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Luciana Bugni

Luciana Bugni

Estupro na saída do metrô: o que aprendemos com esses rumores

Universa

24/08/2018 04h00

A história que se sabe é a seguinte: depois de ser estuprada nos arredores do metrô Vila Mariana, em São Paulo, em um dia de manhã bem cedo, uma garota pediu ajuda aos seguranças. Um tweet oficial do órgão diz que ela se recusou a ir ao hospital e também não quis dar queixa. Esse foi o fato. Ontem, no entanto, outra notícia assustadora: uma garota deu entrevista dizendo que foi abordada sexualmente na plataforma do metrô Sacomã, que fica não muito distante dali. Ela denunciou e a polícia diz estar investigando. O metrô cedeu as imagens das câmeras. Algo bem grave parece estar acontecendo com mulheres que usam o meio de transporte para exercer seu direito de ir e vir.

Mas a partir da história da garota da Vila Mariana (provavelmente menor de idade, que segundo relatos ia para o cursinho de manhã), uma avalanche de mensagens nas redes sociais repercutiu que havia rumores de estupros em série na região. Dizem que ela foi impedida pelos pais de fazer a acusação. A polícia diz que não recebeu nada. Abordado pela nossa reportagem durante a semana, antes do relato no Sacomã, um funcionário da comunicação do metrô classificou a suposta epidemia de ataques sexuais como boato de rede social.

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Muitas mensagens que viralizaram ensinavam como as mulheres podem se proteger ao perceber uma situação de perigo como essa. Algumas questionavam porque a mídia não estava falando nada sobre o assunto (a Folha falou disso aqui), como se os jornais e sites houvessem se unido para proteger estupradores ou minimizar a situação de um estupro (ou vários). Moradores da região organizaram grupos de carona ou acabaram pegando uber em vez de andar para as muitas faculdades que existem na área. As escolas passaram aos pais comunicados para reforçar que é preciso estar atenta ao andar sozinha. E a velha discussão (e muito pertinente) voltou à baila: é preciso que as mulheres tomem cuidado, ok, mas isso não é responsabilizar a vítima?

Denunciar é imprescindível

Importante: a mídia não noticiou esses estupros tanto quanto os usuários das redes sociais pediram porque não existe denúncia. Tanto que, a partir do ocorrido no Sacomã, falou-se disso na mídia muito mais. Se não existe registro em delegacias, o crime também não existe. E, a ausência de queixa faz com que um assunto alarmante e importante como esse seja colocado no mesmo balaio das notícias estapafúrdias como "Marielle é casada com um traficante" – fake news.

Pessoalmente, acredito que aconteceu algo bem errado ali na região da Vila Mariana mesmo. Não podemos confirmar se é uma onda de estupros ou um caso isolado: por enquanto, não passam de prints de celular, mas já assustam bastante. E só consigo imaginar que deva ser muito difícil, depois de um trauma como esse, encarar uma delegacia e a postura dos policiais – que, segundo relatos, constrangem mais a vítima do que acolhem.

Mas tudo isso reforça a importância da denúncia. Estaríamos falando mais sobre o assunto se eu não tivesse que usar a palavra "rumores" no título. E aí partiríamos para outra discussão: o que vamos fazer de fato a respeito disso?

Não sou eu que devo me defender, mas me defendo

Não uso carro em São Paulo e me vejo frequentemente em situações, digamos, perigosas. Não é porque levo uma vida de risco, não. É porque saio do trabalho quando está anoitecendo, o ponto de ônibus é longe, minha rua é um exército de prédios enfileirados e não há tantos comércios na região. Não tem muita opção: abaixo a cabeça, aperto o passo e sigo pelos longos muros, até a próxima guarita, quando cumprimento o segurança. Se a estratégia é efetiva, não tenho muita certeza. Apertar o passo me dá a ilusão de que vou chegar mais rápido. E , por me conhecerem de vista, os seguranças podem perceber se um dia algo de diferente acontecer. Espero não comprovar se funciona ou não.

No passado, já caí nessa armadilha de culpar a vítima pela roupa que estava usando: o que é um absurdo. Mas ontem, uma amiga disse que leu nas redes sociais que é bom andar com guarda-chuvas, para se defender. Desde então, quando vai caminhar na rua tarde, sai com um, mesmo que não esteja chovendo. Ontem, me peguei fazendo um coque porque li que cabelo solto facilita a abordagem de estupradores. É muito errado que a gente tenha que se proteger de algo que não é culpa nossa. Mas só mulher sabe o que é andar na rua todos os dias com medo de ser estuprada. E infelizmente, é a própria vítima, quando denuncia, que pode nos proteger um pouco dessa barbárie.

PS: Mas uma coisa legal de todo esse caos é ver a união das meninas. Vamos juntas, sim. E vamos longe.

Uma das prints acusando estupros na região da Vila Mariana (Foto: Reprodução/ Redes Sociais)

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).