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SexEducation mostra o que toda mulher tem em comum: mas tem muito mais

Luciana Bugni

01/02/2020 04h00

Uma cena me impressionou em SexEducation, a série britânica que os jovens do mundo não param de maratonar até terminar, na Netflix. Um grupo de meninas é forçado a ficar em uma sala até achar algo em comum entre elas. A missão é difícil: elas se detestam e algumas não gostam nem de chocolate. Então finalmente descobrem que todas foram assediadas em algum momento da curta vida delas (as moças têm apenas 17 anos).

O resultado da atividade é: "o que temos em comum são pênis não solicitados". Infelizmente é um assunto que une qualquer mulher de qualquer idade. Todas nós fomos vítimas de algum tipo de comportamento abusivo em alguma fase da vida adulta. E, às vezes achamos que não fomos, mas só não percebemos.

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Para as meninas da série, é fácil perceber isso. Elas são jovens e já foram criadas sob os preceitos do feminismo, esse movimento centenário que bagunçou nossas cabeças há uns anos. Para as mulheres maduras, um pouco mais difícil. Crescemos aprendendo que mulheres não deviam ser nossas parceiras. Que mulheres puxam nossos tapetes. Que mulheres roubam nossos namorados. Que mulheres estragam nossa paz no ambiente de trabalho.

Um tempo atrás, discuti com uma colega de trabalho sobre o assunto. Marília Filgueiras, hoje uma das minhas amigas do peito, dizia que o feminismo era necessário e eu discordava. Eu achava que as pessoas eram iguais. Ela me explicava que não. Eu não conseguia nem computar os abusos e machismos que já havia enfrentado, vivia em negação dizendo frases como: "mulher é muito chata", "meus grandes amigos são homens", "quem aguenta mulher". Foi aos poucos, lendo bastante, conversando muito com outras mulheres que percebi o que as meninas de SexEducation descobriram ainda no colégio.

Na TV, quando uma delas confessa o medo de subir no ônibus e viver um novo assédio, todas se unem no ponto de ônibus e entram juntas. Juntas somos mais fortes mesmo. O que temos em comum, infelizmente, é a nossa impotência individual. Mas juntas, ela deixa de existir. E então, o que temos em comum é o nosso afeto, a nossa adimiração. A nossa consciência de potência.

Essa manhã, minha amiga da adolescência me ligou para falar sobre nossas carreiras. Ao telefone, como nos tempos antigos, vibramos uma pela outra. Aos 16 anos, eu "roubei" o namorado dela. Passamos alguns anos sem nos falar. O namorado se foi e nós ficamos. Juntas somos mais fortes. Ela soube me compreender, eu soube explicar: e somamos mais de 20 anos naquela conta da adolescência.

Hoje, também, minha primeira amiga de infância me escreveu no Instagram. Nós não nos falamos há décadas, mas eu lembro até da voz dela. Ela deve ter me encontrado pelo Uol, pela rede social, eu não sei. Sei que passei meu Whatsapp e ela disse: "vou levar as crianças na escola e já falamos com calma". Pronto. Está absolutamente claro o que temos ainda em comum. Somos mulheres correndo atrás de dar conta de tudo e tentar falar com calma com alguém querido no fim do dia.

Eu sei que você que está me lendo tem muitas amigas queridas e torce por elas. Mas a beleza do movimento feminista que virou nossas cabeças é ver essa mulher querida até naquela desconhecida no ponto de ônibus que pode estar apavorada de medo, pode estar com pressa, pode estar com o coração partido, pode estar com saudade do filho, pode estar feliz da vida. Ela pode estar exatamente como você. Que saibamos cada vez mais partilhar e nos proteger até ficarmos invencíveis.

Esse blog vai dar um tempinho por aqui (mas logo volta). Enquanto isso, você pode continuar essa conversa comigo no Instagram: @lubugni . Vai ser um prazer seguir dividindo e aprendendo com vocês.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo”, na “Contigo!” e em "Universa", aqui no Uol. E se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil. Mora também no Instagram: @lubugni

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

Luciana Bugni