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Luciana Bugni

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O que aconteceria se Geisy entrasse na faculdade com o vestido rosa agora?

Universa

23/10/2019 13h08

Pra se importar com roupa dos outros tem que ter muito tempo livre (Rivaldo Gones/ Folhapress)

Geisy desce do ônibus com dificuldade. O vestido rosa curto não é o mais adequado para descer a escada do busão. O salto também não ajuda, mas ela vai em frente com agilidade. Com 20 anos de idade, ela tem alguma experiência em andar com sapatos altos. E sabe que isso a deixa mais bonita. Aliás, sacrifícios em nome da estética. Ela vai andando pelo calçamento irregular da Avenida Dr. Rudge Ramos, no bairro de mesmo nome, em São Bernardo do Campo. A prefeitura devia dar um jeito nesses buracos.

Ali na calçada, já percebe olhares. Ela gosta de chamar atenção. Quando saiu de casa, sabia que o vestido pink neon atrairia olhares de cobiça. E tudo bem. Geisy é empoderada. Ela sabe que pode vestir o que quiser. Fosse uns anos atrás, até pensaria se escolheu a roupa certa. Hoje ela sabe que pode se vestir do jeito que achar melhor. E que os homens podem olhar, sim, mas sempre com respeito. Mexer, falar impropérios? Isso é coisa do passado. Colocar a mão? Isso é crime. Como é bom ser uma mulher dos tempos atuais que tem plena consciência de que seu lugar é em todo lugar.

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Ela atravessa o pátio da faculdade. Nas mesas da praça de alimentação de porcelanato bege, pessoas comem apressadamente, revisam textos para as aulas, conversam sobre as novidades, marcam o bar que vai acontecer depois do intervalo. Geisy atravessa. Entre as plantas artificiais que adornam os pilares, ninguém diz nada: nem poderiam, o que eles têm a ver com a vida dela? A resposta é obvia – nada. Geisy paga suas contas (quer dizer, é o pai dela que paga a faculdade, mas nem por isso poderia dar algum palpite no que ela veste). Todo mundo sabe que as mulheres não devem obedecer normas de comportamento que lhe foram impostas por homens de terno e gravata.

E se, por acaso, alguém quiser obedecer regras antigas, até pode. Toda mulher é dona de si e pode fazer o que quiser. Geisy tem amigas que se vestem de maneira tradicional. Saias abaixo do joelho, camisas fechadas até o pescoço. Ela respeita. Claro que sim, ué, ela iria dizer que todo mundo deve se vestir igual a ela mesma? Que coisa de maluco seria que a gente quisesse impor nosso padrão para os outros. Não tem o menor cabimento.

Geisy senta na sala de aula, abre seu caderno. Acomoda o celular no colo, porque uma amiga vai mandar mensagem amanhã confirmando uma entrevista de emprego. Geisy quer trabalhar, está ansiosa. Ajeita o cabelo para trás da orelha, começa a prestar atenção na aula.

Alguém diz:

– Isso é roupa de vir para a faculdade, Geisy?

Ela nem entende a pergunta. Roupa de ir para a faculdade… sim, é uma roupa. Uma colega de sala manda o garoto ficar quieto. Ele prossegue:

-Não consigo prestar atenção na aula com esse vestido da Geisy.

O professor pergunta se ele quer um para ele. Os colegas de sala ficam incomodados com a balbúrdia. Desde quando a roupa de outra pessoa interfere em alguma coisa na sua vida? O rapaz não se emenda:

– Acho que a gente deveria dar um jaleco branco para ela se cobrir. Não dá para ficar na sala desse jeito.

O aluno é então convidado a se retirar da aula pelo professor. As meninas riem da cara dele. Geisy ajeita o cabelo atrás da orelha de novo, cruza a perna. O celular acende: a amiga confirmou a entrevista de trabalho amanhã. Ela sorri.

A aula continua.

Como é bom viver em 2019.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).

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