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Será que estamos fazendo coisas demais ao mesmo tempo?

Luciana Bugni

31/08/2017 08h00

tá facil, viu (Imagem: Istock)

Deixa eu adivinhar: você está lendo esse texto enquanto faz pelo menos outras três coisas. Pode ser esperando o ônibus, fumando, enquanto ouve nos fones de ouvido o jogo do seu time. Pode ser esperando a água ferver, assistindo o jornal das 20h na TV, enquanto responde ao seu marido onde está aquela camisa xadrez azul marinho. Pode ser esperando a comida no restaurante, roendo unhas, enquanto finge prestar atenção na história do fim de semana de um colega de trabalho chato que se enfiou no seu almoço. Eu estou escrevendo, comendo um sanduíche, assoando o nariz e falando com minha mãe por mensagem. E mesmo que, milagre, você esteja apenas lendo esse texto, aposto que você está pensando em pelo menos 27 outras coisas. Condomínio venceu. Será que agora dá para alguém alcançar o Corinthians? Sapato está apertado na joanete. Precisa marcar reposição no pilates. Se não começasse tão tarde, iria jogar bola com os caras na segunda. Não vale a pena consertar a impressora. Esse hotel que a fulana escolheu vai sair caro demais no réveillon. Não posso mais falar palavrão na frente das crianças.

Em quantas abas você opera? Não sei muito bem como se deu esse cérebro que lida com o maior número de frentes possíveis ao mesmo tempo. Quando eu percebi, já estava assim. Foi em algum momento entre o dia em que o antigo MSN virou ferramenta de trabalho e o dia em que tinha uma galera que só podia abrir o Gmail no escritório e as janelas começaram piscar em laranja. Foi quando deixar de responder um e-mail que caiu no Outlook, por mais que estivesse imerso em cálculos, concentradíssimo, começou a pegar muito mal. Eu não sei se foi antes ou depois do Orkut, só sei que a última vez que a gente se deu ao luxo de fazer uma coisa de cada vez foi há muito tempo. Peraí, preciso responder minha mãe aqui. "O nome dela é Beatriz. Ela está esperando você ligar. Boa sorte". Pronto.

O que a gente não percebeu ao entrar nessa roda viva é que não consegue sair. Tente se concentrar em uma coisa só agora. Pode ser esse texto. Tente evitar que sua mente vá para outro lugar e fique só aqui comigo. Peraí de novo, minha mãe respondeu. "Tá. Fiz carne louca. Congelo p/vc?" Ai, que delícia, carne louca, vou pegar no fim de semana. "Opaaa, sábado é noiz". Mas sábado tem a festinha do filho da Fernanda e… Enfim, fica aqui, só comigo. Não se distrai com nada. Você consegue?

Diga sinceramente: quando foi a última vez que você fez só uma coisa de cada vez? Que seja beber com os amigos, celular na bolsa por duas horas sem checar nada. Que seja viajar sem postar localizações (muito menos checar as curtidas de cabeça baixa enquanto a viagem acontece fora de seu celular). Que seja sexo, gente. Sem pensar que precisa pintar o cabelo ou levar o carro na revisão (ué, acontece).

Outro dia me peguei fazendo massagem no meu filho, que é um bebê, com uma mão só e… respondendo uma amiga com a outra. Meu filho peladinho, me olhando curioso e eu lá: "Estarei em SP, sim. Quer ficar em casa?" Não, ela não estava chegando em São Paulo nos próximos sete minutos. Ela ia chegar em dois meses! Meu filho esperando o teórico momento em que estaríamos em total sintonia, olho no olho, música suave e eu resolvi responder a urgentíssima questão de que estarei em casa daqui a dois meses e posso hospedar minha amiga. Sim, é o fundo do poço. Não, ela nem queria ficar em casa, a empresa vai pagar um hotel. Eu sou um desastre.

Aí, nesse pique louco de criar crianças, cuidar da casa, ler um livro de 700 páginas, escrever, assistir séries novas, cozinhar algo muito gostoso e planejar um programa legal pra todo mundo no feriado, eu percebi que está demais. Eu preciso desacelerar.

Copiei numa folha de sulfite com canetinha os quatro passos da meditação mindfullness, febre entre os moderninhos. É só focar, eu pensei determinada. Deveria fazer a saudação ao sol de manhã, parar durante o dia para checar a respiração, fazer um escaneamento do corpo para perceber dores e terminar o dia com meditação guiada no app, que durava apenas três minutos. Eu tenho três minutos. Você tem três minutos? Todo mundo tem três minutos. Uns 20 dias depois da resolução, fiz saudação ao sol uma vez (doeu a lombar), cheguei a baixar o app e nunca mais fiz nada por que eu estou muito ocupada fazendo todo o resto.

Foi quando me dei conta de que eu não tenho nem três minutos, que me liguei que para meditar é preciso menos que isso. A gente está tão, mas tão sem foco, que basta fazer uma coisa de cada vez. Juro. Se você leu esse texto até agora sem mudar de tela, já deu os primeiros passos. Depois, quando levantar e for cuidar da próxima atividade, uma coisa de cada vez. Ao caminhar, apenas caminhe. Um pé depois do outro, calcanhar que toca no chão. Viu? Uia. Ao conversar com um amigo, apenas converse, ouça o que ele diz, faça pausas, pense antes de responder. Nossa. Se é o caso de amar, então, não devia ter nada mais importante pra fazer enquanto isso, né? Ao esperar o ônibus, apenas respire. Um, dois, três. Olha lá, é possível e é gostoso. E dizem que faz a gente viver melhor.

Mas eu sei, eu sei. É foda. Droga, prometi que não ia mais falar palavrão na frente das crianças!

 

PS: O bebê está chorando no meu colo, estou no hall do apartamento com uma sacola pesada de compras tentando enfiar a chave na fechadura e com MUITA vontade de ir ao banheiro. A sacola arrebenta: tem macarrão, um pão de forma, uma garrafa de mate e um saco de arroz no chão. Toca o telefone. "Oi, Luciana, tá tranquila?" A chave entra na fechadura finalmente, o bebê ainda chora, as compras no chão, talvez eu faça xixi na calça. "Tô, sim, claro, pode falar." "Você gostaria de fazer um blog no Uol?" "Opa, quando eu começo?".

quem precisa de cenários bucólicos pra meditar?

Sobre a autora

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo”, na “Contigo!” e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso para atravessar a era digital com um pouco menos de drama. Sororidade e respeito ao próximo caem bem pra todo mundo.

Luciana Bugni