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Rehab urgente: como é que se livra do vício em Instagram Stories?

Luciana Bugni

05/12/2017 08h00

Não dá vontade de passar o dia clicando nas carinhas deles? (Foto: Reprodução)

 

Eu até vejo a cena. Uma sala com cadeiras em semicírculo e chega a minha vez de falar: "Oi, eu sou a Luciana e sou viciada em Instagram Stories". "Oi, Luciana", dizem os meus companheiros uníssono. E eu começo contar minha história. 

Tem pessoas que têm propensão ao vício. Outras podem experimentar as maiores calamidades que saem ilesas. Eu sou do primeiro grupo. Foi assim com Tetris no Game Boy preto e branco dos anos 90 (eu via as peças caindo na vida real e as encaixava com maestria). Foi assim com o cigarro, que ousei tentar aos 13 anos e levei quase 20 pra me livrar. Foi essa percepção que me impediu de experimentar (quase) todas as drogas que já me foram oferecidas. Eu não posso me dar o luxo. É isso que me impede de dar um gole de vinho todo dia às 10h da manhã pra fazer o almoço e encarar o dia com mais leveza (ter vontade não configura vício, mas também não é coisa de gente decente). Até 2013, eu estava negando o próprio smartphone em si, usando um celular analógico e mandando SMS para me proteger. Segurei o quanto deu. Mas ninguém me alertou quanto ao Instagram Stories. Quando eu percebi já estava assim: batendo o polegar no lado direito da tela freneticamente ad infinitum, tentando zerar as novidades de algo que nunca vai acabar. Meus dedos estão esfolados. Eu preciso de ajuda.

O princípio, que foi criado no Snapchat, é genial por essência: você precisa clicar ali porque em 24h o conteúdo some e, se você não tiver clicado, nunca saberá o que foi postado. Importado para o Instagram, ele é basicamente idêntico, mas com adultos postando, o que o torna mais interessante (pra mim). E o pior é que eu ainda tenho a desculpa do trabalho. Preciso entender como essas coisas funcionam para não ficar para trás e implementar na revista AnaMaria. É mais ou menos como aquele sommelier alcoólatra de David Schwimmer na série "Feed The Beast" — eu tenho a desculpa perfeita. 

Para não parecer que o interesse era pessoal, criei primeiro um Instagram para a minha gata, que tem um hipopótamo de pelúcia com o qual circula para cima e para baixo aqui em casa. "Vai que eu aprendo a fazer e alguma empresa de ração ou areia me patrocina?", era minha desculpinha esfarrapada pra postar. Enchi a timeline de gatos, segui gateiros de todos os idiomas possíveis e passava o dia rindo para a tela do celular ao ver travessuras com novelos, caixas, pepinos e até humanos com seus bichinhos ao redor do mundo. Enquanto isso, minha pilha de livros lá, por ler. Mia, a minha gata, não decolou no mundo digital mais por incompetência minha do que por falta de charme dela e do hipo. Até que meu marido me perguntou: "por que você não cria um Instagram para você?" "Eu não gosto dessas coisas", tive a pachorra de responder. Ele perguntou se era a mim mesma que eu estava tentando enganar. E era. 

Desde então, perdi a compostura. Segui todos os veículos de comunicação que eu pude para disfarçar minha compulsão e agora chamo meu vício de trabalho. Mas o que eu quero mesmo ver… ah, minha gente, são os bares que minha turma vai, os filhos fofos das minhas amigas, as dicas culturais do pessoal, o batom das blogueirinhas, a comida que a galera está fazendo ou pedindo nos restaurantes sensacionais onde estão. Eu quero ver perfeição. O Stories só me dá isso o dia inteiro. Que coisa genial. Um lugar onde você pode inflar seu ego livremente sem aquela maldição das lembranças do Facebook para te fazer passar vergonha. Amanhã, já era. Cabô. Ninguém vai lembrar. Nenhum dos meus 12 seguidores vai se dar o trabalho de guardar a print. Uau. 

É por isso que eu me vejo nessa sala, cadeiras em semicírculo, contando minha história. Olha, eu até larguei o cigarro. Mas largar Instagram Stories eu acho bem difícil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

Luciana Bugni