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Luciana Bugni

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Assediador é expulso de A Fazenda, mas o que fica é sensação de impotência

Universa

30/09/2019 12h03

(Reprodução/ Record)

Na noite desse domingo (29), o apresentador Marcos Mion anunciou a decisão do departamento jurídico da Record: Phellipe Haagensen foi expulso de A Fazenda. O veredito é acertado: Phellipe discutiu com outra integrante do programa, Hariany, na sala da casa, na sexta (27). Os dois gesticularam e bateram boca. Num momento em que ficam próximos, ele deu um selinho nela — que claramente não estava interessada nisso, tem até namorado e estava bem exaltada. Alguém que estava ao lado disse que ele vai pagar por isso. Ele riu e fez chacota, mandando ela denunciar, se quiser. Posteriormente, ele ainda tentou agarrá-la. 

É um alívio para mulheres ver que um assediador pagou pelo que fez. Mas o que ficou em quem acompanhou a história nos últimos dois dias foi uma sensação de impotência. Por que a TV demorou 48 horas para divulgar a expulsão? E mais: criou mistério em torno no tema, fez que o assédio virasse entretenimento, e postergou ao máximo o momento do anúncio. A reposta é simples: para dar audiência.

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A Oi, patrocinadora do evento, foi cobrada em relação a um posicionamento. Se pronunciou dizendo que repudia condutas que configuram crime ou ofensas às mulheres. Disseram também que cobraram da emissora um posicionamento. A família de Hariany se pronunciou, dizendo que o episódio fere sua dignidade sexual. Uma campanha na internet pediu a expulsão de Phellipe. Essa hashtag era a mais citada no twitter no sábado (28) pela manhã.

Marcos Mion também foi cobrado. Ele disse que só anunciaria a decisão de sua empresa no domingo mesmo. "Não adianta me cobrar uma atitude ou decisão do que deveria ou vai acontecer no programa. Como falei no áudio que a direção me pediu para gravar: a decisão da emissora, dona do programa, será anunciada, por mim, no programa de amanhã. E eu ainda não sei qual é", disse lavando as mãos

E completou: "A minha opinião pessoal sobre o ocorrido é muito óbvia para qualquer um que me segue, mas ela não cabe e não interessa ao programa". Eu adoro o Mion desde os tempos da MTV, acho a postura dele corretíssima na maior parte das vezes. Mas sou obrigada a discordar: sua opinião pessoal interessa, sim. Não só ao programa, como à moça que foi assediada, às outras moças que estavam presas em uma casa com um assediador, às outras moças que estão aqui fora temendo assédios diariamente. A gente quer que Mion, com o alcance que ele tem, diga que isso é errado. Se revolte. Ler um comunicado no ar dois dias depois não tem, infelizmente o mesmo efeito. 

Mion deveria falar, no calor do momento do assédio,  algo que eu sei muito bem e você, meu leitor, também deve saber: homens não devem beijar mulheres sem consentimento. Muito menos justificar dizendo que "ela queria beijar, mas não tinha coragem". Nem todo mundo, entretanto, sabe disso. O próprio Phellipe parece não saber (se ele queria ser expulso poderia arrumar um jeito que não violentasse ninguém). Tem muita gente lá fora, vendo A Fazenda, que não vê problema na atitude do peão. Passa um pano, fala que foi brincadeira, que mulher exagera.

É papel da TV, da direção e do próprio apresentador entender que a violência não pode ser capitalizada. Lógico, devemos falar disso. Mas não tratar como entretenimento.

Essa demora de 24 horas funcionou: a Record ganhou audiência. Mulheres como eu conhecem situações desse tipo: o cara se acha no direito de fazer o que quiser com seu corpo, as pessoas ao redor se colocam numa posição de "deixa disso", "não foi bem assim", "estava pedindo" etc. Quanto mais falarmos disso e mais rápido punirmos os assediadores, melhor. Ganham as mulheres e perde a violência. Parece fácil escolher um lado nessa equação.

Phellipe Haagensen é expulso após beijo forçado em Hariany

UOL Entretenimento

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

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