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Luciana Bugni

Luciana Bugni

Quando mulher diz não no sexo, homem acha sexy e entende que ela quer mais

Universa

20/08/2019 04h00

Foto: iStock

Todo mundo passou por uma situação parecida. Quando o sexo esquenta, umas das partes, geralmente a mulher em relações heterossexuais, nega que queira mais. "Não, não", ela diz. E o homem entende a mensagem como um convite a domá-la com ainda mais virilidade e força. "Não", e vem um puxão de cabelo. "Não", e muda a posição. "Não", e beija na boca.

Talvez venha da cultura dos filmes pornô: está no imaginário de todo mundo a mulher dizendo "no, no, no" enquanto o homem musculoso brilhando de óleo a vira do avesso. A negativa rapidamente se torna "don't stop (não pare)" ou algo que estimule o homem a continuar. Não estou aqui para questionar o que dá tesão em quem, mas é estranho que seja necessário ouvir a parceira dizer que não quer para então sentir mais prazer. Não seria mais estimulante ouvir frases afirmativas? Isso não tem um pouco a ver com a cultura do estupro?

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No livro Missoula, Jon Krakauer descreve minuciosamente vários casos de estupro ocorridos no ambientes universitário da cidade de Missoula, no estado de Montana, nos últimos sete anos. A maioria deles é "estupro por conhecido": nome que se dá a crimes que podem até ter começado de maneira consensual, mas em algum momento deixaram de ser. O estuprador é um amigo, o ex namorado, um colega de sala. Em grande parte das histórias, a mulher tenta expressar que não tem intenção de fazer sexo naquele momento, mas o homem não entende o recado.

"Ela estava dizendo 'no, you are a bad boy (você é malvado)"', diz um dos acusados cujo julgamento é retratado por Krakauer — ele achava que a frase da mulher de quem arrancava as calças à força era uma tentativa de ser sexy ou de seduzir. Na verdade, como relata a vítima, ela estava apenas dizendo não. E pedindo que ele parasse enquanto ficava paralisada de medo diante de um amigo bêbado que tentava estuprá-la. Ele não parou. Ela foi estuprada. Ele alega não ter entendido que ela não queria. Existe uma mística tão grande em torno da negativa feminina ser sexy que o homem sequer entende que ela pode estar dizendo exatamente o que disse. Aquela relação não é consensual — e sequer é uma relação, é apenas um crime.

Em 2018, o comediante Aziz Ansari foi acusado de assédio por uma conhecida. Em seu relato, ela descreve o que se convencionou chamar de "bad date", um encontro ruim. Diante de todas as negativas dela, conforme a própria conta, ele parou e a chamou para ver TV ou fazer qualquer outra coisa. Depois, continuou insistindo em situações em que ou forçava sexo oral ou se masturbava em sua frente. Na época, Aziz declarou que se sentia consternado de saber que a garota havia se sentido agredida. Muita gente saiu em defesa dele — e meu ímpeto foi fazer o mesmo, afinal, eu gosto do artista. Mas a situação coloca uma pulga atrás da orelha: quantas situações classificamos como encontros ruins e foram abusivas de alguma forma?

Há um ponto de reflexão principalmente para os homens: quantos nãos você ouviu e entendeu como sim? Quantas vezes, bêbado ou não, você forçou uma situação ignorando as claras, ou nem tão claras, manifestações de sua parceira?

Para as mulheres, essa discussão é um salto. Durante a vida toda estivemos quase habituadas a concretizar "transas ruins" sem vontade, às vezes por medo, mas muitas vezes por vergonha de levantar e ir embora. Isso acontece com o homem também, claro. Mas a mulher está em situação de mais fragilidade.

Há ainda os casos em que elas se sentem acuadas, como vários dos casos relatados por Krakauer no livro. A percepção de estar na eminência de um estupro pode ser paralisadora para muitas mulheres. Não adianta o homem alegar que "ela nem disse não". Todo mundo sabe muito bem quando está transando com alguém que está com vontade e quando está com alguém paralisado. A boa educação diz apenas para recuar, perguntar se está tudo bem, começar de novo ou desistir de vez da transa. O mundo não vai acabar amanhã.

Em seu novo stand up, lançado em julho último, Aziz já começa falando de como se sentiu ao ser acusado de estupro. Diz isso de modo sussurrado, abrindo uma apresentação de comédia. O jeito que ele fala do assunto pode causar estranheza nas mulheres — pode dar a entender que ele é a vítima. Mas há uma frase ali que merece crédito: "Eu pensei no que aconteceu todos os dias, desde que aquilo aconteceu. E pessoas que me cercam dizem que desde que aquilo aconteceu, elas também pensam nisso todos os dias até hoje".

Falar disso pode ser a chave para mudar o comportamento masculino violento que é normalizado. Dizer "não" não pode ser automaticamente entendido como um comando para avançar. Precisamos repensar o que do nosso comportamento na cama banaliza a violência que pode acontecer em outras camas ou na nossa mesmo. E se, como Aziz garante, esse movimento todo já está fazendo os homens pensarem, estamos dando um passo à frente. Falta muito, mas talvez já estejamos indo para lá.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

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