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Segundo os homens do BBB, mulher é frágil, apegada e carente: e você?

Universa

29/01/2020 04h00

Reprodução/ Globoplay

Guilherme, Felipe e Hadson bateram um papo nessa terça (28) na casa do BBB. As frases, repletas de clichê, giravam em torno da fragilidade da mulher.

Posso estar sendo um pouco radical, mas não acho possível uma mulher, esse ser que entra em trabalho de parto e inclusive na maioria das vezes consegue parir, ser classificada como frágil. Eu sei que é um conceito antigo, o tal do sexo frágil, mas acho que não vale a pena a gente continuar reproduzindo, sabe?

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Aí, meus carinhosos leitores vão se manifestar aqui embaixo. Vão dizer que se não somos frágeis, então, que tratemos de encher um carrinho de mão de tijolos. Que mudemos a geladeira de lugar sozinhas. Que (que afronta) aprendamos de uma vez por todas a abrir os vidros de azeitona e palmito.

Então vamos lá, valentes leitores. Vocês são realmente na maioria das vezes mais fortes que nós fisicamente. É verdade. Vocês estão certíssimos. Em comparação de bíceps, a maioria dos homens que já conheci na vida ganharia do meu em volume e músculos. Vocês andaram de bicicleta muito mais que eu na infância. Quando eu simulava cólicas no colégio para matar aula de educação física, vocês estavam lá brigando para montar time. A vida esportiva de vocês é incomparável à minha inexistente na adolescência.

Nunca enchi um carrinho de tijolos (porque nunca precisei, mas poderia fazer se pudesse colocar um tijolo de cada vez). Nunca mudei geladeira de lugar (minhas cozinhas são pequenas e elas, as geladeiras, não têm muito para onde ir). E já abri alguns vidros de palmito (um pouco de técnica supera a força na maioria das atividades humanas).

Tudo bem, vocês são mais fortes. Os garotos do BBB, enormes e musculosos, são mais fortes que a maioria dos garotos que já conheci. Ok, nada errado com isso. Acontece que isso não tem muito a ver com força emocional.

O que não dá pra entender é em que ponto o corpo que tem mais dificuldade para levantar peso seria mais fraco para levar um relacionamento adiante ou lidar com um pé na bunda. Já vi muita mulher sofrer, é verdade. Eu mesma já deitei no cantinho do quarto em posição fetal chorando e fungando enquanto tentava aceitar que alguém não queria ficar mais comigo. Mas homem não tem mais facilidade com isso, não. Pelo contrário: tem homem que não aceita o fim dos relacionamentos e usa a própria força pra AGREDIR a mulher que o dispensou. Quem é frágil emocionalmente agora?

Aí volta o meu leitor à caixa de comentários para dizer: "Ah, mas eu conheço um cara que apanhou da mulher quando terminou com ela". É verdade, tem mulher que agride também. Bem menos, é verdade. E não dói, porque, como vimos acima, elas são normalmente mais frágeis que eles.

Não, não estou falando das lutadoras de UFC, não precisa nem usar esse argumento.

Pois bem, Guilherme diz a seguinte frase no BBB:

"Posso te falar uma coisa? Mulher é frágil. Se depois acontecer um 'ah, mas agora ele não quer mais ficar comigo'. Por isso eu estou esperando a hora certa"

Não dá para entender muito bem o raciocínio, mas aparentemente existe uma hora certa de ficar com a mulher "frágil". Uma hora em que você não queira mais deixar de ficar com ela? Uma hora de ganhar o BBB? Uma hora em que ela esteja bêbada (nessa hora a gente fica frágil para valer mas aparentemente ninguém se preocupa e manda ver mesmo assim)?

Felipe completou, sem explicar de quem estavam falando: "Ela deve ser apegada. Aí pode ser o ponto em que ela pode jogar contra você".

Ser "apegada" é o que mesmo? É valorizar as pessoas com quem ficamos? Ou é, segundo o garoto, não libertar o cara que quer só ficar com você uma noite e obrigar a namorar depois? Aprisioná-lo numa torre e exigir que ele cumpra obrigações sexuais por todo o sempre ou até que o confinamento acabe. É, pode acontecer. Mas nada que um diálogo franco e honesto não evite, né?

Hadson completou: "Ela está carente e isso pode confundir a cabeça dela".

Nunca conheci um jovem adulto que não seja carente. Nunca conheci um jovem adulto que não seja confuso da cabeça. Próximo passo.

Não deve ser fácil ficar com pessoas ao vivo em rede nacional sendo observado por uma audiência gigante (dentre eles, a sua mãe). Já é difícil se relacionar sem esses graus de dificuldade. Mas certamente não é reproduzindo clichês entre homens que vocês vão aprender um pouco mais sobre as mulheres e as relações.

No mais, a reação do diretor do programa sobre a postura masculina no programa é a mais coerente que você vai ver hoje.

Vou abrir um vidro de azeitona agora — não pra provar que posso, mas porque gosto de comer enquanto tomo cerveja e vejo futebol mesmo.

 

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo”, na “Contigo!” e em "Universa", aqui no Uol. E se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil. Mora também no Instagram: @lubugni

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

Luciana Bugni