Topo

Nos anos 90, não tinha nada disso: para que serve a curtida no Instagram?

Universa

18/07/2019 04h00

Quantos likes valeria esse look? (iStock)

No século passado, quando eu era jovem, as meninas faziam listas dos meninos que já tinham beijado. Eu nunca tinha beijado. Por isso, morria de vergonha de um dia ter que exibir minha lista de não-beijos numa rodinha de conversa e ficar claro que eu não pegava ninguém.

Durou pouco tempo, passei a dar uns beijos por aí, mas nunca entendi muito bem por que deveria mostrar números para os outros. Mais alguns anos e passei dos limites do que seria "correto" na lista e comecei a ter vergonha por outro motivo: seria taxada de… bem, deixa pra lá.

Veja também

O fato é, que para mim, mesmo mentalmente, a tal lista nunca existiu, nem quando eu daria conta de dizê-la de cor.

Mas esse era um jeito, em uma certa época, de ser aprovado pelos colegas de sala.

Tinha outras maneiras: fumar na esquina da escola era o auge da malandragem, por exemplo. Fiz isso para ser aceita pelos grupos mais populares. Logo, a esquina da escola passou para todas as esquinas e eu, já aceita pelos líderes do centro acadêmico, fumei pelos próximos 15 anos. Não faz bem, sabemos. Já parei, está tudo bem. Mas hoje, olhando daqui, parece meio bizarro que alguém esclarecido se digne a fazer algo que destrói sua saúde para parecer popular. Vira uma prisão, um vício. Tipo ganhar likes no Instagram.

Lembrei da lista na tentativa de traçar um paralelo do que seria a aprovação para um adolescente da década de 90. Na vida analógica que levávamos, não havia muito jeito de mostrar que eu tinha um milhão de amigos para os outros. O fato de muita gente querer responder o meu caderno de enquete, talvez? Se virasse a página e mais de 30 linhas fossem ocupadas, seria o auge. Nunca aconteceu e eu também nunca sofri por isso. Estava muito bem com meu bando de 15 brothers inseparáveis. Ninguém seguia ninguém, a gente só andava junto mesmo.

No mais, eu me sentia amada por coisas que só eu sabia. Pelo telefone que tocava de tarde (e meu pai, pela extensão, mandava desligar). Pelos convites das amigas para passarmos a tarde nas casas uma das outras e fazermos coisas que não mostrávamos aos outros, como por exemplo, subir na cama e cantar as músicas dos Titãs, recitar de cor Faroeste Caboclo, assistir aos clipes do Oasis, achar a Gwen Stefani muito gata (ela ainda está igualzinha, aliás).

Tudo isso não está documentado nas redes sociais. Não havia internet, não havia com o que se preocupar. Se estávamos nos divertindo e achávamos que o momento era bom, bastava. Os registros ficaram gravados em nós mesmos e não temos a menor ideia de quantas pessoas curtiriam aquelas bobagens. E o melhor: não perdíamos tempo pensando no assunto. Não queríamos mostrar nossos momentos para os outros. Vivíamos numa sinceridade de saber o que nos bastava. Pronto.

Toda essa divagação para chegar ao fim das curtidas, proposto pelo Instagram essa semana. O número, que vinha estimulando uma competição até entre os adultos (imagine o que tem feito com a cabeça dos adolescentes), poderá ser visto apenas por quem postou  a foto. Pode parecer uma loucura para você, que nunca pensou nisso, mas os jovens (e os nem tão jovens) desenvolveram uma ansiedade doentia a respeito do número de curtidas que comparam sem parar com a de outros conhecidos e desconhecidos assim que postam novas fotos.

Não raro, gente que lida com altas cifras de curtidas acaba doente — de verdade, com depressão. Nessa semana, houve a triste notícia do suicídio de Alinne Araújo após uma enxurrada hater que seguiu um problema pessoal. A situação é séria. As pessoas estão ficando extremamente ansiosas. O risco é grande, tão grande quanto o cigarro que eu fumava escondido dos meus pais na esquina da escola e depois virou vício. Talvez seja maior.

Existem estudos que dão conta que o elemento "curtida" é viciante. Você se alimenta daquilo sem perceber e precisa postar mais para receber mais likes. De repente, a vida offline deixa de fazer sentido. Não se viaja sem contar para os outros o passo a passo da viagem. Não se come sem mostrar para os outros o aspecto de seu prato. Todo passeio, look, encontro, atividade, passo do filho… é tudo documentado. E chuva de likes. Existe até um termo para isso: biscoito. Postou uma foto de si mesma, bem gata? Está querendo biscoito. Está na dúvida se está gata? Posta mesmo assim e diz que está querendo biscoito.

Quem curte, dizem as más línguas, nem sempre realmente curtiu o que viu. Ou está ali no automático clicando duas vezes com o polegar em cima de todas as fotos, sem nem ver o que está fazendo (você já viu um adolescente percorrendo a timeline?). Ou dá seu like só para ser lembrado, vai saber.

No meu tempo, a gente virava para o lado e perguntava: "tô bonita?". Na ausência de alguém para perguntar, eu confiava no meu crivo mesmo e saía na rua. Parece um pouco mais saudável para a autoestima.

Que legal que o Instagram tomou a dianteira de acabar com a curtida. Porque ela, o cigarro que eu fumava na porta da escola e a lista de quantos meninos as minhas amigas tinham beijado… nada disso serve para nada.

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

Luciana Bugni