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História de um Casamento e o divórcio: o que sobra do amor quando ele acaba

Luciana Bugni

10/12/2019 04h00

Quando o casamento desmorona, a gente tem que lembrar do que gostava no outro para que o resto de nossa existência seja possível (Divulgação)

O roteirista e cinéfilo Diego Olivares, que (ainda bem) é meu amigo, me disse na sexta-feira (6): "História de um Casamento estreia hoje na Netflix. Vi na mostra em outubro e esperei até hoje para indicar para você."

Obedeci na mesma noite e, prostrada no sofá de minha sala em uma madrugada insone, assisti as 2h16 de um filme extremamente sensível, que fala sobre o fim do amor. E não é de se impressionar, mas a gente esquece: a obra, que foi a campeã de indicações ao Globo de Ouro (6 categorias), é, na verdade, sobre o amor que nunca acaba.

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"História de uma Casamento" começa com a leitura em off de duas cartas: uma de Nicole (Scartlet Johason) para Charlie (Adam Driver) e uma dele para ela. Ambos dizem, em um texto repleto de doçuras ilustradas por cenas que aquecem o coração, o que mais amam no outro. A cena seguinte é no consutório de um terapeuta que pede que Nicole leia sua carta. Ela se recusa.

Apesar de todo amor estampado nas palavras que acabamos de ouvir, o casal está se separando. E, segundo o psicólogo, é importante que se lembrem porque um dia gostaram um do outro para que o divórcio seja o mais pacífico possível. É esse o jeito de evitar que ambos não sofram muito mais. Mas, além disso, é importante que não causem mais sofrimento para o filho deles, Henry, que tem 8 anos e, clichê: não tem nada a ver com a história.

O filme não causou uma avalanche de sentimentos apenas na minha casa, onde pensei nos amores e divórcios que já vi (de dentro ou de muito perto). Em uma enquete rápida no Instagram, recebi diversas mensagens de outras mulheres que também estavam atônitas diante da clareza com a qual o diretor Noah Baumbach expõe a história de todos nós. Os amores acabam, já aprendemos a essa altura. Estamos ainda em uma idade em que é raro que acabem sem filhos — e isso muda a história de Charlie, de Nicole, de todos nós. 

A situação é um clássico das relações: a mulher que larga seus sonhos para investir na carreira promissora do marido. Quando percebe, é tarde. Ela mora em uma cidade em que não quer, não sabe direito quem é, se submete à análise profissional dele que, além de marido, de homem organizado e exigente, é seu diretor em uma companhia de teatro. Quando ele abre o caderninho para dar "toques" profissionais que ela ouve com humildade, fica claro que vários anos de críticas chegaram a um limite.

Mas a história vira. Sabemos que num processo de divórcio não há vencedores. Todos os envolvidos estão perdendo algo (ou muito), seja dinheiro, autoestima, dignidade ou tempo com aqueles que amamos. Inclusive aqueles que, ali na história, não se divorciaram: Baumbach nos lembra o tempo todo de que os filhos são as vítimas indefesas de uma briga amorosa repleta de egos. "Meu filho precisa saber que eu lutei por ele", diz Charlie. "Mas hoje é meu dia", diz Nicole num outro momento. A frase dói nos ouvidos de quem, de fora, vê que amor não se mede em montante de horas.

Em outra cena, o garoto passa pelo pai deitado, sangrando no chão da cozinha após se ferir com um canivete, e nem percebe que há um problema ali. Fica claro que estamos esperando coerência de uma criança de 8 anos, já que seus pais não conseguem se comunicar de maneira não-bélica.

A belicosidade só aumenta quando entram em cena advogados nada conciliadores, que claramente estão usando a dor humana para provarem sua própria competência. Lógico, há exceções: um dos advogados de Charlie tenta o tempo todo fazer com que o processo seja o menos doloroso possível. Mas os conciliadores externos não têm muita voz no divórcio quando o ódio grita mais alto. O público logo nota que a corência depende de quem está se separando. Pena que às vezes tudo isso fique claro para os maiores interessados tarde demais. Ou nunca.

Amamos e nos relacionamos pensando que esses enlaces vão durar. Não temos filhos cogitando que esse amor todo vá terminar numa sala fria em que um estranho lê em termos rebuscados os motivos para o fracasso de nossa vida amorosa. Isso acontece, sabemos. Se o divórcio é um amontoado caro de perdas que mencionei acima, também é, em muitos casos, inevitável. E o ganho de liberdade pode suprir tudo de ruim que vem junto. Basta lidar de uma maneira minimamente coerente com o que se quer para os próprios filhos. E não imagino que seja diferente de empatia, compreensão, amor.

Charlie e Nicole nos mostram por mais de duas horas a nossa impermanência. O quanto podemos nos fechar em nós mesmos sem que olhemos para o outro. Nossa dor é maior, nosso ciúme é maior, nosso egoísmo é maior que o nosso amor por nossos filhos — por mais que doa demais admitir que uma hipótese maluca dessa seja verdadeira.

Que a gente possa aprender a ser menos ensimesmado nas relações, possa pedir ajuda e ajudar. Que a gente saiba ler a carta que nos lembra porque raios fomos gostar tanto um dia daquele estranho. Que a gente guarde as palavras cruéis antes de proferir — será essa violência que verbalizamos que nos derrubará de joelhos, como aconteceu com Charlie na cena que ilustra esse post.

O tsunami causado por Noah Baumbach na verdade é um lembrete pungente de quem somos e do que podemos vir a ser. Diego trouxe em seu texto sobre o filme uma lembrança do hit de Bidê o Balde, nos anos 00. "É sempre amor mesmo que acabe".

Se a gente não esquecer disso nunca, fica mais fácil tocar o barco.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

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