Luciana Bugni

Gael e Sophia: por que é tão difícil ver a verdade sobre quem a gente ama?

Luciana Bugni

13/04/2018 04h00

Confrontar o que quem a gente ama diz: quem consegue? (foto: Reprodução: Globo)

Demorou uma novela inteirinha, mas finalmente Gael (Sérgio Guizé) entendeu que sua mãe, Sophia (Marieta Severo) não é exatamente a pessoa que ele imaginava, em “O Outro Lado do Paraíso”. Mas antes precisou bater em todas as suas namoradas, ser preso, perder o amor de sua vida e querer melhorar por si só (já que não tinha outra saída) para entender que era manipulado pela mãe.

Na novela, lógico, a coisa é exagerada. Estamos falando de uma mulher que mata pessoas a tesouradas por esmeraldas. Mas na vida real, tirando assassinatos e pedras preciosas, a situação não é tão incomum assim. Tem sempre um namorado que coloca a gente para baixo, um amigo que te detona, uma mãe que acaba com a reputação do pai para o filho e deixa a criança perdida, sem saber em quem confiar… E por que é tão difícil a gente perceber que está sendo manipulado por quem a gente ama?

Primeiro, porque a gente coloca os defeitos das nossas pessoas queridas em uma caixa bem fechada. Pessoas que têm questões com familiares ou namorados geralmente se recusam a acessar essa caixa ou fazer terapia, por exemplo. “Minha namorada me botou para falar com uma psicóloga, mas eu tenho pavor de ir lá porque eu tenho que ficar falando das minhas intimidades”, ele disse em um capítulo. É difícil mesmo tirar as coisas da caixa, querido. E o pior, ou melhor, é que quando a gente começa mexer nisso aí… Sai tanta velharia da nossa cabeça que não para mais. E dói, dói mesmo. Mas também, quando se entende o que sente, fica mais leve. É difícil para caramba. Porém, compreender o que está dentro de nós, sem interferências externas ou medo de desagradar quem amamos, é o único jeito de ser mais feliz.

Nesta semana, na novela, a coisa andou. Gael investigou o passado da mulher com pessoas próximas e entendeu que não era ele o vilão (ou não apenas ele) e sim a mãe, que o espancava na infância. “Eu fui tão agredido que virei o agressor. Eu achava que quem ama bate, porque foi esse exemplo que você me deu”, ele disse transtornado. Que responsa, hein, Sophia? Imagina como foi difícil para ele entrar nesse universo em que a mãe não é quem ele pensava que fosse? Para isso, foi preciso desconstruir coisas que ele trazia desde a infância e, assim, ficar meio perdido, sem saber quem é. “Uma parte de você ficou presa numa caverna, a caverna de tua memória”, diz Mercedes (Fernanda Montenegro). Como é que a gente faz para entrar aí e se livrar das coisas que nos dizem todos os dias, há anos?

E claro, nossos pais, nossos companheiros, nossos amigos não são vilões de novela. São pessoas que, como nós, erram tentando acertar. Aos nossos pais, especialmente, devemos respeito durante toda a vida. Mas entender que eles são humanos e que podem, sim, ter errado conosco, faz com que nos tornemos adultos melhores. Gael não vai querer “pingar os is” – e nem tem como, a mãe dele é uma assassina que precisa ser punida pela justiça. Mas nós, pessoas comuns, se pudermos ver com clareza os defeitos de quem nos cerca, acabamos transformando essas pessoas também pelo amor. Empatia é uma expressão que vale para todos: há sempre como melhorar a vida do outro e, assim, colher os frutos. Mergulhar para dentro de si é uma viagem difícil e geralmente é preciso a ajuda de um terapeuta. Mas o resultado vale a pena demais.

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre dois adolescentes, um bebê e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita comerciais na TV, conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e a revista “AnaMaria”. Já trabalhou no “Diário do Grande ABC”, “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{ user.alternativeText }}
Avaliar:
 

O UOL está testando novas regras para os comentários. O objetivo é estimular um debate saudável e de alto nível, estritamente relacionado ao conteúdo da página. Só serão aprovadas as mensagens que atenderem a este objetivo. Ao comentar você concorda com os termos de uso. O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Blog Luciana Bugni
Topo