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Luciana Bugni

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"Eu nunca": falar de sexo e do passado com naturalidade não pode ser ruim

Universa

18/08/2019 16h51

"Eu Nunca" é uma brincadeira clássica da juventude. A regra é bem simples: você diz uma frase iniciada com "Eu nunca" e todo mundo que já fez aquilo que foi dito alguma vez na vida tem que tomar um shot de bebida, ou um gole, se for o caso de turmas mais moderadas.

Por exemplo: "Eu nunca comi arroz" — todo mundo tem que beber um gole, por que todo mundo já comeu arroz alguma vez, inclusive quem disse a frase. Normalmente as frases são um pouco mais apimentadas que arroz. Circulam em torno de assuntos sexuais, costumes sexuais, desejos sexuais. Na verdade se brinca de "Eu nunca" para confessar aos amigos detalhes da vida sexual que não confessaríamos sóbrios. E também, para, se tiver sorte, fazer sexo com alguém no fim da brincadeira, já que falar de sexo e beber excita as pessoas.

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Essa combinação explosiva faz sucesso na juventude, quando não se tem um passado extenso a ponto de beber em todas rodadas. Não é o caso de João Vicente de Castro, que tem 36 anos, já fez bastante coisa e brincou com os amigos Giovanna Ewbank, Fê Paes Leme e Bruno Gagliasso em frente às câmeras. O vídeo foi ao ar no sábado (17) e já tem 620 mil views.

João Vicente bebeu em quase todas as rodadas. Confessou que já fez sexo com fã (especificou inclusive que isso acontece todas as quartas e sextas). Confessou que já transou no trabalho. Que já transou com a amiga Fê Paes Leme (que estava ali do lado rindo). E que já ficou excitado em cena. E que até fingiu orgasmo. E se gravou transando. Deu até selinho nos amigos. Rapaz…

O fato de tanta gente ter gostado do vídeo é facilmente explicável — além de saber detalhes picantes da vida das celebridades, você se sente jovem ali naquela cama, cercada de gente bonita, bebendo e rindo. Um amiga disse: "Eu transaria com todos os presentes, não ia sobrar um". E ela nem tinha bebido.

Na vida adulta, casados ou em relacionamentos sérios, brincar de "Eu Nunca" seria confessar o inconfessável da vida anterior a esse namoro. É briga na certa. Não devia, né? E, quanto mais bêbado a gente fica, mais fala a verdade e pode incomodar o parceiro que não tinha ideia do que rolou um tempo atrás. Bobagem. Passado é passado e, na teoria, não devia incomodar ninguém.

Lógico, a gente não precisa — ou não deveria precisar — fazer um relatório de tudo que já viveu quando começa um namoro novo. Você só precisa falar sobre o que quer. Mas também não dá para sofrer se a pessoa por quem você está apaixonado já fez coisas que você nem cogitava. Já falei e repito: ninguém vem sem ex em 2019. Arrisco dizer que ninguém vem sem filho à essa altura também. Ou seja: tudo o que aquela pessoa que está lhe dando frio na barriga já fez é o que a trouxe até aqui. A gente devia ser mais grato ao passado dos outros em vez de ficar fazendo cena de ciúme inútil. Afinal, não dá para apagar, dá?

No vídeo de Giovanna Ewbank, é legal o jeito livre que, bêbados, eles conseguem falar do que passou, mesmo estando entre casais ou ex-casais.

O sucesso danado que o vídeo fez dá a entender que todo mundo gostaria de falar da própria vida sexual livremente para todo mundo ouvir. O que os adultos queriam mesmo era estarem bêbados com um monte de gente linda numa cama, falando coisas íntimas sem embaraço e com entusiasmo.

Essa espontaniedade entre amigos e o respeito com a nossa própria história melhora a vida da gente. Aliás, vai ver que se falássemos mais sobre sexo não estaríamos em tempos de tanto ódio.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).