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Adam Driver é um gostoso ou é um feio talentoso: internet segue discutindo

Luciana Bugni

12/12/2019 04h00

O que ele tem? (AFP PHOTO/ ALBERTO PIZZOLI)

Aprendemos na adolescência que homens bonitos eram aqueles de olhos claros ou algo perto disso. Personificados pelo sucesso de Leonardo di Caprio no fim da década de 90, o galã era bem limpinho, quase com cheiro de talco. Mesmo os ídolos do grunge, um estilo em teoria sujo, Eddie Vedder e Kurt Cobain, tem um quê de asseados.

Ou você imagina que Vedder exale algo diferente de cheiro de Phebo misturado com cigarro e vinho? A combinação parece atraente. Uma amiga chegou bem perto e disse que ele é, sim, cheiroso. Ela também disse que nunca mais ia lavar nenhuma parte do corpo depois do aperto de mãos. Não julgo.

Muito mudou nos últimos anos. No Brasil dos anos 00, chegamos ao ponto de aclamar os barbudos do Los Hermanos como galãs. O estilo lenhador conquistou corações e até ganhou um coque nos anos 10. Enfim: o conceito do que é um homem gato virou uma coisa mais elástica.

Mas há quase uma década a polêmica continua a mesma toda vez que Adam Driver entra em cena.

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Afinal, ele é um gostoso ou só um feio (muito) talentoso?

O ator começou a mostrar a que veio em "Girls", em 2012. Nas cenas da série desconstruída, em que a roteirista e protagonista Lena Dunhan está bem longe dos antigos padrões de beleza, ele chama a atenção justamente por que, bem, está bem longe dos padrões de beleza: "mas o que é que ele tem?" Uma amiga garante que nunca sentiu tanto tesão vendo alguma coisa quanto nas cenas de pegação de Lena e Adam em "Girls". "Ele é um gostoso de um talentoso", ela diz.

Quando uma mulher que não é linda (como imaginamos que devia ser a beleza) faz sucesso, ok, a gente respeita (ou nem isso). Quando um homem que não é lindo faz sucesso, a gente acha que talvez ele seja lindo. Sim, pois é.

Em "Infiltrado na Klan", filme de Spike Lee que concorreu ao Oscar no ano passado, o carisma de Driver compete até com o do protagonista (John David Washington), um homem negro que tem a ideia genial de se infiltrar em uma organização criminosa racista. É o judeu que ele interpreta quem dá a cara a tapa. É por ele que torcemos nas duas horas de filme. Adam é gigante.

Não é só pelo 1,89 que ele ocupa espaço na tela. Driver é sensível e muito talentoso. Mesmo vendo claramente as presepadas que ele aprontou durante a relação com Nicole (Scartlett Johansson), suspiramos alguns "óuns" durante o filme "História de um Casamento". A obra, monotema da semana em 10 entre 10 rodas de conversa, mostra diversas situações em que o machismo velado de um artista progressivão faz muito mal para a mulher. Sentimos raiva? Nãoooo. Queremos acolher o ator deitado no chão da cozinha (e ocupando todo o território do cômodo), totalmente desamparado. Vem aqui, vem.

O borogodó de Driver enche mais a tela que a beleza extraordinária de Scarlett. Como é que pode, rapaz?

Não sei dizer o que Driver tem. Não é o olhar de cachorro pidão que Leonardo di Caprio faz. Não é o desleixo calculado de estrela do rock que Vedder executa muito bem. Não é a safadeza espirituosa de Brad Pitt em cima de um telhado consertando a antena sem camisa em "Era uma vez em Hollywood" (credo, que delícia demais). Não é também o aspecto desencaixado Idris Elba, que parece sempre perguntar "o que eu estou fazendo aqui".

Driver sabe onde está, sabe o que faz. Quando perguntado sobre o aspecto diferente de seu rosto (eufemismo mal educado da imprensa quando quer dizer o que ele acha de fazer sucesso sendo feio), ele responde que é apenas o seu rosto. Para ele, não é diferente. Ponto. E não é mesmo, a autoestima do homem hétero tem muito a nos ensinar.

Em cena de "Inside Llewyn Davis", ele, Justin Timberlake (de uma beleza limpinha que não podia ter saído de outra década que não os anos 90) e Oscar Isaac (num visual mais sujo, descabelado e cigarro na boca, que tem seu valor) cantam juntos "Please, Mr Keneddy". Ali, Adam apenas empresta sua voz para fazer uns ruídos e cacos na música. Basta: consegue chamar mais atenção até mesmo que o carismático Justin.

Deve fazer o mesmo em Star Wars, que estreia ainda esse mês no cinema. Um pouco de esquisitice em guerras estrelares. Mas, gente, o que esse homem tem?

A discussão segue rendendo na internet. Mulheres e homens parecem inconformados de estarem tão encantados com sabe-se lá o que.

Não sabemos mesmo o que tem Adam Driver.

E quem deveria se importar com o que ele não tem?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo”, na “Contigo!” e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso para atravessar a era digital com um pouco menos de drama. Sororidade e respeito ao próximo caem bem pra todo mundo.