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Dia dos pais em 2020: saudades antigas doem ainda mais na pandemia

Luciana Bugni

09/08/2020 04h00

As saudades ainda mais doloridas em um ano de muita dor (Unsplash)

Tento escanear sentimentos no meu corpo para entender porque estou tão azeda estes dias. Passo pelo luto recente de perder um amigo que não tinha nada que ter ido. Passo pelo medo constante da doença vir parar dentro da minha casa mesmo eu não saindo — e sendo contra saídas dos outros. Passo pelo trabalho, pela rotina, pelo cuidado com criança pequena, pela preocupação com adolescentes grandes. Chego às músicas de Caetano, os livros que ando lendo, tudo que alimenta minha alma. E finalmente entendo: estou triste porque é dia dos pais.

Como pode uma dor que me dói há 20 anos ser ainda mais acentuada agora, período em que tantas outras dores doem? Por que a saudade de quem morreu é tão maior hoje do que a saudade de todo mundo que conheço, que está vivo e que não vejo há cinco meses?

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O luto para você tem ficado mais pesado também? Tive um entendimento recente de que o fato de ter perdido a pessoa mais importante do mundo para mim tão jovem agrava o medo de perder mais gente. Então, além de me trancar em casa, eu fico nessa batalha eterna com o mundo: será que você poderia fazer a gentileza de se trancar também? Assim não corremos todo esse risco. Eu sei, é impossível. Mesmo que as festinhas fossem abolidas, as pessoas ainda precisariam sair para trabalhar e correríamos riscos até a vacina sair.

Nessa semana, li o livro Vermelho, Branco, Sangue Azul, de Casey McQuinston (Ed. Seguinte). É uma comédia romântica utópica em que o filho da presidenta dos EUA se apaixona pelo príncipe da Inglaterra. Ambos vivem esse amor. É divertido. Devia virar filme.

A autora teve uma maneira tão delicada de explicar lutos antigos, que vou transcrever aqui. Pode ajudar quem anda lutando para compreender essa cavidade gigante que carregamos dentro de nós repleta de sentimentos:

"Pense que todos nascemos com um conjunto de sentimentos. Alguns são maiores ou mais profundos que os outros, mas para todo mundo, existe um piso, um limite. É a profundidade máxima que você já sentiu. Então, a pior coisa do mundo acontece com você (…). Mas ela acontece quando você ainda é jovem. Acontece quando seu cérebro não está totalmente formado, quando você não passou por quase nada na vida.

A pior coisa do mundo é uma das primeiras que acontecem a você. Vai até o fundo do que você sabe sentir e o dilacera, deixa um abismo oco. Como você é muito jovem e essa foi uma das primeiras coisas que aconteceram na sua vida, você vai carregá-la dentro de si para sempre. Sempre que algo terrível acontecer com você dali em diante, não vai simplesmente parar no fundo. Vai continuar descendo até o final."

Domingos como hoje descem até o final. Enquanto arrastamos o dedo sob a timeline repleta de fotos felizes e homenagens (que devem acontecer mesmo) algo vai engasgando aqui dentro. O abismo oco. A saudade. Aí a gente faz outra coisa, porque a gente sabe o jeito de driblar. Mas fica lá, dentro da gente.

Eu espero sinceramente que o domingo de quem perdeu o pai ou o filho seja tão leve quanto for possível. Amanhã já é segunda e a gente volta para a superfície. Dizem que em poucos meses vai ter uma vacina. Está um dia lindo de Sol.

Dá para ser feliz mesmo esburacado por dentro.

Dá, sim.

A gente pode falar mais disso no Instagram.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo”, na “Contigo!” e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso para atravessar a era digital com um pouco menos de drama. Sororidade e respeito ao próximo caem bem pra todo mundo.