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Luciana Bugni

Luciana Bugni

Verão 90: por que gostamos tanto de falar sobre o que aconteceu há 20 anos

Universa

07/02/2019 04h00

Confissões de adolescente (1994): a meninada suspira saudosa (Foto: Divulgação)

Eu levei um susto quando, há alguns meses, li as notícias de que a Globo faria uma novela de época sobre os anos 90.

Foi difícil aceitar: os anos 90 aconteceram há 20 anos, eu tenho o dobro da idade que tinha naquela época e, sim, mudou tudo. Constatar isso me deu uma nostalgia danada.

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Aparentemente essa saudade do "tempo bom que não volta nunca mais" (Thayde e DJ Hum lançaram esse clássico há 23 anos, acredita?) não acometeu só a mim. Lançada há duas semanas, Verão 90 tem subido de audiência progressivamente. Mas por que será que a gente gosta tanto de falar do que aconteceu há duas décadas?

Nos anos 90, era moda falar de tudo que acontecia nos anos 70. Apesar das influências clubber e minimalistas, o que a gente usava mesmo nas ruas eram calças bailarinas que tinha um quê de boca de sino com a helanca das frenéticas. E podiam dizer o que quisessem mas o que eu, a minha turma e o pessoal do That 70's Show (aquele seriado) queríamos era ser hippies — tentamos bastante, falhamos miseravelmente.

Anos 2000 chegaram e a gente entrou num frenesi louco pelos anos 80 em festas com músicas infantis da época e tentativas heróicas de reacender o sucesso de bandas de rock que não faziam barulho há muito tempo. E agora, quase no fim dos anos 10, voltamos 20 anos procurando os tempos analógicos do Disk MTV. Você acredita, meu jovem leitor, que para ajudar sua banda favorita a fazer sucesso ou não, precisávamos ligar para a emissora e pedir o clipe do artista? E no fim do dia, era preciso sentar ansioso em frente à TV para ver a colocação do clipe. Views, Youtube, Spotify eram apenas ficção científica.

Notícias vinham da TV ou das bancas de jornal — um tipo de comércio que vendia informações de papel, uma loucura. Parece meio arcaico, mas seu tio não recebia nada pelo Whatsapp e, por isso, se sentia menos informado. Mas também por isso, não compartilhava mentira por aí. Tudo tem seu lado bom, né?

Telefone de fio e walkman

Nessa onda nostálgica, perguntei para meus seguidores no Instagram o que mais fazia falta da década em que Monica, Rachel, Ross e outros Friends eram jovens. A maioria das respostas dizia respeito à era analógica.

Paquerar quando não tinha app nem Whatsapp era mais fácil? Para mim era, oras, eu não tinha nem 20 anos e era solteira.  Mas minha experiência na área da paquera diz que a gente dá um jeito pra isso em qualquer época.

Estudar era mais fácil quando os trabalhos eram apresentados em cartolina? Sim e não: hoje é muito mais fácil pesquisar qualquer coisa (o combo ônibus-biblioteca-xerox custava mais tempo). Mas, em compensação, tem muito mais distração pelo caminho atualmente.

A gente era mais solitário antes das redes sociais? Certamente eu passava muito mais tempo sozinha com meu walkman nos anos 90. Hoje, o celular toca o tempo todo e não dá para ser instrospectivo como antes. Mas esse celular frenético, que traz um amigo a cada momento, anula a nossa solidão ou estamos vendo ainda menos as pessoas que amamos por conta disso?

A grande revolução que faz dos anos 90 um tempo das cavernas para o adolescente está na palma da nossa mão. Provavelmente você está segurando um deles agora: um smart phone. Ele mudou a forma como paqueramos, estudamos, trabalhamos e nos sentimos sozinhos (ou não). Facilitou tanta coisa que não saberia numerar. E acabou com tantas outras do jeito que conhecemos que dá até para escrever uma novela passada nessa época.

Trabalho com internet e vivo meio nela, meio no mundo real há quase 20 anos. Mas no meio dessa profusão de informações eu sinto lá no fundo uma saudade de escutar o telefone fixo de casa tocar. Quase ouço a voz do meu pai gritando: "é pra você". Eu desceria a escada correndo para atender minha melhor amiga que iria perguntar se eu anotei o número da página da lição de casa de história.

Hoje tem 130 mensagens não lidas no meu Whatsapp. Talvez alguma delas seja da minha melhor amiga e eu ainda não vi.

Que tempo bom eram os anos 90. E não voltam nunca mais.

 

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).