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Cartolouco e os brothers: é muito fácil se tornar cúmplice de um agressor

Universa

20/09/2020 15h37

Quando a gente pensa em um cara que agride mulheres, imagina a foto do elemento fichado pela polícia com cara de mau. Na prática, é bem diferente. O cara abusivo, quando não está agredindo verbal ou fisicamente pessoas frágeis, esta sendo brother de algúem. Muito brother. Sabe o cara que enche seu copo antes  de você perceber que precisava? Que marca a quadra e ainda te dá a carona depois do futebol de madrugada, num dia de semana? Então, ele pode ser abusivo com a namorada. Com você, não. Com você ele é o cara mais legal do mundo.

É claro, todo cara sabe que outros homens podem ser abusivos ou violentos. A questão é que, para os brothers, se faz vista grossa. Eles são legais demais para fazerem algo tão condenável, né? Não, não é.

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Se o homem abusivo tivesse a cara de monstro fichado pela polícia, talvez fosse um pouco mais fácil para as vítimas sair rápido da história e não entrar no ciclo da violência. O ciclo é assim: começa com um ciuminho aqui, uma falta de paciência ali. Entra numa rotina de agressões verbais. Evolui em muitas vezes para brigas extremas que podem culminar em confronto físico.

Acuada, a mulher recua. Muitas vezes esconde as marcas e hematomas dos conhecidos, por vergonha. Evita os amigos e amarga solitária a esperança de que o homem que ama mude. O homem então diz que se arrepende, leva flores, leva o chocolate, se esforça o suficiente para dar o que ela acredita ser o melhor sexo de sua vida. Essa fase é chamada de lua de mel do relacionamento abusivo, e é se agarrando nela que as mulheres ficam ainda mais presas. Ele promete que vai melhorar até o próximo ciuminho ali, falta de paciência aqui: pronto, começa tudo outra vez.

Enquanto isso, esse cara que diz barbaridades, que ofende e que machuca, trata os amigos como irmãos. É o parça que sabe tornar os momentos legais. Sabe ouvir, sabe conversar. Sabe fazer todo mundo se sentir especial. Às vezes é até famoso. Sabe ficar até depois da terceira saideira. Dá carona para sua mãe na volta da feira, leva as compras para ela lá dentro. Esse cara é legal demais! Como alguém pode dizer que um brother desses é violento?

Brother passa pano

O filme do "brother passa pano" passou todinho na minha cabeça quando li a denúncia de um amigo da faculdade de Lucas Strabko, o Cartolouco, ex-repórter da Globo e atual participante de A Fazenda, da Record. Lucas havia agredido a namorada e é confrontado. O amigo fala que não vai tolerar mais essa amizade e Lucas tenta se defender dizendo que isso o machuca muito. O amigo segue acusando: "Já tratava ela mal pra caral** e a gente fazia vista grossa, até te protegia quando as minas dos nossos amigos ficavam te enchendo o saco".

Fazer vista grossa é um clássico da relação entre homens. Quem é violento não consegue atuar o tempo todo. Sempre escapa uma grosseria ali que constrange todo mundo no churrasco. As mulheres, "minas dos amigos" ficam "enchendo o saco". Os caras protegem. Sempre foi assim. Até algum deles ter a coragem de romper com esse ciclo e dizer: "Se não não é capaz de ser decente com aquela mulher que nem conheço, não serve para ser meu amigo".

É muito fácil cair nessa cilada. Amigos homens são tradicionalmente leais. Bros before hos, diz o ditado gringo (a tradução da expressão machista é "amigos antes das vadias"). Como alguém teve coragem de denunciar o repórter esportivo legalzão? Ele só agrediu algumas namoradas, devia estar nervoso e…

Não é falta de sensibilidade. Eles podem até ouvir as amigas agredidas, lamentar o fato e trocer para que elas realmente superem a relação tóxica. Mas na próxima segunda-feira estão lá na quadra de society, depois vem uma cerveja e… esse brother é legal demais mesmo.

O assunto é desconfortável porque todo homem já passou por alguma situação parecida de acobertar abusos e traições de seus amigos. De protegê-lo dos comentários das outras namoradas.

Estou dizendo que as mulheres são santas? Não. Estou dizendo que transformar uma sociedade machista depende muitas vezes do desconforto que dá em escancarar a violência dos caras "legais" que nos cercam.

Por que, caso não esteja bem claro, não dá para ser legal e violento ao mesmo tempo.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo”, na “Contigo!” e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso para atravessar a era digital com um pouco menos de drama. Sororidade e respeito ao próximo caem bem pra todo mundo.