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Youtuber falando a verdade no JN e políticos falando besteira na internet

Luciana Bugni

31/07/2020 09h59

Você pode não gostar do Felipe Neto. Tem argumentos válidos como "ele grita demais", "às vezes ele pinta o cabelo colorido", "ele falava muito palavrão em 2010". Mas infelizmente no Brasil de 2020, não existe não gostar sem violência.

Deu até no Jornal Nacional. Felipe fez um vídeo para o New York Times em que descrevia a maneira como o Brasil lidou com a pandemia e citava o presidente Jair Bolsonaro como o pior líder mundial no que diz respeito a esse assunto. A reação bolsonarista foi violenta. Montagens que o associavam à pedofilia, mentiras e fake news. E chegou ao auge com um carro de som na porta do condomínio do youtuber com ameaças em um microfone.

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Felipe tem a quem recorrer: comemorando 10 anos de uma carreira absolutamente estruturada, ele tem recursos para advogados, seguranças e equipe especializada em tecnologia que seleciona deturpações na internet e manda para os responsáveis. Mas e quem não tem?

O que você fazia com 20 anos?

O processo de disseminação de ódio contra Felipe encontra argumentos em vídeos antigos, em que Felipe falava palavrões ou dizia coisas impróprias (expressões que, se você abrir o grupo de whatsapp de um adolescente, vai ver elevado à décima potência). Ele já fez piada homofóbica ou transfóbica, por exemplo. E pediu desculpas. É esse o grande lance de crescer (e de ter lido livros): você olha para trás, percebe que estava falando besteira, e muda.

Fiquei pensando o que teria no Youtube a meu respeito se eu fosse filmada desde os 22 anos. Para chocar pouco, eu posso contar que falava muito mal de mulheres. Se eu quiser me expor de verdade, conto que dizia para quem quisesse ouvir que odiava cachorros. Mesmo os filhotes?, me perguntavam horrorizados. E eu bancava: sim, todos os cachorros, até filhotes. Eu tinha 22 anos e achava legal ser esse personagem. Nem é verdade. Filhotes são fofos. E cachorros grandes são bem legais também. A gente muda e para de falar besteira.

Felipe sabe exatamente o que está fazendo com sua comunicação. Ele estudou em Harvard e é inteligentíssimo. É do tipo que lê o livro inteirinho para poder criticar. Ele sabe que o dislike favorece o algoritmo e usa isso. Isso o torna menos vítima? Não.

Felipe, o então garoto que falava bobagem na internet e hoje joga minecraft para adolescente ver (e rir), não está fazendo nada errado dessa vez. Talvez influenciando a criança a jogar mais videogame, mas isso até eu cogito fazer com meu filho para ter um pouquinho de sossego na pandemia (mentira, videogame ainda não é uma possibilidade aqui).

Quando ele olha os próprios vídeos que fez no passado, se envergonha como você faria se olhasse os seus. Acontece.

Eu já disse e repito: se a mãe acha que o filho não deve ver esse conteúdo, está certíssima de proibir. O que não é legal é propagar o ódio a respeito de uma pessoa que mudou. Que pensa diferente. E que nunca fez nada que fosse, por exemplo, condenado pela lei. Aí é o caso de pensar antes de sair subindo uma hashtag que prejudica quem mesmo?

Agora, defender o amor, condenar homofobia, pedir para as pessoas usarem máscara, falar que o Brasil está em uma situação deplorável a respeito da pandemia… isso não dá para condenar. É tudo correto. É isso que Felipe está fazendo. E jogando videogame.

Enquanto isso, tem político importante na internet defendendo remédio que a ciência comprovou que não funciona — e que pode inclusive prejudicar a saúde. Isso sim, é gravíssimo.

Você pode, com educação e sem violência, discordar de mim no Instagram.

Sobre a autora

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo”, na “Contigo!” e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso para atravessar a era digital com um pouco menos de drama. Sororidade e respeito ao próximo caem bem pra todo mundo.