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Papai Noel existe? Ideias de como agir quando seu filho faz essa pergunta

Universa

22/12/2019 04h00

O natal e seus muitos brilhos (iStock)

Na década de 80, eu sabia que os papais-noéis de shopping eram homens velhos (ou nem tão velhos) vestidos de vermelho. Para mim estava muito claro que eles eram diferentes entre si. E que eles são podiam estar na TV, no shopping, no Pólo Norte e em todos os lugares ao mesmo tempo. E que, se fosse o de verdade, ele não chegaria de helicóptero. Quem é que trocaria um confortável trenó cheio de renas e de brilhinhos por um instável e barulhento helicóptero?

Era óbvio que aqueles velhinhos profissionais não tinham nada do Bom Velhinho que eu imaginava. E ainda era esquisito que eles se vestissem daquele jeito, sendo que fazia um calor danado no Natal e até o vovô, que andava sempre de calça, se arriscava a usar bermuda.

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Minha mãe me explicou que Papai Noel era mágico e, portanto, não tinha essas coisas de frio ou calor. Eu esperava ansiosa a noite de Natal para vê-lo mesmo que rapidamente — mamãe também tinha me avisado que os trenós eram muito rápidos e ele precisava largar o presente na garagem voando para dar tempo de entregar os outros em to-das-as-ca-sas-de-cri-an-ças-do-mun-do. Gente, que trabalhão.

Então eu me empoleirava no sofá na casa da vovó e ficava com os olhos bem abertos olhando a janela para ver se conseguia enxergá-lo. Mas o danado era rápido demais e sempre (sempre, sempre) tocava a campainha quando eu estava fazendo outra coisa (correndo atrás do meu irmão, tomando mais sorvete). Quando eu abria a porta desesperada e esbaforida, nada feito. O presente estava lá na garagem. O Papai Noel já tinha se empirulitado.

O tempo foi passando e eu comecei a ficar desconfiada. Na casa das minhas amigas ele entrava, sentava, tomava umas cervejas, até entortava a barba às vezes, mas só na minha que não? Minha mãe explicou que aquele Papai Noel das minhas amigas era alguém fantasiado. Que o verdadeiro, na verdade, só existia na ideia das pessoas.

Você sabia disso? É assim com mágicas e fantasias em geral. Pode ser que o Harry Potter de verdade não exista. Mas ele existe na ideia das pessoas e isso é um jeito de existir para sempre. O mesmo vale para o Bom Velhinho. Não é maravilhoso?

Quando eu cresci, li numa matéria da SuperInteressante que é justamente por meio dessas fantasias que as crianças começam a entender o mundo. E, veja só, nós precisamos da fantasia para dar conta de nossas angústias e ansiedades. Para as crianças, ainda é mais importante para o entendimento de questões complexas como vida, amor, caridade…

Meu filho, João, por exemplo, gostava muito da chupeta dele. Ela era a companheirinha dele nas curtas noites de sono que  cedia aos inúmeros encantos do mundo e dormia um pouquinho, para meu alívio. Mas João entendeu que, às vésperas dos três anos, era hora de ceder as chupetas para crianças mais novas, que precisavam muito delas.  Quem faria essa ponte seria o Papai Noel. Ele ficaria tão grato que daria, bem… o Lego do Toy Story para o João. Eu sei. Eu estava indo bem, mas cedi aos caprichos capitalistas do mundo.

Assim foi: João colocou a chupeta na árvore e, numa mágica de logística do pai dele, numa tarde atarefada de dezembro, o trem do Toy Story foi parar embaixo da árvore. As noites que se seguiram foram um pesadelo em que eu maldisse muitas vezes o fato daquele velho vestido de vermelho existir nas ideias das pessoas. Mas finalmente João aprendeu a dormir sozinho.

Outro dia, alguém disse que o Papai Noel estava no shopping. Ele me disse que queria falar com ele. Pensei que ia pedir outro Lego (do Carros? da Patrulha Canina?), já ensaiei o discurso anti-consumismo. Ou a chupeta de volta. "Eu queria dizer pra ele obrigado, mamãe. Porque ele levou minha chupeta e agora eu sei dormir sozinho que nem uma criança grande. Eu não preciso mais da chupeta, mamãe. Agora quem usa são os bebês."

Nunca vou deixar de achar incrível a ideia do Papai Noel existir. Seja lá nos 80, ajoelhada no braço de um sofá estampado e olhando pela janela, seja agora, quando vejo aquele menininho dormindo. A fantasia é boa demais.

Agora, se ele existe? É lógico que existe, ou não passaríamos a vida toda falando dele.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

Luciana Bugni