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Luciana Bugni

Luciana Bugni

Quer um Brasil melhor? Veja como tirar as fake news da sua vida

Universa

10/10/2018 04h00

Foto: iStock

Eu não sei qual a sua profissão, mas você sabe a minha: sou jornalista. Talvez  seja um pouco frustrante descobrir que não sou o que você imagina do estereótipo desse tipo de trabalho, que aparece na TV, com um microfone na mão. Tampouco aquelas que vemos nos filmes: heróis que trabalham muito (até que isso, sim), têm uma vida bem bagunçada e bebem muito café (odeio essa bebida, aliás). Sinto muito. Sou jornalista, mas sou uma pessoa bem comum que levanta cedo, cuida da casa, dos filhos, enfrenta transporte público e vai ao trabalho todo dia no mesmo lugar. A única diferença do meu trabalho para outros tipos de funções é que eu ganho para não mentir. E para descobrir se outras pessoas estão mentindo e contar para todo mundo.

É sério. Sou jornalista há um pouco mais de 15 anos e minha vida profissional é basicamente resumida em uma função: falar a verdade. Até aqui nesse espaço, onde atuo como colunista e teoricamente posso falar o que me der na telha, tenho que dizer a verdade. Não posso inventar nada a respeito de fatos nunca. E mesmo que você discorde da minha opinião sobre um assunto ou outro, o que acontece em grandes conversas e nos faz crescer, pode ter certeza: não posso inventar nada porque sou jornalista.

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E eu não sou diferente da imensa maioria, para não dizer todos, os colegas de trabalho que conheci em minha carreira em jornais, revistas, televisão e sites. Os jornalistas querem contar a verdade. Eles vão ao trabalho todos os dias para isso.

Aquela ilusão de mudar o mundo

Sabe aquela ilusão que a gente tem quando é jovem, de que pode mudar o mundo? O danado do repórter carrega isso todos os dias, junto com seu bloquinho e caneta. E mudar o mundo, veja só, não é flagrar grandes escândalos de corrupção que podem derrubar um presidente. Lógico, tem também isso. Mas também muito colega fazendo o que a gente chama de buraco de rua do jornalismo: sabe aquele buraco no asfalto que está na sua rua te incomodando há meses e, quando o jornal finalmente faz uma matéria sobre o assunto, a prefeitura vai lá e resolve? Fazer matéria de buraco de rua não vai dar ao jornalista a reputação e o glamour que se imagina por aí da profissão, mas vai resolver a vida dos caras que moram ali e estão incomodados com aquela questão. É um jeito modesto de mudar o mundo. Às vezes funciona, às vezes, não. Mas nesse caminho só dizemos a verdade.

Lógico que jornalista erra. Quando jornalista erra, acontece o que não pode acontecer. As informações publicadas não são verdade. Para isso existe a errata: o mais rápido possível, o veículo que publicou o erro do jornalista em alguma matéria publica a verdade assumindo o erro. É como levantar a mão e dizer: "errei e aqui está o certo!"

A importância de checar os fatos

Estou te falando: o tempo todo a gente a fica atrás disso obcecadamente. Falar a verdade. Para não errar, checamos. Checar é basicamente ser chato: ligar uma, duas, 10 vezes para a mesma pessoa ou pessoas diferentes, ir até os lugares, ver com os próprios olhos, analisar números, dados e documentos. Até ter certeza de que estamos publicando a verdade.

Agora que você entendeu mais ou menos o que faço aqui, imagina o que eu sinto quando vejo Fake News por aí. Geralmente produzidas com interesses políticos, elas são criadas e jogadas nas redes sociais. É mais ou menos como se eu decidisse escrever aqui o que me desse na telha mesmo. Inventasse fatos que me favorecessem. Falasse que fiz o que não fiz para ficar bem na fita. E falassse que meus inimigos fazem coisas erradas, horríveis, condenáveis – mesmo que fosse mentira. Imagina o estrago que isso faz?

Não precisa imaginar muito. Todos os dias nas redes sociais somos bombardeados com notícias falsas de veículos cujo nome você nunca ouviu falar. Ou, de tanto que mentem, já ouviu falar bastante e até acha que são confiáveis. Pois é, eles estão mentindo para você. E eu, que venho trabalhar todo dia para contar para o leitor a verdade, não posso fazer nada. O universo da Fake News é tão poderoso que te diz algo que você queria mesmo que fosse verdade (que seu inimigo cometeu um crime por exemplo). E como acreditar naquilo faz com que você se sinta bem, quando você viu, já está logo compartilhando sem checar.

O jeito de não ser enganado na internet

E os jornalistas, como eu, preocupados que estavam em dizer a verdade, não deram muita bola para isso. Estamos tão acostumados a não dar bola para mentira e correr atrás da informação correta que achávamos que todos fariam o mesmo. Te falei que a gente erra… mas corrige: o UOL e todos os grandes veículos de informação criaram agências de checagem. A ideia é aquela mesma de sempre (desculpe a repetição, jornalista só pensa nisso): falar a verdade.

Para te ajudar, funciona assim: teve uma dúvida sobre algo que recebeu no Facebook ou Whatsapp? Dá uma checada se a história está aqui no Confere ou no Comprova. Outros sites confiáveis, feitos por jornalistas, também fazem a mesma coisas. Pode confiar. E quer uma dica de alguém que trabalha há muito tempo nessa área? É difícil que algo que chegou apenas no seu Whatsapp seja verdade. Se o assunto existe, deve ter um monte de jornalista atrás, doido para falar a verdade e em poucas horas vai estar na TV, rádio ou sites. Aí já fica mais fácil saber em quem acreditar.

Como eu disse no começo, não sei sua profissão. Mas se você é dentista, imagine todo mundo compartilhando uma obturação feita errado e dizendo que aquela é a certa. É engenheiro? Imagina ter que discutir com sua família que resolveu que entende mais de alicerce que você e bate o pé porque acha que os prédios devem ser feitos de um jeito mentiroso? Não posso discutir obturações, nem alicerce de prédios. Mas sou especializada em informação – seja ruim ou boa, seja de um partido ou de outro. E a informação tem apenas um fator básico para ser considerada de qualidade: ela precisa ser verdadeira.

Se a gente partir desse princípio, só dizer a verdade, e você partir de outro que é só acreditar na verdade, já teríamos alguns elementos necessários para fazer o mundo melhor. 🙂

 

 

 

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).