrir um vidro de azeitona agora — não pra provar que posso, mas porque gosto de comer enquanto tomo cerveja e vejo futebol mesmo.

 

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Você ainda se sente jovem? Veja os filhos dos Titãs adultos e mude de ideia http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2020/01/24/voce-ainda-se-sente-jovem-veja-os-filhos-dos-titas-adultos-e-mude-de-ideia/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2020/01/24/voce-ainda-se-sente-jovem-veja-os-filhos-dos-titas-adultos-e-mude-de-ideia/#respond Fri, 24 Jan 2020 07:00:14 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1636 Se você nasceu nos anos 70 e 80, provavelmente, gostando ou não, tem a lembrança dos Titãs como símbolo de ousadia e juventude. Foram eles que disseram que a gente não precisava da polícia, que a gente não gostava de igreja nem dizia amém. Foram eles que deixaram bem claro que diversão era solução, sim. E que a gente precisava também de arte, além de comida, claro.

Titãs foram revolucionários para o rock brasileiro dos anos 80 e estão até agora jovens e rebeldes na nossa imaginação ou nas caixas de som e playlists de churrascos. Não tem como separar minha adolescência da banda. Deve ser difícil separar a sua também. Em algum momento a trilha sonora é Go Back, ou Família, ou Marvin.

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Aí, aconteceu o quê? O implacável tempo fez com você o que você achou que demoraria mais para acontecer. Você envelheceu. Acontece de repente, quando, na segunda hora de um show de rock, sentimos uma dor estranha no ciático. Ou quando uma ressaca vira uma doença profunda que dura 48h e cogitamos internação. Ou quando nos sentimos obrigados a parar de fumar, pois dizíamos que faríamos isso quando completássemos 30 anos e agora já passou dos 40 e…

Cabelos brancos, pele flácida e outras pequenas mudanças estéticas dão pequenos toques que a gente tenta ignorar. Um dia olhando as fotos tiradas num show dos Titãs em 1995, você toma um susto ao não reconhecer a si mesmo. “Acho que sou eu aqui ou essa era a Virginia?”

Você começa a ser muito mais velho que seus colegas de trabalho. Eles não conhecem os personagens da Escolinha do professor Raimundo (mesmo que exista um remake moderno nas TVs atuais, eles não veem TV).

Você se empolga com um vale-night e queima a largada. Não aguenta nem o esquenta. Vai para casa dormir e acorda cansado.

Se se identificou com qualquer dessas situações, é provável que você esteja envelhecendo. Não é indolor, mas é normal. Se ainda não se conformou com isso, pode confirmar abaixo: até os filhos dos Titãs já são adultos.

Desejáveis rapazes, esses garotos são a prova de que seus dias de jovenzinha decididamente ficaram para trás. Provavelmente eles te chamariam de “tia” na rua. E tudo bem. Dificilmente nossos próprios filhos acreditariam que aqueles respeitáveis senhores eram os roqueios rebeldes que cantavam palavrões e eram condenados pelos nossos pais.

Mas que a genética da rebeldia faz um bem danado, ah isso faz.

João Mader é a Malu Mader com as cores do Toni Bellotto, né?

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Max Fromer, menino, para de fumar, garoto.

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Max in the jungle

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Pensando bem, acho que ele tá bem de saúde.

 

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Zé Brito, eu lembro do dia que você nasceu.

Théo Reis toca violão charmosamente.

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Seriamente tentando acertar um acorde . . foto: @_carolpimenta

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Bento Melo é mais rebeldão.

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Na verdade a tia está só brincando. Não esqueçam de pegar um casaco, meninos.

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Estupradas por conhecido, elas não conseguem denunciar: violência não acaba http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/12/24/karina-burh-e-estupradas-por-conhecido-a-violencia-sexual-nunca-acaba/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/12/24/karina-burh-e-estupradas-por-conhecido-a-violencia-sexual-nunca-acaba/#respond Tue, 24 Dec 2019 17:36:00 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1627

Reprodução/ Instagram

No decorrer desse ano, editei inúmeras matérias de violência contra a mulher em Universa.  Mergulhei um universo sombrio: o da violência sexual. E não só aquela, repugnante, em que um desconhecido nos aborda na rua e nos obriga a fazer sexo com ele.

Mas também quando um conhecido estupra a mulher. Esse tipo de agressão é um pouco mais difícil de digerir. Não raro, o senso comum palpita que a mulher devia ter reagido, gritado, denunciado. Mas o poder silenciador de nossa sociedade é aterrorizante.

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Não é algo que fazemos conscientemente. É que as forças necessárias para falar de casos como esse geralmente faltam às vítimas, que estão fragilizadas. Também não há muito apoio das pessoas próximas. “Como vou deixar que minha filha denuncie meu irmão”, pensa a mãe da vítima, “isso vai destruir minha família”. O raciocínio é uma forma de negação. Se ninguém joga o que aconteceu no ventilador, nada fica espalhado pela sala e dá para fingir que nunca aconteceu, certo?

Errado. Karina Buhr descreve sua omissão com uma emoção corajosa no texto que divulgou ontem. Ela criou coragem a partir dos depoimentos das mulheres estupradas por João de Deus, em dezembro passado. Só ontem conseguiu verbalizar o nome do estuprador: o pai Dito de Oxóssi, que morreu no último dia 15. Seu longo relato, que vale a leitura, nos faz pensar em como a vítima de abuso continua sendo abusada para sempre. “Não queria contar isso, é terrível lembrar, queria esquecer, mas é algo que não se apaga. Senti muita culpa durante e depois”, ela diz.

A morte do algoz despertou em Karina os sentimentos mais profundos e devastadores. A liberdade nunca chega. E ela, bravamente, expôs tudo isso num relato que pode ajudar as mulheres que vivem situações como essa em que a fé camufla o abuso. “Mas preciso falar, quero que caso alguém mais tenha passado por isso lá ou em outro lugar se sinta mais confortável pra abrir isso pro mundo, nessa tarefa de livrar o peso das situações de abuso e da convivência com a culpa, apesar de sermos vítimas.”

Mesmo assim, ela é julgada por ter feito isso apenas após a morte do criminoso. À Karina, meu mais solidário abraço. Num tsunami de sentimentos inconfessáveis, que envolvem ainda a injusta vergonha de ser vítima, ela fez justiça como pôde. E, assim, certamente alcançou quem ainda não consegue sair de uma teia desse tipo.

A repórter Ana Bardella escreveu a importante e indigesta matéria: “Revejo meu abusador na ceia“. Uma amiga me escreveu imediatamente para contar que ela também vê o abusor na ceia. A repulsa já chega dias antes do Natal. Ela não denuncia por pressão da mãe, a velha história de que isso arruinaria a família. Minha amiga disse que se preocupa com a filha dele, mais nova. Mas não faz nada. No Natal, procura ficar com as primas de quem gosta. “Tem uma coisa sobre o abuso que é o fato dele nunca acabar, sabe? Aquilo fica reverberando em você para sempre de várias formas. Mesmo que tenha ocorrido na minha infância, já me tirou o sono muitas vezes na vida adulta”, ela disse.

Muito mais leve que a história dela, mas também criminosa, é a situação que minha amiga descreveu dia desses. Em casa, falou meio perplexa de quando estava sentada no ônibus e um cara em pé insistia em passar de raspão seus genitais no ombro dela. Ela disse que ele provavelmente estava sem cueca. E ficou paralizada em um ônibus cheio, diante da evidente ereção do criminoso. Todos à mesa nos exaltamos: “Você tinha que ter gritado!” Ela respondeu timidamente que não conseguiu fazer nada, envergonhada e travada tentando se esquivar da violência.

O quadro, infelizmente, é conhecido nosso. Hoje temos o respaldo da lei de importunação sexual, criada para que mulheres se sintam mais seguras em situações como essa. A prática, no entanto, é diferente. Culturalmente, como minha amiga no ônibus, parece mais fácil calar e esperar que aquilo acabe o mais rápido possível. Denunciar, no entanto, é uma forma de proteção. Não só para quem vive o crime ali, naquele momento. Mas para todas as outras mulheres que são potenciais vítimas do criminoso.

Tudo isso me fez pensar no livro mais importante que li em 2019: Missoula, de Jon Krakauer, que vira a mexe volta nas conversas sobre o assunto. Meninos de boa família também são estupradores. As garotas estupradas na cidade americana do estado de Montana sofrem uma segunda violência quando denunciam: e essa é eterna. Os cidadãos duvidam dela, o júri duvida delas, elas ouvem provocações durante todo o julgamento que, às vezes, se arrasta por meses. E é comum verem, no fim desse calvário, seu estuprador inocentado.

Somos (quem foi estuprada e quem não foi) vítimas de uma sociedade machista muito injusta que duvida e culpabiliza vítimas. O jeito de mudar isso é falar sobre isso o máximo possível, doa a quem doer. É mais fácil ainda botar a boca no trombone se você nunca foi violentado. E é obrigação de todos nós dar voz a quem está fragilizado.

Eu sugiro emplacar o indigesto assunto à mesa, nas festas de fim de ano. Tem sempre alguém que será sensibilizado pela mensagem e poderá pensar duas vezes antes de julgar uma vítima.

Faço isso por aqui e torço para alguém ouvir.

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Papai Noel existe? Ideias de como agir quando seu filho faz essa pergunta http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/12/22/papai-noel-existe-ideias-de-como-agir-quando-seu-filho-faz-essa-pergunta/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/12/22/papai-noel-existe-ideias-de-como-agir-quando-seu-filho-faz-essa-pergunta/#respond Sun, 22 Dec 2019 07:00:24 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1615

O natal e seus muitos brilhos (iStock)

Na década de 80, eu sabia que os papais-noéis de shopping eram homens velhos (ou nem tão velhos) vestidos de vermelho. Para mim estava muito claro que eles eram diferentes entre si. E que eles são podiam estar na TV, no shopping, no Pólo Norte e em todos os lugares ao mesmo tempo. E que, se fosse o de verdade, ele não chegaria de helicóptero. Quem é que trocaria um confortável trenó cheio de renas e de brilhinhos por um instável e barulhento helicóptero?

Era óbvio que aqueles velhinhos profissionais não tinham nada do Bom Velhinho que eu imaginava. E ainda era esquisito que eles se vestissem daquele jeito, sendo que fazia um calor danado no Natal e até o vovô, que andava sempre de calça, se arriscava a usar bermuda.

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Minha mãe me explicou que Papai Noel era mágico e, portanto, não tinha essas coisas de frio ou calor. Eu esperava ansiosa a noite de Natal para vê-lo mesmo que rapidamente — mamãe também tinha me avisado que os trenós eram muito rápidos e ele precisava largar o presente na garagem voando para dar tempo de entregar os outros em to-das-as-ca-sas-de-cri-an-ças-do-mun-do. Gente, que trabalhão.

Então eu me empoleirava no sofá na casa da vovó e ficava com os olhos bem abertos olhando a janela para ver se conseguia enxergá-lo. Mas o danado era rápido demais e sempre (sempre, sempre) tocava a campainha quando eu estava fazendo outra coisa (correndo atrás do meu irmão, tomando mais sorvete). Quando eu abria a porta desesperada e esbaforida, nada feito. O presente estava lá na garagem. O Papai Noel já tinha se empirulitado.

O tempo foi passando e eu comecei a ficar desconfiada. Na casa das minhas amigas ele entrava, sentava, tomava umas cervejas, até entortava a barba às vezes, mas só na minha que não? Minha mãe explicou que aquele Papai Noel das minhas amigas era alguém fantasiado. Que o verdadeiro, na verdade, só existia na ideia das pessoas.

Você sabia disso? É assim com mágicas e fantasias em geral. Pode ser que o Harry Potter de verdade não exista. Mas ele existe na ideia das pessoas e isso é um jeito de existir para sempre. O mesmo vale para o Bom Velhinho. Não é maravilhoso?

Quando eu cresci, li numa matéria da SuperInteressante que é justamente por meio dessas fantasias que as crianças começam a entender o mundo. E, veja só, nós precisamos da fantasia para dar conta de nossas angústias e ansiedades. Para as crianças, ainda é mais importante para o entendimento de questões complexas como vida, amor, caridade…

Meu filho, João, por exemplo, gostava muito da chupeta dele. Ela era a companheirinha dele nas curtas noites de sono que  cedia aos inúmeros encantos do mundo e dormia um pouquinho, para meu alívio. Mas João entendeu que, às vésperas dos três anos, era hora de ceder as chupetas para crianças mais novas, que precisavam muito delas.  Quem faria essa ponte seria o Papai Noel. Ele ficaria tão grato que daria, bem… o Lego do Toy Story para o João. Eu sei. Eu estava indo bem, mas cedi aos caprichos capitalistas do mundo.

Assim foi: João colocou a chupeta na árvore e, numa mágica de logística do pai dele, numa tarde atarefada de dezembro, o trem do Toy Story foi parar embaixo da árvore. As noites que se seguiram foram um pesadelo em que eu maldisse muitas vezes o fato daquele velho vestido de vermelho existir nas ideias das pessoas. Mas finalmente João aprendeu a dormir sozinho.

Outro dia, alguém disse que o Papai Noel estava no shopping. Ele me disse que queria falar com ele. Pensei que ia pedir outro Lego (do Carros? da Patrulha Canina?), já ensaiei o discurso anti-consumismo. Ou a chupeta de volta. “Eu queria dizer pra ele obrigado, mamãe. Porque ele levou minha chupeta e agora eu sei dormir sozinho que nem uma criança grande. Eu não preciso mais da chupeta, mamãe. Agora quem usa são os bebês.”

Nunca vou deixar de achar incrível a ideia do Papai Noel existir. Seja lá nos 80, ajoelhada no braço de um sofá estampado e olhando pela janela, seja agora, quando vejo aquele menininho dormindo. A fantasia é boa demais.

Agora, se ele existe? É lógico que existe, ou não passaríamos a vida toda falando dele.

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E os namoradinhos? Como está o pavor dos solteiros nas festas de fim de ano http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/12/19/e-os-namoradinhos-como-esta-o-pavor-dos-solteiros-nas-festas-de-fim-de-ano/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/12/19/e-os-namoradinhos-como-esta-o-pavor-dos-solteiros-nas-festas-de-fim-de-ano/#respond Thu, 19 Dec 2019 07:00:43 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1609

Namorado de Natal, a série norueguesa da Netflix: precisa mesmo estar acompanhada?

A pergunta causa arrepios nas almas solteiras, que sabem que terão que explicar sua condição civil para tios, madrinhas, avós e até primos. O problema aumenta conforme envelhecemos e seguimos sem ser um casal. Esse é o tema da (ótima) série norueguesa Namorado de Natal.

Johanne está cansada de passar pela humilhação de sentar entre os sobrinhos, um par de gêmeos de menos de um ano. Em sua casa, nas festividades de Natal, quem não tem um par ainda não é tratado como adulto. Ela tem 30 anos, e decide tomar uma atitude radical: inventa que tem um namorado. A partir daí, tem 24 dias para se virar e arrumar um. Quem nunca pensou em fazer algo parecido que atire a primeira pinha. 

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Há uma pressão gigante sobre o mês de dezembro em geral. No trabalho, precisamos concretizar metas para entrar no novo ano livres. Em casa, é importante arrumar tudo para receber as pessoas que vão chegar. E no coração, bem, é preciso ter um par para mostrar para a família que você não é uma largada, uma desprezada ou uma mal amada — talvez tudo isso junto.

Sabemos que essas críticas não fazem sentido, afinal, o feminismo já deu suas lições. Mas como explicar com didatismo para mães e demais parentes que cobram um par apaixonado: ei, gente, é ok ser solteira. E como não se abalar com as críticas e achar que realmente precisa ter o namorado de Natal que Johanne sai como uma doida para buscar nos aplicativos?

Uma amiga disse que no fim do ano os contatinhos entram em modo de espera. E que tudo bem: ela está ocupada demais cuidando da vida para se preocupar com isso. Outra amiga falou que coloca o assunto “boy” em suspenso, na lista do “resolvo isso no ano que vem”. Ela está feliz pensando no Natal com a família, no ano novo com os amigos, em conversar com a cachorra que acabou de adotar: “Tenho amor demais para dar. Ninguém ia aguentar. Ela (a cachorra) aguenta. Me acompanha em casa o dia todo e eu olho para ela e não acredito em como pode ser tão fofa”. Amor é amor, ué.

A série noruguesa se passa em um vilarejo de 5 mil habitantes coberto pela neve onde todo mundo se conhece. Nas lojas, os pijamas natalinos são vendidos apenas para casal. Embora estar com alguém pareça uma lei, os personagens todos parecem solitários aprendendo a lidar consigo mesmos. Minha velha máxima de adolescência: somos sozinhos que andam juntos. No fundo, não importa quem usa um pijama estampado com renas igual ao nosso. A solidão é intrínseca e o grande lance dessa existência é saber lidar com a nossa própria companhia.

Como vamos mostrar isso para quem nos cerca é o grande lance da vida. Johanne dá preciosas lições sobre o assunto nos seis episódios da série. Sem mais sopilers, eu sugiro que você veja. Vai ser, na pior das hipóteses, uma companhia deliciosa para algumas das horas melancólicas desse finzinho de ano.

 

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Quer falar mais do assunto? Me siga no Instagram.

 

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Adam Driver é um gostoso ou é um feio talentoso: internet segue discutindo http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/12/12/adam-driver-e-um-gostoso-ou-e-um-feio-talentoso-internet-segue-discutindo/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/12/12/adam-driver-e-um-gostoso-ou-e-um-feio-talentoso-internet-segue-discutindo/#respond Thu, 12 Dec 2019 07:00:07 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1598

O que ele tem? (AFP PHOTO/ ALBERTO PIZZOLI)

Aprendemos na adolescência que homens bonitos eram aqueles de olhos claros ou algo perto disso. Personificados pelo sucesso de Leonardo di Caprio no fim da década de 90, o galã era bem limpinho, quase com cheiro de talco. Mesmo os ídolos do grunge, um estilo em teoria sujo, Eddie Vedder e Kurt Cobain, tem um quê de asseados.

Ou você imagina que Vedder exale algo diferente de cheiro de Phebo misturado com cigarro e vinho? A combinação parece atraente. Uma amiga chegou bem perto e disse que ele é, sim, cheiroso. Ela também disse que nunca mais ia lavar nenhuma parte do corpo depois do aperto de mãos. Não julgo.

Muito mudou nos últimos anos. No Brasil dos anos 00, chegamos ao ponto de aclamar os barbudos do Los Hermanos como galãs. O estilo lenhador conquistou corações e até ganhou um coque nos anos 10. Enfim: o conceito do que é um homem gato virou uma coisa mais elástica.

Mas há quase uma década a polêmica continua a mesma toda vez que Adam Driver entra em cena.

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Afinal, ele é um gostoso ou só um feio (muito) talentoso?

O ator começou a mostrar a que veio em “Girls”, em 2012. Nas cenas da série desconstruída, em que a roteirista e protagonista Lena Dunhan está bem longe dos antigos padrões de beleza, ele chama a atenção justamente por que, bem, está bem longe dos padrões de beleza: “mas o que é que ele tem?” Uma amiga garante que nunca sentiu tanto tesão vendo alguma coisa quanto nas cenas de pegação de Lena e Adam em “Girls”. “Ele é um gostoso de um talentoso”, ela diz.

Quando uma mulher que não é linda (como imaginamos que devia ser a beleza) faz sucesso, ok, a gente respeita (ou nem isso). Quando um homem que não é lindo faz sucesso, a gente acha que talvez ele seja lindo. Sim, pois é.

Em “Infiltrado na Klan”, filme de Spike Lee que concorreu ao Oscar no ano passado, o carisma de Driver compete até com o do protagonista (John David Washington), um homem negro que tem a ideia genial de se infiltrar em uma organização criminosa racista. É o judeu que ele interpreta quem dá a cara a tapa. É por ele que torcemos nas duas horas de filme. Adam é gigante.

Não é só pelo 1,89 que ele ocupa espaço na tela. Driver é sensível e muito talentoso. Mesmo vendo claramente as presepadas que ele aprontou durante a relação com Nicole (Scartlett Johansson), suspiramos alguns “óuns” durante o filme “História de um Casamento”. A obra, monotema da semana em 10 entre 10 rodas de conversa, mostra diversas situações em que o machismo velado de um artista progressivão faz muito mal para a mulher. Sentimos raiva? Nãoooo. Queremos acolher o ator deitado no chão da cozinha (e ocupando todo o território do cômodo), totalmente desamparado. Vem aqui, vem.

O borogodó de Driver enche mais a tela que a beleza extraordinária de Scarlett. Como é que pode, rapaz?

Não sei dizer o que Driver tem. Não é o olhar de cachorro pidão que Leonardo di Caprio faz. Não é o desleixo calculado de estrela do rock que Vedder executa muito bem. Não é a safadeza espirituosa de Brad Pitt em cima de um telhado consertando a antena sem camisa em “Era uma vez em Hollywood” (credo, que delícia demais). Não é também o aspecto desencaixado Idris Elba, que parece sempre perguntar “o que eu estou fazendo aqui”.

Driver sabe onde está, sabe o que faz. Quando perguntado sobre o aspecto diferente de seu rosto (eufemismo mal educado da imprensa quando quer dizer o que ele acha de fazer sucesso sendo feio), ele responde que é apenas o seu rosto. Para ele, não é diferente. Ponto. E não é mesmo, a autoestima do homem hétero tem muito a nos ensinar.

Em cena de “Inside Llewyn Davis”, ele, Justin Timberlake (de uma beleza limpinha que não podia ter saído de outra década que não os anos 90) e Oscar Isaac (num visual mais sujo, descabelado e cigarro na boca, que tem seu valor) cantam juntos “Please, Mr Keneddy”. Ali, Adam apenas empresta sua voz para fazer uns ruídos e cacos na música. Basta: consegue chamar mais atenção até mesmo que o carismático Justin.

Deve fazer o mesmo em Star Wars, que estreia ainda esse mês no cinema. Um pouco de esquisitice em guerras estrelares. Mas, gente, o que esse homem tem?

A discussão segue rendendo na internet. Mulheres e homens parecem inconformados de estarem tão encantados com sabe-se lá o que.

Não sabemos mesmo o que tem Adam Driver.

E quem deveria se importar com o que ele não tem?

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História de um Casamento e o divórcio: o que sobra do amor quando ele acaba http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/12/10/historia-de-um-casamento-e-o-divorcio-o-que-sobra-do-amor-quando-ele-acaba/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/12/10/historia-de-um-casamento-e-o-divorcio-o-que-sobra-do-amor-quando-ele-acaba/#respond Tue, 10 Dec 2019 07:00:09 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1591 Quando o casamento desmorona, a gente tem que lembrar do que gostava no outro para que o resto de nossa existência seja possível (Divulgação)

O roteirista e cinéfilo Diego Olivares, que (ainda bem) é meu amigo, me disse na sexta-feira (6): “História de um Casamento estreia hoje na Netflix. Vi na mostra em outubro e esperei até hoje para indicar para você.”

Obedeci na mesma noite e, prostrada no sofá de minha sala em uma madrugada insone, assisti as 2h16 de um filme extremamente sensível, que fala sobre o fim do amor. E não é de se impressionar, mas a gente esquece: a obra, que foi a campeã de indicações ao Globo de Ouro (6 categorias), é, na verdade, sobre o amor que nunca acaba.

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“História de uma Casamento” começa com a leitura em off de duas cartas: uma de Nicole (Scartlet Johason) para Charlie (Adam Driver) e uma dele para ela. Ambos dizem, em um texto repleto de doçuras ilustradas por cenas que aquecem o coração, o que mais amam no outro. A cena seguinte é no consutório de um terapeuta que pede que Nicole leia sua carta. Ela se recusa.

Apesar de todo amor estampado nas palavras que acabamos de ouvir, o casal está se separando. E, segundo o psicólogo, é importante que se lembrem porque um dia gostaram um do outro para que o divórcio seja o mais pacífico possível. É esse o jeito de evitar que ambos não sofram muito mais. Mas, além disso, é importante que não causem mais sofrimento para o filho deles, Henry, que tem 8 anos e, clichê: não tem nada a ver com a história.

O filme não causou uma avalanche de sentimentos apenas na minha casa, onde pensei nos amores e divórcios que já vi (de dentro ou de muito perto). Em uma enquete rápida no Instagram, recebi diversas mensagens de outras mulheres que também estavam atônitas diante da clareza com a qual o diretor Noah Baumbach expõe a história de todos nós. Os amores acabam, já aprendemos a essa altura. Estamos ainda em uma idade em que é raro que acabem sem filhos — e isso muda a história de Charlie, de Nicole, de todos nós. 

A situação é um clássico das relações: a mulher que larga seus sonhos para investir na carreira promissora do marido. Quando percebe, é tarde. Ela mora em uma cidade em que não quer, não sabe direito quem é, se submete à análise profissional dele que, além de marido, de homem organizado e exigente, é seu diretor em uma companhia de teatro. Quando ele abre o caderninho para dar “toques” profissionais que ela ouve com humildade, fica claro que vários anos de críticas chegaram a um limite.

Mas a história vira. Sabemos que num processo de divórcio não há vencedores. Todos os envolvidos estão perdendo algo (ou muito), seja dinheiro, autoestima, dignidade ou tempo com aqueles que amamos. Inclusive aqueles que, ali na história, não se divorciaram: Baumbach nos lembra o tempo todo de que os filhos são as vítimas indefesas de uma briga amorosa repleta de egos. “Meu filho precisa saber que eu lutei por ele”, diz Charlie. “Mas hoje é meu dia”, diz Nicole num outro momento. A frase dói nos ouvidos de quem, de fora, vê que amor não se mede em montante de horas.

Em outra cena, o garoto passa pelo pai deitado, sangrando no chão da cozinha após se ferir com um canivete, e nem percebe que há um problema ali. Fica claro que estamos esperando coerência de uma criança de 8 anos, já que seus pais não conseguem se comunicar de maneira não-bélica.

A belicosidade só aumenta quando entram em cena advogados nada conciliadores, que claramente estão usando a dor humana para provarem sua própria competência. Lógico, há exceções: um dos advogados de Charlie tenta o tempo todo fazer com que o processo seja o menos doloroso possível. Mas os conciliadores externos não têm muita voz no divórcio quando o ódio grita mais alto. O público logo nota que a corência depende de quem está se separando. Pena que às vezes tudo isso fique claro para os maiores interessados tarde demais. Ou nunca.

Amamos e nos relacionamos pensando que esses enlaces vão durar. Não temos filhos cogitando que esse amor todo vá terminar numa sala fria em que um estranho lê em termos rebuscados os motivos para o fracasso de nossa vida amorosa. Isso acontece, sabemos. Se o divórcio é um amontoado caro de perdas que mencionei acima, também é, em muitos casos, inevitável. E o ganho de liberdade pode suprir tudo de ruim que vem junto. Basta lidar de uma maneira minimamente coerente com o que se quer para os próprios filhos. E não imagino que seja diferente de empatia, compreensão, amor.

Charlie e Nicole nos mostram por mais de duas horas a nossa impermanência. O quanto podemos nos fechar em nós mesmos sem que olhemos para o outro. Nossa dor é maior, nosso ciúme é maior, nosso egoísmo é maior que o nosso amor por nossos filhos — por mais que doa demais admitir que uma hipótese maluca dessa seja verdadeira.

Que a gente possa aprender a ser menos ensimesmado nas relações, possa pedir ajuda e ajudar. Que a gente saiba ler a carta que nos lembra porque raios fomos gostar tanto um dia daquele estranho. Que a gente guarde as palavras cruéis antes de proferir — será essa violência que verbalizamos que nos derrubará de joelhos, como aconteceu com Charlie na cena que ilustra esse post.

O tsunami causado por Noah Baumbach na verdade é um lembrete pungente de quem somos e do que podemos vir a ser. Diego trouxe em seu texto sobre o filme uma lembrança do hit de Bidê o Balde, nos anos 00. “É sempre amor mesmo que acabe”.

Se a gente não esquecer disso nunca, fica mais fácil tocar o barco.

Você pode continuar essa conversa comigo no Instagram: @lubugni . 

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A “surra de bumbum” de Anitta é uma lição de amizade entre mulheres http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/11/29/a-surra-de-bumbum-de-anitta-e-uma-licao-de-amizade-entre-mulheres/ http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/2019/11/29/a-surra-de-bumbum-de-anitta-e-uma-licao-de-amizade-entre-mulheres/#respond Fri, 29 Nov 2019 21:59:21 +0000 http://lucianabugni.blogosfera.uol.com.br/?p=1582

(Divulgação)

O novo clipe de Anitta, “Combatchy”, foi lançado há 10 dias e já tem 15 milhões de visualizações na hora em que escrevo esse texto. Agora que você está lendo, deve ter ainda mais. No vídeo, de pouco mais de três minutos, Anitta dá um tempo nos “featuring” internacionais e se une a outras três brasileiras: Lexa, Luisa Sonza e MC Rebecca.

Elas simulam uma richa no começo do clipe. Estão indo para uma festa em carros diferentes e não querem encontrar o que parecem ser as meninas de outras gangues. Quando chegam no estacionamento do lugar, declaram que vai ter “fight de bumbum”. O tipo de duelo é muito parecido com aquele do clipe “No guidance”, de Chris Brown com Drake, que também tinha carros e a estética da rua à noite.

Os dois dançam para ver quem ganha na performance. Brown, que é dançarino, humilha Drake e essa é a piada. Anitta, aliás, usa um penteado de tranças de lado que lembra o de Drake em alguma fase da carreira. Outra esperteza danada, já que rolou polêmica na passagem do cantor pelo Brasil, quando ambos começaram a se seguir nas redes.

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Na batalha das mulheres a história é diferente. Pois começa o “Combatchy”, que dá nome à música. “Agora vai começar o combate/ Quica, quica, bate, bate/ Hoje vai rolar um fight de bumbum/ Aqui não vai ter empate/ O bagulho é de verdade”.  Cada uma das cantoras avisa que “seu popô vai dar nocaute em qualquer um”. E aí que está a fina ironia e, pasme, a lição de sororidade. Mulher na pista não compete com mulher. O que elas mais querem é que dê empate, sim. E todo mundo vá até o chão.

O clipe segue estruturando os rounds de uma luta que só existe no passado. Ali, rebolando, as meninas estão em uma grande festa em que torcem uma pela outra. As supostas gangues do começo a história viram um grupão de mulheres dançando e sorrindo.

É assim mesmo que funciona a dinâmica da pista de dança hoje. Lembrei de uma festa, no ano passado, em que a repórter Camila Brandalise tentava me ensinar a rebolar como ela. Caso eu aprendesse a executar os movimentos (não aconteceu do jeito que eu queria, infelizmente), ela vibraria por mim. “Não é competitivo, pelo contrário. Quando eu começo a rebolar, quanto mais mulher estiver na pista rebolando muito comigo, melhor”, ela me disse. É verdade.

Diferentemente na maioria dos clipes de Anitta em que um homem legitima o impressionante rebolado da cantora, dessa vez o recorte é fiel à realidade. Na pista, a gente não se importa com os caras mesmo. Fica muito mais legal se estivermos botando pra tremer, descer, jogando e indo até o chão entre nós mesmas.

Anitta tem uma participação importante nisso. Ela legitimizou o “você pensaram que eu não ia rebolar minha bunda hoje?”, seu bordão nos shows. A frase perdeu a vulgaridade de uns anos atrás. Ela até deixou a expressão “bunda” pra trás também e adotou o pueril “bumbum” (“cê tá louca tá mexendo com o bumbum”, “vai tomar surra de bumbum”). Uma educação quase recatada, que deixaria minha mãe orgulhosa. Ok, exagerei.

Aprendi também recentemente com as repórteres de Universa que existe até a rabaterapia: uma aula que acontece no centro de São Paulo com o objetivo de fazer as mulheres tirarem amarras e traumas pelo simples fato de mexer a bunda. Digo, o bumbum (desculpe, mãe).  Nathália Geraldo e Ana Bardella, aqui da redação, testaram. Funciona mesmo, elas garantem.

Na semana em que soltamos essa matéria, conversamos com algumas universitárias de comunicação que moravam na comunidade de Paraisópolis. “Uma aula, pra mexer a raba?”, elas estranharam. “É só ir no baile que a gente ensina, ué”.

É isso, mexer a raba é sororidade. É de extremo interesse de qualquer mulher que outras também vão “até o chão” (até o chão).

Deve ser meio difícil para um homem entender isso. A gente compreende. Não dá para ter a dimensão do que nunca viveu. E pior: não estamos muito interessadas em dividir esses momentos com as amigas com caras que nos olhem com qualquer olhar que não seja o de partilha de um momento bom. Mexer a raba, rapaz do céu, é muito bom.

O clipe de Anitta é, sim, empoderador. A gente termina de ver fazendo “Turudum Turudum Turudum Turudum” na cadeira.

Na nossa pista, deu empate. E todo mundo saiu ganhando.

Você pode continuar essa conversa comigo no Instagram: @lubugni . 

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