PUBLICIDADE

Topo

Histórico

Racismo contra motoboy: o brasileiro ficou ainda mais ignorante?

Luciana Bugni

08/08/2020 04h00

Ofensas racistas e escrotices de todos os lados. Tristeza em 2020 (Reprodução Twitter)

Percorro as notícias rapidamente. O desembargador Eduardo Almeida Prado foi fotografado de novo na orla de Santos. Desta vez, a máscara estava pendurada no pescoço. O conceito lembra os meninos do meu bairro na adolescência: de moto, ao serem parados por policiais, eles não tinham nem carteira de motorista nem documento do veículo. Quando indagados pelas autoridades sobre o capacete, a resposta era rápida: "Tá aqui, seu guarda, no cotovelo".

Realmente não dá para entender porque raios alguém usaria um instrumento de segurança no lugar errado. Quando você tem 18 anos, talvez a vontade de impressionar meninas sem capacete seja maior que o discernimento. Quando você é adulto e tem um cargo importante, não tem muitas desculpas. O desembargador, depois do papelão de humilhar os guardas há semanas, viu uma viatura e se apressou a colocá-la no rosto. Segue errado. O ideal é que use a máscara o tempo todo.

Veja também

Um estudo americano revelou novamente essa semana que usar máscara diminui muito a carga viral caso você seja infectado. Ou seja: se pegar corona usando uma máscara, pode ter sintomas bem leves, ou até ser assintomático. Além de, claro, diminuir a chance transmitir a outras pessoas caso esteja doente. O estudo saiu nos jornais e foi liderado pelos médicos Monica Gandhi e Eric Goosby, da Universidade da Califórnia, e pelo pesquisador Chris Beyrer, da Universidade Johns Hopkins.

É questão de inteligência mesmo usá-la. Os sobreviventes que voltaram da UTI após serem curados do Covid garantem que a doença, mesmo que não seja sempre letal, não é algo que gostaríamos de ter no currículo. Para citar só uma das consequências nada prazerosas, a perda do olfato pode ser definitiva — o que atrapalharia o paladar para sempre. 

Sem máscara e sendo racista

Mas a ignorância do brasileiro em 2020 não se restringe a afrontosa e estúpida insistência em duvidar da eficácia da máscara ou da letalidade do Covid. O noticiário escancara a questão da inteligência de novo nesta sexta (7) ao mostrar o vídeo em que um morador de condomínio ofende um entregador de aplicativo. Achei que ia vomitar de nervoso quando o vi verbalizar ódios tão enraizados.

Ele afirmava que o garoto tinha inveja daquelas casas por não ter tanto dinheiro quanto ele. O garoto pergunta: você conseguiu ou seu pai de te deu? O agressor responde que nasceu rico, como se isso fosse um mérito, e faz o comentário racista: você tem inveja disso aqui, aponta para a cor de seu antebraço. Branco.

Como pode? Aí vem o que sempre acontece quando alguém rico deixa o racismo transbordar: desculpas. É absurdo que alguém tenha coragem de pensar as coisas que esse (coloque aqui o adjetivo) disse. É pior ainda achar que desculpas bastem. E, não posso deixar de notar: o motoqueiro está com a máscara no queixo. O homem que o ofende nem de máscara está. Não é mais grave que ser racista. Eu nem sei mais o que é mais ignorante.

Tem dias em que a gente descobre que está ainda mais atrás. Falta muito para sermos cidadãos decentes, solidários e outras definições de povo. Aquele orgulho de ser brasileiro da propaganda fica tímido agonizando. Esses dias são mais tristes que os outros porque eu não vejo uma saída clara.

Se você tiver alguma sugestão, fala comigo no Instagram.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo”, na “Contigo!” e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso para atravessar a era digital com um pouco menos de drama. Sororidade e respeito ao próximo caem bem pra todo mundo.