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Luciana Bugni

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Meninas não podem usar shorts na escola porque "meninos não se controlam"

Universa

02/06/2019 04h00

Por que a menina tem que controlar atitudes violentas dos caras? (Foto: iStock)

Em 1990, eu não tinha a menor ideia de que a culpa não era minha. Estava abaixava na mesa de uma colega, tentando fazer algum exercício de educação artística, matemática ou seja lá o que fosse, quando senti a mão de outro colega no meu corpo. Uma vez só, firme — ele só retirou a mão quando me virei assustada. Um momento que deve ter durado menos de um segundo.

Tem quase 30 anos, mas eu lembro exatamente do incômodo e do mal-estar. Olhei assustada para trás, o menino me retribuiu o olhar rindo, como quem diz: "você estava aí com essa bunda empinada, queria que eu fizesse o quê?". Eu abaixei a cabeça envergonhada.

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Aquilo aconteceu mais umas duas vezes até que uma das meninas, que certamente não eu, foi reclamar para a professora. Algo deve ter sido dito e nunca mais tivemos o problema na sala.  Tínhamos 8 anos e estudávamos em uma escola estadual. Outras muitas vezes me lembrei dessa situação, por muitos anos, ao escolher uniformes mais largos ou evitar parar distraída apoiada na carteira de amigos.

Eu tinha muito claro que a culpa pelo comportamento que me incomodava nos meninos era minha.

Hoje, vendo a manifestação das alunas de um colégio — a história viralizou no Twitter — voltei novamente à cena. Uma garota foi impedida de entrar na escola de shorts (as amigas disseram que ela estava com o joelho machucado, por isso não estava de calça). A desculpa das funcionárias, segundo as próprias alunas, era a mesma de 30, 40, 50 anos atrás: os meninos não se controlam.

Hoje, com muito mais informação do que eu na década de 90, elas organizaram um "desfile" no corredor da escola em que as garotas, vestidas com a roupa que quisessem, eram aplaudidas pelas amigas.

Imagina o impacto disso na cabeça da jovem garota que cresce sabendo que pode se vestir com a roupa que quiser. A culpa não é delas. E o impacto também — quero acreditar — que isso causa na cabeça de seus colegas.

Talvez o meu colega da 2ª série do Ciclo Básico, como era chamado o Fundamental à época, não tenha tido oportunidade de refletir nunca que não devia atochar a mão nas meninas porque o uniforme era de helanca.

Talvez ele fizesse isso mesmo que nós estivéssemos de burca.

Mas o que é legal de verdade é que em pleno 2019, os filhos dele — e os meus também — têm informação suficiente para saber que são eles que devem, sim, controlar seus impulsos sexuais. Nós, adultos, como pais e educadores, temos obrigação de cortar a propagação dessa máxima de que os homens são seres tarados por natureza e devemos poupá-los do desejo para que se comportem.

As meninas do colégio já perceberam isso. E você?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

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