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Luciana Bugni

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Os vídeos de parto estão na moda, mas tudo bem não parir de chapinha, tá?

Universa

12/09/2019 04h00

Depois de horas sob o chuveiro berrando, eu estava mais ou menos assim (iStock)

Tenho visto o sucesso que é ver vídeos de parto das blogueiras no Youtube. É legal mesmo documentar fases importantes da vida, né? E essa, eu diria que é uma "quase morte". Morre aquela mulher que você era sem filhos e nasce uma outra que eu acho (e as pesquisas dizem) que é bem melhor.

Mas o que mais me impressiona nos vídeos é como essas mulheres conseguem parir com tanto aparato cinematográfico em volta. Claro, cada um tem seu filho como bem entende. Eu não quero ninguém reclamando porque eu pari de cócoras e despenteada. Nem jamais criticaria uma cesárea ou qualquer outra situação de parto diferente da minha. Mas eu vejo os vídeos das blogueiras fazendo longas chapinhas entre uma contração e outra e penso: como elas conseguem?

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Eu devo ter muito pouco talento para esses detalhes da estética mesmo. A questão aqui não é a chapinha em si, claro, mas qualquer cuidado com algo que não seja a contração. Eu não ia ter nunca o autocontrole dessas mulheres. Olho para elas na maca do hospital comentando a própria dilatação com os olhos bem delineados, maquiadas, cabelo impecável, falando pausadamente.

Corta para mim: sentada numa bola de pilates dentro do chuveiro de casa berrando por horas, com a água superquente caindo sobre meu cabelo e embaraçando e ressecando os fios. Eu me arrastando até a cama e berrando com pessoas que não mereciam: "QUANTO TÁ ESSA DILATAÇÃO AGORA?". Eu chorando e pedindo desculpas por ter gritado. Eu voltando para o chuveiro e abrindo de novo o jato quente na minha lombar, em cima da bola, com um cabelo desgrenhado, um elástico prendendo aquela mistureba. Esse ciclo se repetiu de dois em dois minutos por nove horas, até eu ir para o hospital. Você ia querer ver esse filme?

Eu só veria por conta da minha gata, tadinha, tão fofa, sentada no banheiro me olhando e tentando entender o que estava acontecendo.

Mesmo que eu tivesse pensado que seria uma boa ideia ter um fotógrafo ali naquele momento, eu fatalmente teria mandado o profissional embora na terceira hora, depois de uma centena de contrações. Imagina se eu ia pentear o cabelo para esse vídeo ficar mais apresentável.

Preciso repetir que não estou criticando parto nenhum. Só acho importante a gente ter claro que cada um tem o seu jeito. O meu foi de cócoras, depois de 15h dessa confusão toda, com um cabelo impublicável, gritando que não ia conseguir. Vi os partos de alguma mulheres que fazem a força sem mudar a expressão, muito por conta da anestesia, mas muito por conta também da forma delas de viver a vida: sem tanto alarde quanto a minha. E acho legal demais.

Fiquei por quatro horas no período expulsivo, em que a dilatação está ok, a bolsa está estourada, a única coisa que você precisa fazer é expulsar a criança para o mundo (coisa que os românticos chamam de dar à luz). Demorei quatro horas para entender como conseguir fazer com que ele descesse e passasse seus três quilos por um buraco que, 24h antes, não tinha mais de três cm. Não achei fácil. Não fiz caras bonitas.

Pra se entreter nessa madrugada longa, minha doula pegou meu celular para fazer umas fotos e uns filminhos da fase final. A médica dizia: "Coloca a mão, a cabeça dele está aparecendo". Eu juro que até tentei fazer o que ela pedia. Mas quando eu senti os cabelos de alguém (que hoje eu amo muito, mas naquela hora era só alguém) saindo de dentro de mim eu só dizia: "Não quero maaaaais! Volta para dentro!"

Quando finalmente a criança saiu, a doula esqueceu de apertar o Rec. E tudo bem, porque eu tenho certeza de que você não ia querer ver esse filme.

Mas pode ser cesárea, natural, maquiada, maravilhosa ou mulambenta como eu: não tem coisa mais emocionante do que um bebê saindo de uma mulher e indo para o seu colo. É lindo demais. Está tudo certo, seja o que for o jeito de botar uma criança no mundo que você escolher. Quando ele chegar no seu colo, você vai entender que está tudo absolutamente certo.

Acho que é por isso que vídeos de parto fazem tanto sucesso. Criança nascendo é lindo demais.

PS: Demorei uns três dias para desembaraçar meu cabelo depois de ter filho. Eu devia ter feito chapinha mesmo.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).