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Quem fica com os amigos na partilha do divórcio?

Luciana Bugni

12/09/2017 08h00

Os amigos, Pete. Os amigos sofrem mais (Foto: Reprodução)

O pessoal não fala, mas se tem uma coisa tão difícil quanto a separação é contar para os amigos. Você está naquela situação, sem saber direito onde vai morar e como vai terminar de pagar o financiamento do carro, e ainda tem que passar pelo constrangimento de consolar os outros.

Porque é isso que acontece. Depois de três noites (preencha aqui com o tempo estimado de sua dor de cotovelo) assoando o nariz no travesseiro de tanto chorar, decide que é hora de começar a viver novamente. Toma um banho demorado, coloca uma roupa que parece errada — todo seu guarda-roupa parece um equívoco quando se resume a caixas de papelão no seu antigo quarto na casa de sua mãe. Mete os óculos de sol, enfia coragem na cara e sai pra encontrar uns amigos.

Aí chega na casa deles. Casal feliz. Já no hall, vê souvenires comprados na última viagem que vocês quatro fizeram para Morro de São Paulo. Fotos deles se beijando num aparador encostado ao lado do elevador. Você cogita virar as costas e pegar o elevador de volta. Ouve a conversa lá dentro: "Amor" pra cá, "Paixão" pra lá. Mal abrem a porta, parece que você está sem um braço. Ou sem roupa. Ou sem cabelo. Mas só está sozinha.

"Cadê o (a) Fulano (a)?", perguntam estarrecidos.

"Então, preciso falar com vocês".

Ele, sem ar, senta no sofá em cima do gato, que grita e corre de susto. Ela vai se servir de uma dose de uísque dupla e nem oferece. Os dois repetem: não pode ser, não pode ser… Você começa a contar a história. "Olha, não estava dando certo há algum tempo e…"

Ela interrompe, depois de virar o uísque: "A GENTE NUNCA MAIS VAI PODER IR PRO SÍTIO DOS PAIS DELE EM ATIBAIA?" Você encolhe ombros prevendo que a noite vai ser longa. Concluindo que foi um erro tomar aquele banho e sair da casa da sua mãe. Constatando que buscar conforto pós-divórcio é burrice. Melhor ver séries. E consolando-os. Como se fossem eles os recém-separados.

Amigos em comum entram na partilha de bens. E dão mais trabalho, porque sofá dá pra comprar outro parcelado nas casas Bahia. Amigo só resta olhar as fotos e lembrar com saudade. As memórias ficam pelo caminho — com quem você vai fazer aquelas piadas internas sobre o Carnaval de Salvador de 2008? Quem vai lembrar com você da viagem a Machu Picchu?  Por que não pode continuar todo mundo amigo? Viajar junto? Sentar na mesma mesa no casamento da Elaine? Ex, atuais, amigos variados, numa grande confraternização em dezembro, como manda a tradição? Não pode. Não sei quem disse, mas não pode.

A regra é até simples: se forem amizades feitas antes do casal existir, ficam com quem trouxe. Se forem feitas depois da relação começar, cabe a eles escolher de que lado vão ficar. Que morte horrível, aliás. "Não é nada contra você, sabe que eu te amo, mas o Felipe é meu melhor parceiro de squash e…", diz um amigo que você conhece desde a faculdade. Perdeu.

Você se sente a Monica Geller naquele episódio de "Friends" em que ela tem um namorado rico: "Se terminar com ele, sai da turma e ele fica". É tão absurdo que devia ser piada, mas quando acontece na vida real é triste demais. Eu já escutei a ameaça. Meus amigos encantados com um namorado cool com quem eu fiquei dois meses tentando evitar o rompimento a todo custo. Eles perderiam os ingressos de show, as cervejas importadas, os papos sobre tatuagem. Sinto muito, terminei mesmo assim.

E continuei na turma, né, eles não são nem loucos.

Mas não superaram até hoje que eu sei.

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

Luciana Bugni