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Luciana Bugni

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2019 e o brasileiro ainda tem medo de usar rosa no futebol masculino

Universa

03/10/2019 04h00

 

Antes de brigar com o Neymaer no PSG, Cavani jogava de rosa – e daí? (Reprodução/ Instagram)

Ao andar pelas ruas de Palermo, a charmosa capital da Sicília (uma ilha cheia de praias lindas ao sul da Itália), o que mais se vê são homens de rosa. Nenhum protesto, nenhuma demonstração clara dessa ou daquela orientação sexual. Já no avião, dá para notar que esses homens de rosa são apenas uns caras que gostam de futebol — o que mais se vê, aliás, na Itália. E vestem a camisa de seu time, o Palermo, uma das mais bonitas do mundo, na modesta opinião dessa blogueira.

Homem de rosa, em Palermo, não é tabu. Jogadores usam essa cor há mais de 100 anos. Só deixa claro uma preferência futebolística. Tem um monte de time pelo mundo, aliás, que ostenta o rosa sem dar margem ao preconceito. É o caso do Sport Boys, do Peru. Quando vieram jogar no Brasil, no começo desse século, acredite: a notícia foi que homens estavam usando rosa no gramado. Que escândalo, hein.  Imagine que jogadores vieram disputar um campeonato importante usando… roupas! A equipe nem ligou: até o apelido do time é Los Rosados.

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O Corinthian-Casuals, fruto do clube cujo nome inspirou o do Corinthians que você conhece, é um time amador das profundezas da subdivisões inglesas. Eles usam rosa desde 1939, segundo meu colega e autor do Guia dos Curiosos, Marcelo Duarte. E tudo bem.

Mas aqui no Brasil, mesmo que o tema seja nobre como uma campanha para colocar holofotes sobre o Outubro Rosa (que alerta sobre o autoexame e buscar prevenir o câncer de mama), rola uma trava quando o assunto é uniforme rosa. A Adidas até aderiu esse ano: Flamengo e São Paulo tem camisas novas, bem lindas e rosa, mas só para mulheres. O uniforme masculino continua bem tradicional, obrigada.

Em 2010, o Atlético MG tentou ousar. O resultado é que os cruzeirenses, seu principais rivais, zoaram tanto que a camisa acabou não pegando. O primeiro lote, entretanto, esgotou no primeiro dia de vendas. E até hoje você vê uma ou outra mulher com a cor no estádio. O presidente do Cruzeiro, José Perrela, tirou sarro na época. O do Atlético, usando na entrevista uma elegante camisa social rosa, respondeu: "A camisa rosa tem um detalhe: é só para quem é bem resolvido". Dava a entender, portanto, que quem não usava teria problemas com a própria orientação sexual. Como se ter outra orientação sexual que não hétero fosse uma questão. No futebol ainda é.

Não à toa, os brasileiros evitam jogar com a camisa número 24, que corresponde ao veado no jogo do bicho. Pensando bem, é à toa, sim. Por que tem que ser tabu uma coisa dessas? Parece coisa de escola.

Em 2013, o Boca Júniors também tentou entrar em campo com rosa. A camisa foi vetada pela AFA (Associação de Futebol Argentina) sob pena de multa. Explicação? Nenhuma. Parece que é só preconceito mesmo.

Pois bem, daqui de 2019, até escuto um outro torcedor reclamar que não tem modelo masculino rosinha — e que se tivesse, eles comprariam. Que bom, meninos, vocês ficam bem bonitos assim.

O resto continua se comportando como a turminha da quinta série nos anos 90, como se o rapaz que joga bola vestido com essa cor tivesse saído de casa com a camisola da mamãe. Uma pena.

Ia ser legal transformar isso aqui numa grande Palermo. Ô cidade boa de se olhar.

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FT: Palermo-Cittadella 2-2

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

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