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Luciana Bugni

Meninos, ser "irreverente" não é desculpa para ofender mulheres

Universa

28/03/2019 04h00

(Reprodução)

Humor é um negócio delicado que vem passando por uma transformação enorme nos últimos anos. Se antes era legal fazer piadas que diminuiam mulheres, negros, gordos, nordestinos, gays ou qualquer pessoa que estivesse fora de um certo "padrão" da sociedade, hoje não é mais assim.

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Como toda mudança, dá trabalho. Muita gente não entende porque não é legal falar determinadas coisas, se antes era legalize. Aí a galera fala frases que você deve conhecer bem:

  • o mundo está chato
  • isso é mimimi
  • hoje não se pode falar mais nada
  • passei por isso e estou vivo
  • agora tudo é bullying
  • tenho um amigo negro (gay, gordo) que não se ofende

Se identificou com alguma delas? Pois é, o pessoal tem falado isso mesmo. Mas se ofendeu alguém, qualquer pessoa, mesmo que seja uma pessoinha só no mundo… não pode ser engraçado.

Eu sei, parece radical demais. Mas sabe aquela piada que seus amigos do futebol fazem que te incomoda um pouquinho? Que quanto mais te irritam, mais engraçado fica? Que a saída é fingir que não faz diferença para ver se perde a graça? Mas que seria muito bom, muito bom mesmo, se eles parassem?

Então, agora imagina isso com negros, por exemplo. Seus antepassados foram escravizados. Eles vivem preconceito todo dia. Mesmo que você tenha uma colega de trabalho que não se incomoda com o apelido de Negresco ou Macaco, por exemplo, ele não é o aval para ofender outras pessoas, certo? E o fato de chamar alguém que não se incomoda assim ofende outras pessoas que se incomodam, mesmo que você não esteja falando diretamente para elas.

Vou tentar explicar melhor: não importa se tem um que não liga. A maioria liga e não é legal fazer essa piada com esse um, em respeito à maioria. Ficou claro?

O mesmo vale, veja só, para mulheres. Nessa semana, o desembargador do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) Jaime Machado Júnior gravou um vídeo em que aparece ao lado do cantor Leonardo. Ele gravou para outras colegas, magistradas, que provavelmente são fãs do cantor. 

No fim da mensagem em que apresenta Lenardo, com desenvoltura, ele diz que vai "comer" as colegas. Depois tenta se corrigir, já que até Leonardo, que é o maior desbocado da música sertaneja, fica constrangido. E piora: "Ele segura e eu como".

 

Putz, Jaime. Sua frase é uma apologia ao estupro. Se um colega de trabalho meu disser que alguém vai me segurar para outra pessoa me comer, eu vou denunciar. Isso seria estupro. Qualquer mulher que eu conheço ficaria ofendida com uma afirmação dessas. Sabe por quê? Porque dá a entender que eu não tenho escolha sobre quem vai transar comigo. Você fala como se as suas amigas estivessem só esperando a sua decisão e fossem obrigadas a fazer sexo com você.

Muitas mulheres viveram violências assim. Só de ouvir a frase, elas lembram que isso aconteceu com elas. Cara, isso não pode ser piada.

Jaime parece ter entendido a gravidade da situação. Pode ser que uma das amigas dele tenha vazado o vídeo, indignada. Ele declarou que não teve a intenção de ofender — aliás, um clássico de quem ofende. E o mais importante: reconhece o erro e declara que está tentando aprender. Todos estamos.

E o legal de estarmos aprendendo é que devemos pensar antes de falar qualquer coisa. Mesmo que a gente ache muito engraçado. Se pode ofender alguém, mesmo que seja alguém que nem está ouvindo, é melhor não dizer. Beleza?

Veja a íntegra do pedido de desculpas do desembargador:

"Na tarde de hoje fui surpreendido com a veiculação de um vídeo em que apareço ao lado do cantor Leonardo, em um encontro entre amigos, no qual faço comentários dirigidos a algumas colegas magistradas, com as quais possuo laços de amizade já de muitos anos. Inicialmente, quero esclarecer que em nenhum momento tive a intenção de ofender, menosprezar e mesmo agredir as minhas colegas, nem as mulheres em geral. Reconheço que as colocações foram inadequadas, infelizes e que, de fato, acabam por reforçar uma cultura machista que ainda é latente em nossa sociedade. Assumo os meus erros e com eles procuro aprender. Espero que este episódio sirva de lição não só para mim, mas para todos os homens que tratam um assunto muito sério como se fosse brincadeira."

Sobre a autora

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo”, na “Contigo!” e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso para atravessar a era digital com um pouco menos de drama. Sororidade e respeito ao próximo caem bem pra todo mundo.