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Luciana Bugni

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Grupos no Whats pra imitar moto e Faustão... que horas o jovem vai estudar?

Universa

24/10/2019 04h00

Você consegue imaginar um jeito de tirá-los desse túnel? (Istock)

O jovem no sofá de casa diz: criaram aqui um grupo para imitar barulho de moto. "Quê?", dizem os dois adultos na cena (e eu sou um deles). Um grupo, ele explica, em que todas as pessoas mandam áudios de barulhos de moto feitos com a própria voz. Nos entreolhamos incrédulos, enquanto o garoto dá o play. "Papapapapapapa", alguém imita um escapamento. "Vruvruvrrrrrrrrrrrrrum", esse é um acelerador. Nós rimos.

Ele fica meio decepcionado, pois o grupo para fazer barulho de moto está lotado.

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Olha, ele diz de novo, um grupo para imitar o Galvão Bueno (haja coração), para falar igual o Faustão (ô loco, meu), para fazer a voz do Mickey (é isso aí!), para imitar barulho de caixões velhos (?). E lá se vai mais meia hora na rotina do rapaz que está prestes a fazer vestibular e poderia, por exemplo, estar estudando.

Achei curioso, postei no Stories do Instagram: "olha o que os jovens estão fazendo". Recebi diversas mensagens de pessoas (adultas) sugerindo outros grupos: "imitar o Lula", "falar gritando", "fazer coisas impróprias em sigilo". Se tem uma coisa que eu tenho inveja nessa vida é do tempo livre da galera.

Para entender o que fazem as pessoas que têm tempo livre, eu fiquei 21 minutos no grupo de imitar o Mickey Mouse. Escolhi porque não tinha a menor ideia de como imitar o Mickey e poderia ser interessante aprender para agradar meu filho pequeno. Das 10h11 às 10h32 da manhã de quarta, 12 áudios entre uma infinidade de mensagens (incontável mesmo). Muitos pedidos para passar trote para o fulano. Contato do fulano. Entre os áudios, alguns eram encaminhados de outras pessoas. Em geral, o próprio fulano que vem recebendo trotes de integrantes desses grupos que pede gentilmente para que a pessoa que está divulgando seu número pare de fazer isso ou seja denunciada. Muitas fotos, prints de tela comprovando que as pessoas estão passando os trotes, muitos kkkk. Áudios de Mickey mesmo, uns quatro. Apenas uma boa imitação. Saí do grupo e voltei à vida.

Sou adulta e um pouco azeda. Além disso, infelizmente não tenho muito tempo livre. Mas fiquei pensando como deve ser difícil ser adolescente, ver todos os amigos mandando essas bobagens uns para os outros, rir de algumas coisas engraçadas (eu mesma ri das motos) e mesmo assim achar tempo para fazer as obrigações da vida. Entre elas, estudar. Arrumar a cama. Lavar a louça. Pendurar ali uma roupinha para os pais, né? Como é que você vai fazer essas chatices se tem à mão um túnel em que todos os seus amigos chamam para ver a próxima piada do momento.

Claro que faz parte da nossa obrigação educá-los e ensinar a dividir o tempo de uma maneira inteligente. Mas competir com as facilidades do 3G ao alcance da mão até para passar trote não é fácil, não. Na minha época, tínhamos que atravessar a rua e ir até o orelhão da praça para fazer isso. Nesse tempo também já era chato estudar. Aliás, procrastinação era um privilégio há mais de 20 anos. Uma hora o tédio falava mais alto (não podia ligar a TV antes de terminar as obrigações) e eu sentava e fazia a lição.

É, esse texto é careta e meio nerd. Claro que não tem problema nenhum em rir de imitações do Faustão, essa fera aí. Mas que nós, adultos, devemos dar uma paradinha no uso desenfreado das redes para qualquer fim, ah, isso devemos. Assim, quem sabe, os jovens se espelhem no nosso bom exemplo e abram os livros outra vez.

No mais, "papapapapapapa", a voz de um desconhecido ecoa na minha orelha o dia seguinte inteiro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

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