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Luciana Bugni

Luciana Bugni

Todo mundo erra -- até jornalista. E todo mundo pode pedir desculpas

Universa

19/09/2019 04h00

Bieber quer saber: is it too late to say sorry? (Reprodução/ Instagram)

Como é difícil ensinar alguém a pedir desculpas. Estou passando por esse desafio agora com meu filho de dois anos e meio — a chamada adolescência da infância. Quando contrariado, ele joga objetos no chão. Eu tento ensiná-lo que aquilo é errado, que os brinquedos podem quebrar e que ele precisa me pedir desculpas.

No começo, ele ficava muito resistente a essa parte. Agora, uns meses depois de terapia de choque, ele já está entendendo que  o "pedir desculpas" é muito importante. Então, pouco depois do "arroubo" adolescente daquela criatura de menos de um metro de altura, ele mesmo se dá conta de que passou dos limites. Olha para mim, às vezes desafiando, às vezes temendo uma bronca. E — quase sempre, preciso ser honesta — pega o brinquedo do chão, me pede desculpas e diz: "Não vou mais fazer isso, mamãe". A promessa infelizmente é um pouco vazia. Basta ser contrariado que lá está de novo no dia seguinte fazendo alguma choradeira desnecessária. Mas vamos tentando.

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Adultos também têm certa dificuldade de admitir seus erros em pedidos de desculpas. Tem quem só faça isso quando a justiça obriga, como aconteceu com o presidente Bolsonaro, após ofender Maria do Rosário. Mas não tem nada mais potente do que um pedido de desculpas sincero para diminuir o potencial bélico de um perrengue qualquer. Lógico que, quando a pessoa tem mais de dois anos de idade (tá, bom, mais de 14) fica difícil perdoar quando o erro é uma repetição. Agora, se o arrependimento é genuíno e existe uma promessa ali de não fazer mais e algum carinho, é difícil que o rancor prevaleça. Até traição às vezes se resolve assim.

Pelo menos para mim, que sou um pouco trouxa, funciona. Mas e quando o erro é profissional? Aí fica um pouco mais difícil assumir, né? Aconteceu comigo há uns dias, quando escrevi um texto sobre o frisson causado pela vinda dos Backstreet Boys ao Brasil. Foi uma tentativa equivocada de ser bem-humorada e causar uma reflexão sobre um assunto que me intriga: por que a gente gosta tanto de relembrar o que passou? Deu errado. O tom do texto ficou arrogante e ofendeu gravemente as fãs da banda. Que, por sua vez, se sentiram no direito de me ofender gravemente em minhas redes sociais.

O ataque hater durou 72 horas ininterruptas e até hoje recebo mensagens de ódio. Já passei por alguns ataques haters extra o da caixa de comentários aqui debaixo e te digo: o dia em que "falei mal dos Backstreet Boys" foi o pior. E é difícil avaliar qual é o seu erro quando se está embaixo de uma saraivada violenta, mas foi o que tentei fazer. Não consegui ler tudo que me escreveram, mas no meio das mensagens, vi a de uma leitora, que diferentemente da maioria das outras, me questionou de maneira educada sobre o respeito às diferenças. Escrevi para ela, pedi desculpas (que pedi para ela estender aos outros milhares de fãs incomodados). E ela me desculpou e, por outro lado, pediu desculpa pela agressividade de seus colegas. Ficou tudo bem.

O mesmo aconteceu essa semana em uma reportagem da revista Época que, de uma maneira controversa, mas por vezes usada no jornalismo, aborda a esposa de Eduardo Bolsonaro, deputado e candidato a embaixador de EUA. A mulher não tinha exatamente nada a ver com a carreira do marido ou com os erros e acertos do sogro na presidência da República e não deveria ser exposta daquela maneira. O grupo Globo fez um nota pedindo desculpas. Acontece. Estamos infelizmente sujeitos a isso em qualquer carreira. Mas um erro no jornalismo acaba sendo um pouco mais exposto e é mais questionável.

Pedir desculpas nem sempre resolve a questão ou ameniza a ira dos ofendidos. Mas que é um passo adiante rumo à civilidade, ah, isso é. Que a gente consiga sempre pensar nisso, mesmo debaixo de tanta saraivada de violência na internet.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

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