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Luciana Bugni

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Chilique e ameaças ao ser atacado: Bolsonaro nos ensina como não agir

Luciana Bugni

31/10/2019 04h00

(Reprodução/ Twitter)

No filme Coração Vagabundo, um documentário de Fernando Groinstein com muitas imagens inéditas de Caetano Veloso, o cantor declara: "Sempre que tenho um chilique, me arrependo cinco minutos depois".

A frase ficou na minha cabeça: acho que todo mundo que tem chiliques se arrepende logo em seguida. Felizes são as pessoas que conseguem controlar os ânimos mesmo quando a coisa esquenta, a cobra fuma, o bicho pega, o cinto aperta e ok, você entendeu. Eu não sou uma delas. E, como ele, sempre que me exalto, me arrependo logo em seguida, por mais que esteja certa. Afinal, não tenho mais dois anos de idade.

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Mas achei a fala de Caetano interessante porque ele próprio havia tido um chilique daqueles comigo mesma alguns meses antes. Foi durante uma tentativa de entrevista em que me recebeu sob uma saraivada de impropérios. Em Salvador, em frente ao mar, na véspera do ano novo: nada sensibilizou meu cantor favorito ao ser surpreendido por uma repórter no meio da tarde. Entre outras grosserias, antes mesmo que eu fizesse alguma pergunta (e ele tinha todo o direito de não responder), ele mandou que eu sumisse da frente dele.

– Suma! Suma daqui! Saia da minha frente!, dizia cerrando os dentes.

Eu fiquei ali um tempo, o fotógrafo que estava comigo, Marcos Rosa, tentou amenizar a situação e não teve jeito. Nosso primeiro encontro acabou assim, antes mesmo de começar.

Ao assistir o filme de Groinstein, num evento em que o próprio Caetano estava presente — dessa vez para dar entrevistas — perguntei se ele se lembrava de todos os chiliques que teve para realmente se arrepender deles. Ele perguntou quando havia sido grosseiro comigo, eu respondi. E, algumas perguntas depois, voltou-se a mim para pedir desculpas. Imediatamente desculpei. Não sou das pessoas mais calmas, já fui bem adepta do barraco. Digo que sou uma barraqueira em reabilitação. E passei um pano para Caetano, como faço às vezes com as pessoas que admiro muito. Perdoo e toco o barco.

Lembrei dessa história e desse ensinamento na manhã de quarta (30), ao assistir pela segunda vez o chilique de 23 minutos que o presidente Jair Bolsonaro dá ao ver seu nome em uma reportagem do Jornal Nacional ligado  à morte da vereadora Marielle Franco. Ou Mariela, como diz o presidente, de tão nervoso, durante a live. Sem nenhuma ponderação, Bolsonaro tenta se defender das acusações, mas o vídeo se transforma em um chilique para Caetano nenhum botar defeito. Ele grita, gesticula, troca palavras, se irrita, fala palavrões. Atitudes que, convenhamos, não cabem ao líder da nação, eleito pela maioria dos brasileiros e de quem se espera ponderação e calma frente às maiores crises.

Mas mais do isso, não cabe ao próprio presidente. O chilique será mais lembrado que sua defesa. No ímpeto de xingar o acusador, ele nem se dá conta que a própria reportagem havia dito que era impossível que o presidente estivesse na casa 58 e em Brasília ao mesmo tempo. De tão exaltado, Bolsonaro diz que não quer ver o nome de filhos dele ligados ao escândalo, sendo que nenhum dos filhos havia sido citado. E insiste que querem ver seus filhos presos.

Quando o emocional sobe muitos tons acima desse jeito, o jeito é dar as rédeas para a razão. É fácil fazer isso no auge da tensão, com o sangue quente correndo mais rápido que o costume? Não é. Mas há de ser um exercício diário de prudência.

Está nervoso demais para falar? Não fale. Está nervoso demais para expor o que pensa? Não grave um vídeo que eternize o chilique. Está nervosa demais para falar com um funcionário na empresa? Acalme-se e fale depois. Isso não é uma crítica ao presidente, mas algo que Caetano me ensinou da pior maneira possível.

Não há porque dar chilique, mesmo que tenha razão de estar bravo, se fatalmente vai se arrepender deles depois. Por mais que desafie a lógica, ninguém te ouve quando você está gritando.

Questão de inteligência mesmo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

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