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Tell me why... de onde vem essa euforia pelos Backstreet Boys?

Universa

05/09/2019 04h00

Pensando bem, até que o Brian tá bem (Divulgação)

Eu tomei um susto quando meu enteado meteu uma faixa na cabeça, arregaçou as mangas da camiseta e começou a cantar com um microfone na mão, de olhos fechados: "You are… my fire, the one… desired."

A outra mãozinha fazia a coreografia que vi muitas vezes na MTV nos anos 90 e reconheci de imediato: ele, que nasceu em 2001, estava cantando Backstreet Boys. 2001, ali mesmo quando a banda se apresentou no Maracanã e os fãs ficaram 15 dias acampados na porta. Parece que eles voltaram: ídolos e fãs.

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Nesse dia, provavelmente empolgado pela euforia de algumas coroas trintonas que estavam na festa, o adolescente lá de casa batia o pezinho e juntava a mão no peito para dizer: "I want it that way" e levou o hit até o final, conduzindo o vocal como se tivesse visto o próprio Nick Carter ao vivo várias vezes (ia escrever Justin Timberlake, mas meus colegas me alertaram que Justin é de outra banda).

Apesar de ter vivido ativamente o fim dos anos 90, a música pop e a MTV, as boy bands nunca me seduziram. Então custo a entender porque existem filas para ver shows de alguns rapazes quarentões que devem penar para fazer as mesmas coreografias de 20 anos atrás.

E outra: o próprio público que lotará aquele gramado já não tem mais as plenas faculdades do ciático. Aviso quem passou as últimas décadas sendo adulto e não teve tempo para passar horas em pé num estádio esperando um festival começar: o ciático pinça. Mesmo para quem fez isso com frequência aos 20, 25, 30 e 35 anos, o corpo dói. Depois de 40 minutos de euforia, o show ainda não vai ter começado e é provável que você pense com muito saudosismo no seu sofá.

Mas esse texto não era sobre derrotismo físico.

Dos mesmos inventores de "chorei no show de Sandy e Junior", por que raios agora "preciso muito ir no show do Backstreet Boys"?  Não sou ninguém pra falar de música velha, afinal, é só o que ouço. Acho que nem era preciso inventar mais cantoras: Maria Bethânia é definitiva. Mas, desculpe dizer, Bethânia continua interpretando novas coisas. Gil fez um disco novo agora com releitura genial ("Pela Internet 2") dos tempos de internet — o cara se auto renova! Paul McCartney segue sendo genial desde sempre – e, preciso confessar, ele aguenta melhor o próprio show do que eu, que sou quase 50 anos mais nova e começo a reclamar depois das 2h de música (são 3h). O que os Backstreet Boys fizeram de novo nos últimos sei lá quantos anos? Vários discos, fiquei sabendo depois. A questão é que eles não fizeram o sucesso dos primeiros álbuns no Brasil. Mas no exterior, foram inclusive indicados a prêmios.

Uma amiga diz que não tem nada a ver com Backstreet Boys, é sobre amar o que passou. "Hoje em dia não tem música legal nova, acabou tudo em sertanejo ou em funk", ela diz, com o ingresso do BSB, como ela chama carinhosamente, na mão (ou na tela do celular). Faz sentido. Coloco "I want it that way" para ouvir no Youtube.

Entendo que o frisson seja uma necessidade extrema de voltar ao passado. Somos muito saudosistas. "Precisamos falar do que fizemos porque não fazemos mais história", disse um amigo mais dramático. Discordo um pouco: nossas histórias são outras, apenas um pouco menos inconsequentes. Inconsequente nesse momento da minha vida seria pagar R$ 400 pra ver o show de uma banda da qual conheço uns três hits.

É natural ser saudosista à medida em que vamos ficando velhos e o mundo vai ficando torto desse jeito que está. Mas pensar tanto assim no passado — ou pagar caro para revivê-lo — infelizmente não altera em nada o presente. O show dos Backstreet Boys pode ser divertidíssimo por duas horas (eu vou tentar entender, afinal, Backstreet's Back, alright). Mas quando você sair do estádio, se ainda conseguir andar, sua vida vai ser exatamente a mesma. Não seria melhor achar uns bons motivos pra ser feliz aqui mesmo, no agora?

Não sou assim azeda o tempo todo: foi uma delícia ver um menino de 17 anos se esmerando no vocal e coreografia à la boy band até pra mim, que nem conheço a banda direito. Mas que a gente precisa se obrigar a viver no presente pra mudar algo, ah isso precisa. Você discorda?

Tell me why aqui embaixo nos comentários.

PS: Meu enteado me contou que quando uma professora chegou em sala de aula e viu que todos os alunos haviam descolorido o cabelo como os ídolos do futebol, disse que eles estavam parecendo os Backstreet Boys. Como ninguém esboçou reação, ela passou o vídeo e foi assim que os adolescentes ficaram conhecendo a banda. Tá explicado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

Luciana Bugni