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Luciana Bugni

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Como caso de Freixo e Daniel Alves: mulher também ganha bem, mas incomoda

Universa

14/08/2019 04h00

Se eu tiver dinheiro para comprar o Copacabana Palace, meu marido vai reclamar? (Foto: Gabriel Cabral/Folhapress)

Por que será que em pleno 2019 é tão difícil para as pessoas aceitarem que: 1. mulher pode ganhar mais que o marido. 2. mulher pode valorizar tanto a própria profissão quanto o marido se importa com a carreira dele.

Só nessa terça (13), aconteceu duas vezes. Um post de Marcelo Freixo deu o que falar nas redes sociais porque o deputado estava na cobiçada piscina do Copacabana Palace. Antonia Pellegrino, sua mulher, foi às redes explicar que havia feito 40 anos e passado uma noite no hotel. "Subiram uma tag falando o salário dele [Freixo]. Ninguém pensa que quem pode ter pago a diária fui eu. Acordem. Mulheres trabalham, são independentes e levam o marido pra onde quiser", ela disse. 

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Joana Sanz, modelo casada com o jogador Daniel Alves, também se manifestou sobre o desejo dos fãs brasileiros de que ela venha para o Brasil acompanhar o marido, que foi contratado pelo São Paulo. "Mulher trabalha, sim, trabalha", ela disse de lá da Espanha onde está… trabalhando, ué. Ela afirmou estar surpresa com a mentalidade de quem pensa, como muitos anos atrás, que a mulher deve acompanhar o homem e que a profissão de um é mais importante que a do outro.

O mesmo já havia acontecido com Susana Werner, que reclamou publicamente de Julio Cesar, seu marido, ter decidido jogar uma temporada no Brasil no ano passado. Ela afirmou que não viria, pois tem negócios em Portugal. Justíssimo. Na época, discutiu-se inclusive qual o papel da mulher no sucesso do marido. Julgo ser gigante.

Até hoje, mesmo quando sou eu que estou com o cartão na mão na hora de pedir a conta no restaurante, o garçom dirige a máquina de débito para meu marido — faz o mesmo com a bebida alcoólica. É difícil entender que uma mulher vai pagar a conta. Meu colega Rodrigo Ratier falou disso quando discutia como é complicado para a sociedade aceitar que um pai pode dar conta de cuidar das crianças sozinho na rua. "Minha mulher tem um emprego em que ganha mais que eu", ele diz, sem nenhum constrangimento. E por que haveria de ter constrangimento, se é mais dinheiro entrando na sua própria casa? Pareceria burrice achar isso ruim.

Quando acabou minha licença-maternidade, meu marido tinha a disponibilidade, por ser freelancer, de cuidar do bebê. Durante seis meses, eu saía de casa e ele ficava com todos os filhos, cuidando da dinâmica da casa, roupas, comida e a demanda de uma criança de meses. Eu escutava coisas engraçadas como: "e ele se vira?", "e você confia?", "você se sente mal?". Não, eu não me sentia mal de ter um emprego importante em uma editora importante enquanto meu filho estava sendo muito bem cuidado pelo homem que eu escolhi para dividir essa função.

Já ele escutava comentários um pouco mais tristes: "Contrata alguém", "Arruma um emprego fixo você também", "Que bucha", "E ela fica de boa enquanto você passa por isso?". Na verdade, ninguém ficava de boa — julgo que seja impossível ficar de boa quando tem um bebê de meses em casa acordando a noite toda. Mas nenhuma mulher escutaria algo do gênero, afinal, empregos de homens são inquestionáveis. Revezávamos assim: ele trabalhava enquanto eu estava em casa, e, quando eu saía, ele cuidava do bebê. Não parece justo?

Espero que meu marido não seja transferido para outro país, como Daniel Alves foi. Ia ser dolorido fazer essa dinâmica funcionar com um oceano de distância. Mas espero também que tudo dê certo para, quem sabe, quando eu fizer quarenta anos, passar uma noite no Copacabana Palace.

Pensando bem, que tudo dê muito certo. Por que quando eu fizer 40 anos, vou comprar o Copacabana Palace inteirinho e chamar todo mundo para uma festa — e pagar eu mesma, no débito. Sonhar não custa.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).