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Luciana Bugni

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Tiago Iorc nunca sumiu: ou quem não posta não existe?

Universa

08/05/2019 12h08

No clipe de Deitada Nessa Cama — parece estar tudo bem com ele, gente (Reprodução)

Tiago Iorc nunca sumiu. Sumir é desaparecer, deixar a família procurando, correr perigo. Podem dramatizar o quanto quiserem, mas Tiago Iorc estava de boa trabalhando. Ele só parou de postar, coisa que ninguém fazia mesmo 15 anos atrás. E parou também de dar entrevista, atividade que a maioria das pessoas normais nunca fez. Sem dramas.

Mas desde que seu "sumiço" acabou com um álbum novo, no domingo (5), o que não faltou na internet foi meme fazendo piada do ocorrido. Levanta aquela velha lebre: quem não posta, não existe? É justamente a discussão que o cantor propõe em alguns versos de "Desconstrução". "Abrir os olhos não lhe satisfez, entrou no escuro de seu celular, correu pro espelho pra se maquiar", diz um verso. Quem se identifica?

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O último post de Tiago, feito em janeiro de 2018, diz que ele iria se ausentar "dessa nossa vida instagrâmica que nos consome e me permitir viver sem calular tanto". Não li nenhuma mentira. O Instagram consome mesmo.

Tem gente que fica mal com a quantidade de curtidas, como as pesquisas comprovam. Tem influencer que fica doente, como o Whindersson Nunes. Quando o Instagram é trabalho, suga demais viver nessa plataforma de egos lidando com uma maneira de aparecer mais que o outro. Ou, como disse Tiago, "seguindo o bando a deslizar a mão para assegurar uma curtida".

Hoje, enquanto vinha para o trabalho, pensando nesse texto, me propus a ignorar as mensagens que chegavam no celular e ouvir o disco que ele produziu nesse período. Durou umas três músicas, mas me deu uma inveja danada de Tiago. Só de me propor a fazer esse exercício, de realizar apenas uma atividade por vez — na verdade, duas: ir para o trabalho e ouvir música — eu me senti melhor.

Comecei esse blog aqui em Universa falando desse assunto, há quase dois anos. De lá para cá, está nítido: piorei muito. Tenho me forçado a postar em situações em que antes nem me lembrava do celular. Por vezes chego acreditar, ilusoriamente, que é um jeito de ficar perto das pessoas de quem eu gosto. E que faz com que as pessoas que não conheço cheguem aos meus textos — afinal, se eu não for lida, meu trabalho deixa de fazer sentido.

Mas Tiago não postou loucamente enquanto fazia o disco e olha só, justamente por isso, eu estou aqui ouvindo as músicas. O álbum entrou no Top50 do Spotify mundial, tamanho o barulho que sua ausência fez. Os tempos atuais podem ser bem contraditórios.

Eu, daqui desses mundo de  posts, sinto mesmo é falta de olhar no olho da minha amiga Miriam e me ouvi-la contar, como ela fez no Instagram hoje,  como explicou o que era o Abaporu de Tarsila para o filho, de 6 anos (ou será que o Lucas já fez 7?). Sinto falta de conversar sobre tudo isso com a Virginia, a quem vejo uma vez por mês, com muito esforço, e tentamos dar conta dos assuntos diários pendentes — no sofá da casa dela, sem sapatos. Queria conseguir mostrar esse texto para o Diego antes de publicar, como eu fazia antigamente.

Essa semana, a Ângela me procurou: não a vejo desde que meu filho nasceu. Ela tentou explicar o sumiço, eu tentei entender. Vamos almoçar juntas daqui a pouco e falar, frente a frente, da inveja que sentimos de quem, como Tiago Iorc, se dá tempo e "sai de cena para se aliviar".

No fundo, essa batalha louca de egos é só solidão e carência. Se você também está incomodado com isso, obedece a música e "desliga essa doidera". O mundo está ali fora. Um pouco nublado, é verdade. Mas está.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

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