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Luciana Bugni

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Por que a mulher violentada mandaria mensagem ao agressor no dia seguinte?

Universa

03/06/2019 20h04

iStock

Essa foi a pergunta que eu mais ouvi nas últimas horas. A história você conhece: Neymar foi acusado de estupro por uma garota com quem se relacionava . Não dá para dizer que ele é culpado, nem que é inocente.

Na tentativa de provar sua inocência, o jogador fez um vídeo no Instagram expondo vários trechos da conversa dos dois no Whatsapp. A temática era quase que exclusivamente sexual. E recheada por vários nudes dela. Pois.

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A ideia de Neymar (ou da equipe por trás dele) era mostrar um lado das mulheres que a sociedade não aprova e assim conquistar a simpatia do tribunal das redes — atirada, a autora da denúncia fala de sexo livremente e não se faz de recatada ao demonstrar seus desejos nas mensagens. Deu certo. Sendo o jogador inocente ou culpado, a moça está sendo chamada de tudo o que se pode imaginar por aí.

Mas talvez, o que mais tenha inquietado quem leu a troca de mensagens é: por que uma mulher que foi violentada na noite anterior mandaria uma mensagem ao suposto agressor no dia seguinte? "Estocolmo", ironizou um leitor que me abordou em alguma rede social quando me atrevi a dizer que mostrar as mensagens da garota não me parecia a atitude mais correta. (Ele se refere à síndrome de vítimas que sentem afeto por seus algozes.)

Fui buscar a resposta com especialistas no assunto e, supresa: o leitor estava coberto de razão. Não podemos dizer que isso realmente aconteceu com a moça que ganhou uma passagem de Neymar para Paris. Entretanto, mulheres violentadas podem, sim, agir como se nada tivesse acontecido no dia anterior.

"Para o bom pensamento é importante suspender o juízo. Vamos deixar de lado todos os clichês de masculino e feminino e pensar", sugere a psicanalista Maria Homem, antes de dizer que é impossível dar um veredito sobre esse caso, que ainda está sendo investigado.

"O que pode haver em casos de violência é uma identificação com o agressor, mesmo que seja inconsciente. Ser o agredido é muito angustiante e a pessoa, em uma situação vulnerável, nega o que houve", ela diz. Em outras palavras: está muito difícil aceitar aquilo que aconteceu, então a pessoa pensa: "Vamos refazer essa cena? Dar outra chance? Desta vez tem que dar certo." E então se comporta como se nunca houvesse vivido a situação violenta e pudesse recomeçar do zero a relação com o agressor. Esse tipo de "bloqueio" pode durar muito tempo.

Há outro motivo que leva a mulher a tratar o cara bem mesmo depois de uma agressão: "A vítima precisa manter um relacionamento pacífico com o agressor até se sentir segura. Ela não pode dizer que não gostou do que ele fez antes de estar em casa. A ideia é fazer de conta que está tudo bem e não teve nenhum problema", diz Alice Bianchini, advogada vice-presidente da Comissão Nacional da Mulher Advogada.

Repito: não dá para dizer que foi isso que aconteceu com Neymar e a mulher que o acusa. Há uma investigação séria por trás de tudo que se diz sobre o assunto. A sexualidade ainda está extremamente atrelada ao conceito de que cabe ao homem demonstrar virilidade por meio de força e violência. "Como, por exemplo, a puxada de cabelo que é sexy nos filmes", exemplifica Maria Homem. E aí fica difícil que alguém de fora daquela relação determine o que é violento ou não naquele contrato.

 

E, mesmo que a gente entenda tudo isso, é também crucial que as mulheres percebam o que é uma transa boa — mesmo que se tenha viajado mais de 10 mil km só para fazer sexo com aquela pessoa. E verbalizem o que não querem fazer, caso mudem de ideia.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

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