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Luciana Bugni

Luciana Bugni

Por que é tão difícil dar o braço a torcer no Brasil de 2019?

Universa

29/08/2019 04h00

 

 

Dá para levantar esse braço e dar a torcer, com bandeira e tudo? (iStock)

Se tem uma coisa difícil é dar o braço a torcer. Como é complicado, no meio de uma briga que tomou proporções absurdas depois de todo mundo ter tomado umas cervejas a mais, falar: eu estou errado. "Ih, gente, acabei de refletir e me dar conta aqui, nada a ver o que eu estava dizendo, foi mal". Ou, naquele dia empolgado em que você saiu dizendo para todo mundo no escritório que tal time ia passar para a semi da Libertadores e… bem, deixa para lá.

Às vezes erramos com o par, no casamento. Às vezes  com os filhos (aí é complicado confessar, tira a autoridade e tal, mas é importante para mostrar honestidade). Às vezes é com o chefe — que vexame. Se o bate boca for por causa de resultado no futebol de 10 anos atrás, ou quem era o par romântico de Nuno Leal maia em A Gata Comeu, beleza. É só conectar o wi-fi mais próximo e esclarecer via Google. Mas há discussões em que a resposta não está pronta no site de buscas. Aí entra aquele velho papo de se informar, de procurar conversar com pessoas que pensam diferente e checar o tempo todo se você pode estar errado. Isso é se aprimorar. Crescer. Ser uma pessoa melhor.

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O legal de se informar é perceber que é possível dar o braço a torcer. Nada daquilo que eu achava que era é como eu achava que era. E tudo bem. A gente pode aceitar que estava errado. Falar para os outros que estava errado. Até pedir desculpas, olha que maravilha. Acontece de festejar a morte de um familiar de alguém que você odeia num grupo de Whatsapp de amigos? Acho esquisitíssimo e cruel, mas, pelo que está nos noticiários, acontece. Mas vale parar, pensar, dar o braço a torcer e pedir desculpas. Digno (mas continua sendo bem maldoso).

Aconteceu de você votar em alguém que ofende mulheres mais velhas com piadas jocosas? Acontece. Mas nem por isso você precisa defender as piadas que ofenderiam, sei lá, sua própria mãe. Você faria aquilo? Você diria aquilo para o gerente de uma outra empresa: "Minha mulher é mais gata que a sua, ela humilha". Vixe, não tem cabimento. Dá até aquela ruborizadinha de pensar. Então não dá para defender.

Aliás, esse é o grande lance da democracia: você pode votar em quem você quiser e, caso seu candidato seja eleito, continuar analisando tudo com os olhos críticos que olharia caso o adversário tivesse ganho. Não é um jogo de futebol em que só quem votou torce para dar certo. É um país em que todo mundo se une — quem votou e quem não votou — e torce para dar certo. E critica também, sem problema nenhum. Até porque, olha que maravilha é a democracia: caso você realmente se arrependa ou se decepcione com seu candidato, seja qual for o candidato, basta votar em outra pessoa na próxima eleição.

Seu candidato não é o clube de futebol do qual você tem muitas camisas caras e muita paixão no armário. Não dá para simplesmente trocar de time só porque ele está indo mal, mas de candidato até que dá, depois que acabar o "campeonato", que a gente chama na democracia de mandato. No estádio, a torcida não gosta muito que critique o jogo inteiro. Na política, caso mereça, está liberado. É só se informar e mandar ver. Democracia é bom demais.

Seu candidato, mesmo se eleito, é um cara que se propôs a te representar perante o mundo. E mesmo que seu Facebook esteja repleto de mensagens de apoio à ele, afinal, torcer pelo presidente é torcer pelo seu país, você pode mudar de ideia. E cobrá-lo.

Ninguém vai reparar. E, talvez, você tire um peso das costas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

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