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Luciana Bugni

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Caso nos EUA: meninos de boa família também podem ser estupradores

Universa

04/07/2019 04h00

Um bom aluno, prestes a passar na faculdade pode estuprar uma colega? A resposta é, infelizmente, sim (iStock)

Um garoto de 16 anos está numa animada festa do pijama em Nova Jersey, nos Estados Unidos. Muita bebida depois, ele e os amigos levam uma garota, igualmente bêbada, de 16 anos, para o porão da casa onde estão. Os amigos dão tapas nas nádegas dela com força — as marcas podiam ser vistas por vários dias.

O garoto acusado tira então a calça da garota e a penetra por trás — inconsciente, ela não reage. Ele filma o ato e manda para os amigos com a legenda "quando sua primeira vez é um estupro".

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Ela foi achada desacordada, após vomitar no chão desse porão. Foi levada para casa pela mãe de uma amiga. No dia seguinte, disse para a própria mãe que achava ter sido violentada. Fez os exames, descobriu lesões, tinha muitos hematomas.

O juiz disse essa semana que o garoto deve receber leniência (que quer dizer, nesse caso, benefícios na investigação ou abrandamentos). O motivo? Ele é de boa família.

"Esse jovem rapaz vem de uma boa família que o colocou numa boa escola em que ele está se dando muito bem. Ele não só tem chances de entrar na faculdade, como em uma boa faculdade. Suas notas qualificatórias para a faculdade são muito altas", são as palavras do juiz. Quanta coisa boa, não? Mas o que isso tem a ver com estuprar ou não uma pessoa?

Esse garoto tão estudioso, que é até um escoteiro, filmou o momento em que penetrava uma garota inconsciente no porão, depois de, com os amigos, dar tapas violentos em suas nádegas. Ele compartilhou esse vídeo com ironia. Quando indagado em um tribunal sobre o vídeo, negou que isso tivesse acontecido. No entanto, seguiu a compartilhar nos meses seguintes, com dose extra de crueldade. Ele provavelmente vai voltar a fazer isso quando, estudioso como é, entrar em uma boa faculdade.

Nas faculdades dos EUA, situação é alarmante

A história está longe de ser isolada. No livro Missoula, Jon Krakauer descreve minuciosamente estupros que aconteceram na cidade universitária do estado de Montana nos últimos anos. A narrativa é muitas vezes difícil de digerir: mulheres bêbadas no campus da faculdade estão dormindo na casa de amigos após festas e acordam ao serem penetradas por eles. Krakauer apura que, segundo as investigações locais, os agressores são geralmente integrantes do forte time de futebol americano de lá. São homens muito grandes, de cerca de 2 metros de altura, pesam mais de 100kg e são adorados pela população. Meninos certamente de boas famílias, que têm bolsas de estudos pelo desempenho esportivo e em sala de aula.

Uma das vítimas entrevistadas pelo autor teve que praticamente consolar o pai duas vezes quando o homem que a estuprou, seu amigo de infância, foi preso. Primeiro, porque a filha foi violentada e ele finalmente se deu conta disso. Segundo, porque um de seus ídolos do esporte era o criminoso. A própria polícia, segundo a narrativa de Krakauer, faz de tudo para abafar denúncias, insiste que o sexo foi consensual, mesmo quando as evidências dizem que foi estupro. O argumento não raramente é que essa acusação vai destruir a vida do rapaz. Do pobre rapaz. Do bom aluno. Do jogador de futebol. Do escoteiro.

A vida da garota de Nova Jersey que apanhou de todos os seus colegas e foi violentada inconsciente já está destruída. Quando a menina de 16 anos é encontrada no meio de vômito num porão, desmaiada, muito pouco já restou dela. Quando ela confessa para a mãe que sequer tem certeza de que foi violada, sua vida, como ela conhecia, já acabou. "Eu não quis ir embora da casa dele tão tarde, não quis dirigir bêbada, achei que seria perigoso", diz outra vítima em uma das entrevistas do livro. O autor frisa que muitas estudantes desconhecem que o verdadeiro perigo está dentro das casas, quando estão cercadas de conhecidos que se acham no direito de fazer o que fazem.

Mas meu filho nunca faria isso — será?

É difícil mesmo entender que um garoto bom e estudioso possa cometer um crime tão horrível quanto esse. A primeira coisa que nos passa pela cabeça é que é impossível que aquele menino educado que nos cumprimenta no elevador seja capaz de uma atrocidade dessas. Todos esses pensamentos são seguidos pela frase: "meu filho nunca faria isso". Vemos nos bons alunos o filho que gostaríamos de ter.

É desesperador admitir, mas pode ser que nosso filho fizesse isso. Se a gente não falar sobre isso com eles, presumindo que eles sabem que não devem transar com quem está inconsciente, por exemplo, podem cair na pilha de amigos. Existe um imaginário comum muito forte de que a garota que bebe mais do que devia é culpada pelo que acontece com ela. De que a mulher que se sujeita a entrar num quarto com um rapaz desconhecido não pode mais mudar de ideia. E que nossos meninos "jamais fariam isso".

Escoteiros, jogadores de futebol, garotos e homens religiosos, por exemplo, ajudam velhinhas a atravessar a rua, cedem o lugar para uma mulher grávida sentar no ônibus, respeitam suas mães acima de tudo. Mas podem, com a mesma naturalidade, estuprar uma colega de sala que bebeu demais. Porque acham que ela merece, porque acham que ela estava pedindo, porque os amigos acham natural, entre tantos outros motivos.

Se a gente não falar disso com eles, continuarão agindo assim.

E eles podem crescer e virar juízes que acham que um crime desse porte é menos importante do que o fato de passar no vestibular com louvor.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

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