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Luciana Bugni

Luciana Bugni

"Bolsa Estupro": por que causa tanta indignação cogitar que isso exista?

Universa

2012-12-20T18:18:08

12/12/2018 18h08

(Foto: iStock)

A coisa que eu mais tenho medo na vida é de ser estuprada. É algo que permeia os meus dias. Ando bastante na rua, pego transporte público – tenho muito mais medo de estupro do que de qualquer outro mal. Nunca aconteceu comigo – e nunca acontecerá, espero. Mas já aconteceu com amigas minhas. Já aconteceu com conhecidas minhas. Já aconteceu com muita gente que eu entrevistei.

Então posso me colocar no lugar delas e dizer que entre tantos problemas que a mulher tem quando é violentada dessa forma, estar grávida do criminoso é só mais um. Há questões gravíssimas de saúde, efeitos colaterais de remédios muito fortes que são tomados para evitar doenças ainda mais graves, dor física, dor psíquica, lembranças, sustos. Não há sequer espaço para dar  continuidade a uma gestação nessas condições.

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Por isso é tão dolorido ver que há quem pense que é justo que a mulher tenha o filho depois de um estupro.  É isso que cogita o Estatuto do Nascituro, que causou alvoroço quando foi apresentado, em 2013, pelo ex-deputado Eduardo Cunha. Uma das propostas do projeto é que a mulher receba R$ 85 mensais caso decida por dar sequência à gravidez. R$ 85 para criar o filho do homem que a violentou. Isso faz algum sentido? A futura ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves diz que não acha que as leis a respeito do estupro devem mudar, mas afirmou que defende o Estatuto, embora a oferta de ajuda financeira à mulher vítima de estupro que decidir manter a gravidez ainda precise ser mais discutida. Mas a ministra deixa claro que sua prioridade é a gestante e o feto. Falar de aborto, mesmo nesses casos, não parece ser sua intenção durante o governo.

Imagine uma mulher que foi estuprada. Ela nunca mais vai andar na rua sossegada na vida – nenhuma mulher anda, mas para quem passou por isso é muito pior. Ela toma remédios que a deixam constantemente enjoada e também fazem com que seus cabelos e unham caiam, de tão fracos. Ela sente repulsa do toque de qualquer outro homem ou mulher que ame porque isso a lembra do crime. Ela tem gatilhos que não pode evitar – cheiros, gestos, vozes.

Você acha que essa mulher tem condições de lidar com uma gestação, fruto do estupro que sofreu? Você acha que R$ 85 ou qualquer quantia facilitaria? E mais: essa mulher teria que cuidar do filho gerado a partir dessa tragédia pelo resto de sua vida. Olhar para ele e perceber que ele tem traços do estuprador. Isso parece justo? Outra questão: como o estuprador, que deveria estar preso, vai pagar a bolsa? E eu vi gente defendendo hoje na internet que o estuprador tem a obrigação de criar o filho. Formar uma família. Dá para continuar uma conversa partindo dessa premissa?

Damares afirma a intenção é proteger o bebê na barriga da mãe. Mas por trás daquele bebê tem uma grávida. E o fato de ela estar grávida não a torna menos mulher, digna dos mesmos cuidados de qualquer ser humano. R$ 85 não compram dois pacotes de fraldas, imaginem se resolvem qualquer uma dessas questões mencionadas. A mulher que passou por essa violência não merece ser sequer questionada.

Qualquer outra ideia de um bando de homens de terno no Congresso não é bem-vinda e pronto.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).