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Desembargador em Santos sem máscara: tão letrado e não entendeu nada

Luciana Bugni

21/07/2020 09h49

Ser analfabeto ou estar analfabeto, eis a questão

"Estou aqui com um analfabeto que quer me obrigar a usar a máscara na rua", é mais ou menos o que diz o desembargador Eduardo Siqueira. Ele se referia a um guarda de Santos que pedia que ele obedecesse o que é obrigatório por decreto na cidade. Não usar máscara rende multa de R$ 100. Fora que você pode passar e pegar coronavírus e agravar a pandemia.

O homem fica nervoso, dá a carteirada de seu cargo, ofende, ameaça, liga para alguém, ofende de novo. E finalmente, ao receber a multa, a amassa e joga no chão. Com tanta raiva que parecia estar se defendendo do coronavírus e não abrindo caminho para ele. Ele diz que já havia feito tudo isso com outro fiscal nos dias anteriores. É filmado. Vai parar na televisão. Repercussão negativa, investigação no TJ, fora o vexame.

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A grande alegria desse mês de julho do tal desembargador, imagino, é sair por aí sem máscara, como nos tempos de antigamente (março). E corajoso e diplomado como é, imagino também, ele se acha no direito de decidir que, para ele, o decreto não se aplica. Afinal, vamos confessar aqui, só entre nós, é mais legal respirar sem um tecido na cara e viver sem um elástico puxando suas orelhas. Isso se não levarmos em conta que tem uma pandemia aí fora, claro. Aí é melhor meter a máscara e tentar sobreviver.

Acontece que, por mais que estejamos sozinhos na orla, num passeio que fazemos há décadas, a gente não pode prever quem vai vir ao nosso encontro também sem máscara. E mesmo que ele não se abale com o coronavírus, já que deve ter o histórico de atleta de tantos sexagenários que caminham na orla, pode passar para outras pessoas que podem passar para outras pessoas — o resultado é que sempre pode morrer alguém. Já morreram quase 80 mil brasileiros nessa.

A questão, portanto, não é só se vou pegar a doença ou perder alguém querido. A questão mais forte de civilidade deveria ser: preciso evitar ao máximo qualquer risco de matar pessoas. Desconhecidas, indiretamente. Uma pessoa sem máscara é um transmissor da doença. A atitude pode acabar do mesmo jeito que alguém que mata de propósito: velório, caixão e muita dor para alguém.

E logo ele, o desembargador, com tanto predicado na graduação, imagino, pensa que está acima dessas regras impostas por guardas certamente não analfabetos (por mais que ele insista). E mesmo que não soubessem ler ou escrever — o que nada tem a ver com o caso — ainda assim estariam certos. Porque ser cidadão e obedecer normas que são boas para o coletivo independem de ter diploma. É fácil demais. O diploma a gente guarda para outras coisas.

A atitude lembra a frase do casal no Rio de Janeiro que tentava protestar contra o fechamento do bar onde estavam (que também não obedecia as regras sanitárias) com frases como "Cidadão, não, engenheiro civil formado, melhor que você". Como se o diploma anulasse o ser cidadão — característica que deveria ser inerente a qualquer pessoa que vive numa cidade e convive com os outros. A moça alterada na zona sul carioca estava certa em uma coisa: cidadão, não. Cidadão respeita o coletivo. Cidadão entende os seus limites. Cidadão zela por quem nem conhece. Agora sobre ser engenheiro civil e, por isso, melhor que os outros… veja bem.

Às vezes, depois de escrever uns três ou quatro parágrafos aqui no Uol, eu percebo que só disse coisas óbvias. Mas que bom que sei o que é óbvio. Tem muita gente de alto gabarito no diploma que não entendeu nada ainda.

Você pode discordar de mim no Instagram. E se for sair de casa, sai de máscara.

 

Sobre a autora

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo”, na “Contigo!” e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso para atravessar a era digital com um pouco menos de drama. Sororidade e respeito ao próximo caem bem pra todo mundo.