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Luciana Bugni

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Emma Watson vai fazer 30: por que essa época é de tanta cobrança pra mulher

Universa

05/11/2019 15h21

(Reprodução/Instagram)

Primeiro: sim, aquela menininha mal humorada de Harry Potter vai completar 30 anos no ano que vem. Você que é fã da série de livros e filmes também pode já ter passado por isso. Ou ainda vai passar. Isso superado (é verdade, o tempo passa muito rápido, estamos velhos etc.), podemos falar sobre algo que pega todo mundo:

Por que ter 30 anos é esse terremoto na vida da mulher?

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Lembra aquela cena de Friends do episódio "em que todos fazem 30 anos"? A imagem emblemática é Rachel (Jeniffer Aniston) sentada em uma mesa tomando café da manhã enquanto os amigos dão presentes que ela havia sugerido. Ela está arrasada, em negação. O namorado, um garoto novinho e bonitinho de seu escritório, está por ali, mas não a completa.

De repente, ela faz as contas. Pretende ser mãe com 35 anos. Deve se casar uns três anos antes disso. E quer namorar com o homem de sua vida pelo menos dois anos antes de se casar. Pronto, ela conclui: ela deveria estar com o homem de sua vida nesse momento. A câmera vai para o lado e o namorado está brincando com um patinete. Feliz, satisfeito e moleque. Ela então se dá conta que precisa começar tudo de novo.

Miga, tamo junto (Reprodução/ Friends)

Quase toda mulher tem seu dia de Rachel quando está prestes a fazer 30 anos. O momento em que você percebe que, por uma falha da biologia, está muito próxima do período decisivo de ter ou não um filho. E que, muitas vezes, como Rachel, parece estar muito longe de uma série de fatores que a levam a procriar, ou ser bem sucedida, ou ter uma casa própria.

Emma Watson, como a maioria de nós, também não entendia o que havia de tão importante em fazer trinta anos.

"Corta para os 29 [ela completa 30 em abril do ano que vem], e estou tão estressada e ansiosa. Percebi que é porque de repente há um fluxo enorme de mensagens subliminares em volta de você. Se você não tem uma casa, não tem um bebê, e está fazendo 30 anos, se você não está num lugar muito seguro de sua carreira, se você ainda está descobrindo coisas… é um montante de ansiedade inacreditável", ela disse para a revista Vogue britânica.

Ela diz também que não acreditava que era possível ser feliz nessa idade sendo solteira. Hoje ela reproduz esse discurso e diz com segurança que é sua própria parceira. Que conceito bonito: ser sua própria parceira. Que pena que eu demorei tanto para entender o que isso queria dizer. E, depois que isso aconteceu, desenvolvi as mais belas parcerias com outras pessoas.

Olhando daqui, parece realmente difícil acreditar que tenhamos sobrevivido à pressão dessa época. Recém-divorciada, eu me via obrigada a começar tudo de novo, enquanto criava armadilhas para não sair do lugar — quem se identifica?

Comprar uma casa sozinha, rever as amizades, entender se era mesmo aquela carreira que eu queria, arrumar um namorado legal. E, surpresa, após passar a vida dizendo para todo mundo que eu não queria ter filho, meu sistema reprodutivo me pregou uma peça e procriar virou algo a me preocupar dia e noite.

Sheila Heiti fala sobre isso nas 300 páginas de seu livro Maternidade (Ed. Companhia das Letras). Uma mulher de 30 e poucos anos passando da curva em que é possível deixar a decisão de engravidar para mais tarde. Em maior ou menor escala, essa questão abala grande parte das mulheres.

Ter 30 anos não é só um guinada porque o relógio biológico começa a te lembrar que você tem um ovário e um útero e poderia usá-los de outra maneira que não fosse apenas impedi-los de funcionar. Estar prestes a fazer 30 anos é questionar seu trabalho, seu dinheiro, o que você construiu, o que sonhou e o quanto está longe de alcançar. Mesmo que você seja a Emma Watson e seja rica, linda, fazendo sucesso no mundo todo. A gente sempre arruma um espacinho para frustrações.

Eu, aos 30 anos, estava na esquina de um bar conversando com um amigo, em uma noite quente. Ele falava sobre os dois filhos adolescentes, sobre as dificuldade de educá-los em meio à confusão de seu divórcio. Ele nem cogitava se envolver com alguém outra vez e via isso como uma decisão definitiva.

Naquele dia, não sei se pelo calor ou pelas cervejas, eu repeti para ele algo que eu sempre dizia: que não teria filhos, meu tempo tinha passado e eu tinha que aceitar. Ele disse que as coisas às vezes mudavam rápido e eu devia parar de repetir aquilo. Que estava na minha cara que eu seria mãe. Eu fiquei meio emocionada, deixei para lá, acendi outro cigarro.

Hoje, o filho que eu não teria corre de um lado para o outro na minha casa e suja as portas de vidro com mãozinhas suadas. E aquele meu amigo da esquina do bar acabou de me ligar para perguntar o que eu vou querer para o jantar.

A gente acha que as coisas são eternas. A gente acha que tudo é definitivo. Mas a verdade mesmo é que a gente não sabe de nada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

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