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Luciana Bugni

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O céu ficou preto e acham que a culpa é da mídia esquerdista lacradora

Luciana Bugni

21/08/2019 11h56

O céu de São Paulo na segunda: uma mistura de chuva e cinza das queimadas que não possibilitou o diálogo (Agência Estado)

A informação chegou para mim na madrugada, naquele dia em que o céu ficou preto, no grupo de Whatsapp da família. "O céu está preto por que está frio. A mídia esquerdista lacradora está mentindo sobre as queimadas na Amazônia para derrubar nosso presidente".

Virei para o lado e tentei dormir de novo. Havia ficado bem impressionada com o céu escuro no dia que virou noite em São Paulo. Quando li diversos meteorologistas falando da influência das queimadas no cerrado e Bolívia, fiquei ainda mais passada. Lembrei das erupções vulcânicas de uns anos atrás que atrapalharam os vôos de todo o continente. Pensei na seca que vivemos em São Paulo há um tempo que estava relacionada ao desmatamento na Amazônia. Pensei em quando estive na Amazônia, três horas dentro de um avião de Manaus (AM) a Santarém (PA) sobrevoando uma floresta que parecia infinita. Pensei na agonia que senti quando, do alto do avião, vi grandes buracos desmatados.

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Pensei, enfim, em como isso tudo poderia ser culpa da imprensa lacradora, que pelo que tenho lido nos comentários, também sou eu. Se tudo o que a imprensa faz é perguntar o que não sabe para quem sabe. Por exemplo: eu não tenho a menor ideia de por que o céu ficou preto na segunda. Pergunto então para quem passou a vida estudando o céu. E então escrevo, não para lacrar (não consigo ainda entender direito o termo), mas para informar. Essa é minha vida há basicamente 20 anos — se tem uma coisa que sei fazer é perguntar coisas para quem sabe e contar pra todo mundo.

A mensagem agressiva no Whatsapp me levou a pensar também em quando é que perdemos a capacidade de ouvir o outro. Noite dessas, chamei meu enteado para jantar e ele veio do quarto dizendo:  "não aguento mais discutir a pena de morte". A pena de morte é assunto de debate em colégio há décadas. É um tema bom para explicar o método de debate e convencimento para os alunos. Tem argumento para tudo quanto é lado, uns se exaltam — eu lembro bem como era. O jovem Gustavo, lá em casa, discutia o assunto com seus amigos no Whatsapp e ouvia o que quem pensava diferente dele dizia. E rebatia. Trouxe a conversa para o jantar comigo. Trouxe os argumentos dos colegas. Conversamos. Discordamos. Concordamos. Nos ouvimos. Depois, falamos sobre comida, sobre uma festa, demos boa noite um para o outro e fomos dormir.

Por mais que acusemos os adolescentes — e é justo — de rebeldia, nessa fase da vida eles ainda conseguem se ouvir. Estão mais focados em odiar os pais do que em odiar qualquer um que pense diferente? Talvez.

Dias desses, fui  em uma reunião do colégio em que estudei na sétima série. Fui meio reticente, preparada para ficar pouco, pensando: quem serão essas pessoas que não vejo há mais de 20 anos? Um de meus colegas disse que me viu aqui no Uol e ficou impressionado em como as pessoas me xingam nos comentários. "Achei pesado", ele disse. "Posso não concordar com nada do que você diz, mas ficaria quieto, nunca diria isso com violência na internet".

Como ele me conhecia desde a infância, achou esquisito que eu pudesse ser atacada por pensar diferente dele. Nós nos víamos ainda como os adolescentes que fomos e não através dos rótulos que nossas opiniões, seja lá quais forem, nos impõe. Conversamos, bebemos e rimos. Assuntos controversos foram deixados de lado educadamente por todos, como se tivéssemos uma noite de trégua em que podíamos ter 14 anos de novo e só falar de coisas leves. Alguém citou a Folha, outro falou que jornalista era esquerdista, todos olharam para mim e riram: a palavra não fazia sentido ali, e não devia fazer sentido em muitas outras discussões, como quando o céu fica preto do nada e a gente quer saber o que aconteceu.

Quando me despedi desse colega, que a essa altura já havia voltado a ser amigo, ele disse: "vou comentar lá também". Eu perguntei se ele iria me defender dos comentários agressivos e ele disse, pra deixar claro que não concorda com nada do que eu digo: "Não, vou te xingar também". Nós rimos, porque era mentira — ele não me xingaria.

Se tivéssemos mais tempo, ou encontros com intervalos menores que 20 anos, ou menos assuntos pendentes, talvez conversássemos sobre o que não concordamos. Provavelmente ouviríamos um ao outro, ele contaria suas experiências e seus pontos, eu contaria os meus. Discordaríamos, concordaríamos, mudaríamos (ou não) a opinião um do outro argumentando. E depois encheríamos nossos copos de novo, falaríamos de outras coisas, como os adolescentes civilizados que fomos.

Se nos comportássemos assim mais vezes, talvez os dias parecessem menos escuros.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

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