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Luciana Bugni

Luciana Bugni

Devia ter crescido: quando o Menino Ney vai se dar conta que já é um homem?

Luciana Bugni

26/06/2018 18h00

Levanta daí, moleque (Foto: Lee Smith/ Reuters)

Uma professora de crianças estava contando como foi ver o jogo do Brasil x Costa Rica com a meninada, na escola. Ela disse que quando aparece o rosto do Neymar na TV, os alunos de 5 ou 6 anos já começam a gritar, vibrar, aplaudir. "Coutinho marcou, eles comemoram. Mas quando o Neymar fez o gol… as crianças CHORARAM", ela disse impressionada.

Pois é: enquanto você e seus amigos estão detonando o cara que qualquer ventinho derruba na área ou fora dela, tem uma fila de moleques no cabeleireiro copiando qualquer corte que ele faça. Essa criançada idolatra o camisa 10, queria ser parça dele e tem "tudo passa" como um mantra: "a gente pode errar sim, depois passa, é tóis". Se nós, adultos, olhamos de canto de olho com um "ih, gente" quando Neymar apronta suas presepadas em campo, a criançada apenas copia o que ele faz. Mas o ídolo é digno dessa deusificação?

"Neymar é o menino que se atira no chão do supermercado quando os pais dizem que não vão comprar o iogurte porque está caro. A maioria das crianças supera essa fase. Mas Neymar parece estacionado nessa cena constrangedora, e ainda ganha milhões pra fazer esse papelão", disse a pedagoga Illenia Negrin, que citei no primeiro parágrafo. Não é que faz sentido? Esperneando dentro de campo, seu escritório, o atacante perpetua a alcunha de Menino Ney. Mas ele tem 26 anos, poxa. Você deitava no chão do mercado chorando por uma caixa de Bis com essa idade?

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Imagina você chefe: se seu funcionário fosse apenas um homem comum de 26 anos gritando o tempo todo que os colegas não passam relatórios para ele, centralizando as tarefas e não entregando nada, falando palavrões poliglotas quando os concorrentes tentam lhe passar a perna, chorando (ou tentando chorar) que está difícil mostrar seu talento… o que você faria com esse profissional? Em vários exemplos de gestão, sabemos a resposta – por mais genial que seja, é só começar a dar trabalho na empresa ou agir só por si e não pela equipe que a pessoa toma uma chamada, é criticada e até demitida. Com Menino Ney é outra coisa: paparicado pela mídia, família e parças, os críticos são calados, às vezes na marra.

Imagina a barra? Neymar não tem aquele parça firmeza que chega nele e diz a real. Sabe como é? "Olha, brother, você está viajando nisso, nisso e nisso e eu vou te ajudar a mudar. Estou falando porque sou seu amigo." Os parças de Neymar declaram guerra aos críticos e mandam prints para o amigo comprovando sua fidelidade. O Menino Ney, inflamado pelo próprio talento e pelo olhar de punição do mundo inteiro, se rebela. Nas redes sociais (sempre elas), fala, fala mais e contesta Deus, o Diabo e até Galvão Bueno.

Fosse só o Galvão Bueno, estava moleza. Mas imagina perfis oficiais e anônimos do mundo inteiro (até o Cantona, que vive de internet hoje em dia, alfinetou) criticando? Só na minha bolha de jornalistas o negócio foi quente: Lucas Sposito disse que estava animado para torcer para ele, porque "a temporada esquecido no Campeonato Francês me fez esquecer o quanto ele é mala". Ele garante que bastaram dois jogos para desanimar. Diego Olivares me confessou por e-mail, um ou dois dias antes da Copa: "Acho que estou me convertendo ao Neymarzismo". Um dia depois da partida contra a Costa Rica, me disse desanimado: "Não dá para ser devoto desse cara, não". Rodrigo Rodrigues falou que estava se segurando para não falar do menino Ney. Ele, eu e vários outros jornalistas amarramos as mãos (aqui se vê, fracassei) para não dar pitaco. Tem gente demais falando nele mesmo. Por quê? Porque ele é o Neymar, pô.

Deve ser uma pressão danada, mesmo. Ser uma promessa desde a infância, ter que ser o melhor do mundo no que você faz em algum momento… E mais: será que ele é obrigado a ser exemplo para a meninada? Sou moça antiga e acho que todo adulto deve se comportar bem na frente de criança, afinal exemplo é coisa séria. Quando estiver na festa, com seus amigos, de porta fechada, faz o que quiser. Mas enquanto tiver criança na sala, segura sua onda. Para o azar do Neymar, no trabalho dele tem criança na sala. Na festa com os amigos também. No restaurante com a namorada, idem. Estão todos ali sentadinhos, assistindo TV, olhos fixos nas redes sociais. Está todo mundo te olhando, cara. Levanta daí. Ninguém vai comprar esse sorvete para você. Não dá para reclamar disso mais: é preciso levantar, pegar, pagar no caixa e aí sim, na rua abrir o picolé e se lambuzar. Seja o menino no drible, na malandragem coreografada em campo, no sorriso, na ousadia. A época do chilique já passou. No fundo, é só isso que a gente quer: ver você se lambuzar como o adulto que você é.

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).