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Alanis tentando lançar música nova com criança no colo somos nós em 2020

Luciana Bugni

14/08/2020 04h00

Alanis no microfone e eu no Zoom: todo mundo com criança no colo

Não precisa ser muito sensível para perceber que 2020 está sendo um pouco puxado para quem tem filho pequeno e trabalhos grandes. Nem precisaria estar atolado de serviço para ser difícil criar uma criança em casa, sem ajuda dos avós, no meio de uma pandemia, num país como o Brasil. E, claro, se não tivesse o trabalho seria ainda mais difícil, então a gente tem mais é que agradecer. Mas que tem hora que é perrengue, ah, isso é.

Ontem eu e uma amiga nos obrigamos a entrar no Zoom e conversar por trinta minutos no horário em que deveria acabar nosso expediente — e nunca acaba, sempre tem uns 40 e-mails para responder, uns relatórios para enviar, quando você vê, são 21h.

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Pois quando abriu a câmera, ela estava sentada no chão, no quarto das crianças. Tinha levantado com o notebook nas mãos para separar um briga dos dois filhos de 5 e 3 anos. Enquanto voltava para a mesa, lembrou de algo que precisava fazer com urgência e sentou ali mesmo para resolver logo o assunto. E lá ficou. Uma coisa puxa a outra e a outra.

Entendo bem.

Talvez por isso o vídeo de Alanis Morrissete com a filha no colo tentando mostrar sua música nova, Ablazed, no programa de Jimmy Fallon, tenha me tocado tanto. Você vai assistindo e é inevitável pensar: mas não tinha ninguém para ficar ali com aquela criança? Aí a garota segue interrompendo e a mãe aqui desse lado começa a ficar sufocada. Mas a mãe do lado de lá por acaso é a artista que transcendeu nos anos 90 mostrando para uma geração bem confusa que era ok andar descalça, de cara limpa, descabelada. E ela pergunta com doçura e verdade para a filha: "Está alto demais para você?" A garota responde que está ok. Está tudo ok.

Alanis segue cantando sobre amor, família, como ajudar crianças a estarem preparadas para as escuridões da vida. "Pode parecer sombrio, pode parecer solitário e você se perguntará o porquê de estar aqui/ Você pode ser dominado pela escuridão e uma sensação de desespero/ Mas não importa se você mantiver sua essência conectada à unicidade", diz a letra.

Na gravação, sua filha do meio segue falando com ela e fazendo perguntas. Ela responde todas sem quase perder o tempo do próximo verso. Lógico, Alanis é uma artista. Não lança um disco novo há 8 anos e criou três filhos sem pensar tanto em trabalho, um privilégio. Além disso, seu instrumento de trabalho — a música — é um pouco mais interessante para menores de idade que o meu — Outlook, Excel, Slack e palavras que meu filho ainda não sabe ler. Concluo que não dá realmente para parar de trabalhar no home office toda vez que seu filho pede. Eu não sou a Alanis Morrissete.

Mas o que mais me emociona no vídeo daquela cantora que eu admirava tanto na década de 90 é ver a mulher que ela se tornou. Ela não chacoalha mais o cabelo dentro de um carro num videoclipe que sabemos de cor. Mas segue descalça, de cara limpa, com o cabelo natural no clipe oficial de Ablazed (sem interrupções da filha, o que, cá entre nós, faz falta).

A garota rebelde dos anos 90, como eu e você, amadureceu. Mas não mudou tanto assim. Isn`t it ironic? Don't you think?

Mandei os links das duas versões da música para minha mãe. Sempre com um pedido de desculpas por ter sido aquela garota insuportável e descabelada na década de 90. Mas também com um agradecimento por ela ter me esperado chegar aqui. Ela sempre esteve ali. E é como espero estar para meu filho.

"Quando você precisar, estarei aqui a qualquer custo/ Este ninho nunca irá desaparecer/ Minha missão é manter a luz em seus olhos acesa/ E este cabo é inquebrável/ Esta luz de aviso está aí no seu bolso/ E esse vínculo, está além de ser inabalável/ Mesmo se todos nós esquecermos/ Ao mesmo tempo", Alanis resume o amor pelos filhos. Que bonito.

Seguimos aqui, ou meio aqui, ou bem mais ou menos aqui, porque agora meu filho quer manga com iogurte. E ver um desenho. E nunca mais fazer xixi ("fazer xixi é muito chato, mãe"). E eu tenho umas oito reuniões enquanto o dia passa até que eu finalmente possa dizer sim para perguntas que ele repete 40 vezes por dia: "Já acabou seu trabalho, mamãe?"ou "Hoje é sábado?".

Passada a situação catártica que me levou a escrever esse texto, o Youtube me direciona para outra música do mesmo álbum de Alanis: "Reasons I drink". Mas ok, isso é assunto para outro papo.

A gente pode chorar essa e outras pitangas juntas no Instagram.

PS: Obrigada a Marina, mãe de dois, separando briga e filmando abraços, por me abrir os olhos para tudo isso essa manhã.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo”, na “Contigo!” e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso para atravessar a era digital com um pouco menos de drama. Sororidade e respeito ao próximo caem bem pra todo mundo.