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Luciana Bugni

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"Exausta": ficar postando que está cansada faz você se sentir melhor?

Universa

10/10/2019 04h00

Gimenez cansada em alguma praia bonita (Reprodução Instagram)

As pessoas estão exaustas. Não sou eu que estou dizendo, é o que tenho visto no Instagram. E no Twitter. E no Facebook também deve estar rolando. Engraçado é que elas dizem que estão exaustAs, no feminino. Parece que os homens estão um pouco mais dispostos. Ou, pelo menos, não estão falando sobre isso.

Me sinto exausta a maior parte do tempo. Sou a personificação do meme da Luciana Gimenez reclamando de canseira. Ontem parei na escada do metrô e fiquei um tempinho olhado para ela, com preguiça de subir. Eu não sou sedentária, faço esporte e tomo água o dia inteiro. Mas se tivesse uma maca para me levar à superfície do metrô, eu não ia reclamar, não.

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Mas como é que melhora isso, eu subi os degraus me perguntando (e me arrastando). Por que, sabemos, não temos sempre ao alcance a oportunidade de dar uma descansadinha. E não dá para ficar embaixo da terra (falo do transporte público), esperando a vida passar. Até porque lá embaixo venta muito.

Não sei como melhora. Eu sei como não melhora: postando na internet. Repetindo seu cansaço sem parar por aí. Além disso, ficar reclamando não ajuda quem está lendo, que provavelmente está se sentindo igualzinho a você. Eu sei, quando a Jout Jout postou um vídeo dizendo que todo mundo está mal, quem estava mal se sentiu abraçado. Mas agora que a gente já sabe que todo mundo está mal, será que não era hora de mover para o próximo passo?

O vídeo de Jout Jout, postado há cinco anos, falava muito pertinentemente do que está por trás das pessoas que postavam coisas alegres nas redes sociais. Ninguém estava sentindo só aquela alegria, aprendemos. Agora não é possível que a gente esteja só exausta também. Fomos de um extremo ao outro em cinco anos – a gente não tem meio termo mesmo. Até a Luciana Gimenez, que vive viajando e tomando sol (eu queria), está morrendo de cansaço. Tem até camiseta exaltando a sua exaustão.

Ser mãe é uma canseira só?

Quando, uns anos atrás, começou a vibe da maternidade real, eu ainda não estava nem grávida. Quando engravidei – e fui uma péssima grávida – concluí que era impossível não dizer a verdade para as pessoas. E a minha verdade era que era horrível estar grávida. Uns meses depois de parir, e no ano que se seguiu, eu não dormi mais de uma hora seguida. Não estou fazendo drama, foi isso mesmo: meu filho acordou de hora em hora por 18 meses. Não sabíamos lidar com isso direito, eu colocava ele no peito para acalmar e assim foi até a Páscoa, até julho, até meu aniversário e o Réveillon e de novo a Páscoa e mais um pouco. Sempre que eu ficava em pleno desespero, eu olhava para aquela coisinha fofa que nunca dormia e pensava: mas gente, a vida até que é boa. Às vezes eu queria jogar ele na parede para cair direto no berço (nunca fiz isso, ainda bem, mas acho bonito quem é elevado o suficiente para nunca ter pensado nisso quando está há 15 meses sem dormir). Mas eu também pensava: como a vida é boa.

Nessa época, li um post da jornalista Vanessa Fajardo em que ela dizia que o movimento da maternidade real tinha sido importante, mas que já tinha dado. Que tinha coisa boa em ser mãe, sim. Eu, acordada às 3h da manhã, primeiro fiquei indignada. Depois pensei que ela tinha razão. Falar a real é importante, sim. Mas falar só a parte negativa da coisa é meio viciante e não ajuda muito a melhorar.

A exaustão que se nota no olhar (Reprodução Instagram)

No livro Maternidade (Ed. Companhia das Letras), Sheila Heti discute o tempo todo se a personagem (que, ela confessa, tem alta dose autobiográfica) deve ou não ter filho aos 37 anos. Em dado momento, a protagonista conclui que o melhor jeito de combater um tabu – que para ela era a gravidez – era falar sobre isso. Ela fala muito de tudo que perderia se de fato engravidasse. Pensei que se tivesse lido a obra antes de ter filho, teria usado camisinha naquele dia. E que bom que não usei.

Cansaço não é tabu. Cansaço é real. Escrever sobre a exaustão pode servir como um desabafo momentâneo, mas em geral só agrava a canseira. Reafirmar uma situação não a anula, infelizmente. Assim como passar maquiagem no rosto para melhorar olheira não faz com que pareçamos mais descansados por dentro — ou eu começaria a rebocar minha cara agora.

Prefiro andar de cara limpa. Beber água, fazer esporte e pensar que eu consigo. Pedir ajuda também é importante, claro. É isso que me leva até o topo da escada do metrô, mesmo que lentamente, e me faz sair do buraco.  Porque podem ser muitos degraus ou um ano e meio sem dormir: no fundo, não há post que nos salve. O que a gente precisa é dar uma paradinha, olhar para cima, e ver se precisa mesmo fazer tudo o que está fazendo para chegar lá. Outra pergunta importante: lá é onde mesmo?

Uma vez respondida essa questão, pode ser que possamos dar uma descansadinha em paz, sabendo que não há nenhum incêndio para apagar agora.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

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