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Luciana Bugni

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Para se dizer inocente, Neymar expõe nudez e pornografia para crianças

Universa

02/06/2019 18h19

Dá uma olhada nas imagens de seu celular. Aposto que entre as fotos de seu filho, viagens e gatos tem várias imagens que misturam frases em verde claro e brancas — aquelas prints de conversa de WhatsApp.

Virou um hábito. Se alguém pergunta: "o que fulano disse?", a gente logo tasca a print da conversa de modo a satisfazer o curioso. A print nos faz ganhar tempo. Fora que garante que os fatos estão sendo narrados de maneira fiel à realidade. É difícil manipular uma print — você pode até ocultar um fato ou outro, mas a essência da conversa é impossível de mudar.

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Foi assim que Neymar pensou quando, segundo ele, foi surpreendido por uma acusação de estupro, no sábado (1). A garota, que havia ido à Paris após um convite do jogador (em viagem bancada por ele), diz que foi abordada de maneira violenta por ele no hotel onde estava, no dia 15 de maio.

Neymar garante que é inocente. E para provar o que ele, teoricamente, devia explicar apenas para a polícia, fez um vídeo no Instagram. E usou o recurso da print melhorado: fez um vídeo da tela de seu celular expondo a longa e picante conversa dele com a garota que o acusa nos dias que precederam a ida dela a Paris.

Deve ter parecido uma boa ideia — Neymar não é um rapaz de 20 e poucos anos que decide fazer algo sozinho, sem consultar uma equipe enorme. Provavelmente essa exposição foi aprovada por muita gente. Ainda se teve o cuidado de apagar o nome da garota e dar um blur nas fotos em que seu rosto aparecia. Uma tática que exigiu um bom tempo de dedicação em pleno treinamento para a Copa América, na Granja Comary. (Parece que, além de ser um showman daqueles, Neymar tem outra profissão: ele é jogador de futebol.)

O que não se pensaram, aparentemente, é que o fato deles terem conversado de maneira picante durante algum tempo não anula a possibilidade de estupro. O casal pode inclusive passar a vida falando obscenidades um para o outro com consentimento — a partir do momento em que a mulher diz não, e a relação acontece, é estupro. Não estou dizendo que foi isso que aconteceu, nem poderia: as investigações ainda estão acontecendo. Apenas é que a print de Neymar não prova nada.

E ainda expõe o corpo de uma mulher. Num dos trechos da conversa, ao mandar uma foto em que aparece seminua, a moça pede que ele "não compartilhe". Pois ele "compartilhou" com 119 milhões de pessoas. Mostrar essas conversa parte da premissa machista de que a mulher que manda nudes é uma vagabunda. E, se mandou nudes, "merece ser comida". Pode até querer e tudo bem. Mas a partir do momento em que sente um desconforto e diz não, é não. Mesmo que tenha atravessado o oceano só para isso. Todo mundo pode mudar de ideia.

Se isso não sensibiliza, é importante pensar que entre os 119 milhões de seguidores do maior ídolo do futebol brasileiro, há muitas crianças. A exposição de uma conversa com alto teor pornográfico e nudez não é bem o que a família brasileira precisa ver logo no domingo de manhã.

Mesmo que Neymar seja inocente, agora ele é investigado pelo vazamento de fotos íntimas — o que também é crime. E estimula o pensamento de que a mulher que demonstra desejos sexuais é uma piranha, mas o homem que faz isso é o comedor.

O vídeo de hoje aumenta o holofote no showman e ofusca ainda mais o jogador que expõe publicamente sua embriaguez e preferências sexuais. Tá tudo errado.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

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