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Luciana Bugni

Gracyanne e Vivi: a internet é um pátio do colégio no recreio dos anos 80

Universa

02/04/2019 20h36

O que um post não faz… (Reprodução: Instagram)

Quando estava no colégio, chegava sempre alguém esbaforido nas rodinhas do recreio com a informação: tá tendo briga no pátio. A animação não escolhia gênero, mas se era uma briga de mulher, galera desembestava em peso para o local do embate.

Tudo bem, eram os anos 80. Meu pai me colocava no porta-mala da Belina e pegava a estrada. A gente brincava de fumar cigarrinhos de chocolate ou de fazer castelos com caixas de cigarro de verdade (era só lá em casa?). Ninguém falava que a gente tinha que respeitar outras mulheres naquela época.

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Aliás, era o contrário: a gente aprendeu que mulher briga com mulher. Que nenhuma quer o bem da outra. Elas vivem para competir. E, se tiver rolando uma treta de mulheres bem debaixo de nosso nariz, em vez de tentar mostrar pra elas que aquele não é necessariamente o caminho, a gente vai é chamar mais gente para ver.
Infelizmente, nem todos esses costumes ficaram no bagageiro da Belina do meu pai. Até hoje a briga de moças causa alvoroço nesse grande pátio do colégio que é a internet. Foi o caso do divórcio de Débora Nascimento — o pessoal inventou uma briga, Débora foi uma mulherão ao dizer que não falaria sobre seu divórcio para defender outra mulher e mesmo assim a galera no recreio continuou agindo como torcida. Várias atrizes deixaram de seguir Marina Ruy Barbosa e o pessoal ficou alucinado gritando iééé, vish e outras interjeições do ensino fundamental.
Foi assim essa semana com Viviane Araújo e Gracyanne Barbosa. As duas são, respectivamente, ex e atual mulheres de Belo, o cantor. Nos anos 90, ele fazia sucesso com uma banda de pagode chamada Soweto, que tinha um hit, "Derê". Só de ouvir as duas sílabas, aposto que sua cabeça toda já está no ritmo derê, derê, derê, derê.
Vivi, que namorava o cantor, sabe mais que o refrão. E numa festa no fim de semana regada a pagodes saudosistas, cantou com os amigos, filmou, tacou na internet e pronto. Já veio o pessoal avisar na porta da sala que estava tendo briga com a atual de seu ex.
Para mim, não há mal nenhum na atitude de Vivi. As músicas que a gente canta com o ex ficam vetadas para sempre? Vai ver o pessoal todo puxou Derê, ela achou engraçado cantar aquilo depois de tanto tempo, estava feliz, bem-resolvida com a própria história… e daí, né? A gente não assina junto com o divórcio que não vai mais cantar as músicas, ver os filmes, fazer as comidas, regar as plantas, criar os filhos ou seja lá o que for do ex. Tá liberado, tudo bem.
Gracyanne foi convocada a dizer o que pensava num programa de fofocas. Deu umas alfinetadinhas aqui outras ali, sugerindo que Vivi tinha bebido (é proibido beber em churrasco?). O couro comeu, Vivi respondeu e a internet deu aquela bela pirada indo para o pátio ver a treta — que, vai ver nem era para existir.
A torcida da briga é contra todo mundo que estiver brigando. Um desejo profundo de ver pessoas desconhecidas puxarem o cabelo umas das outras. Pra todo mundo apanhar mais. E a briga não terminar nunca. E dá-lhe lenha dali, gasolina daqui que o que se quer mesmo é que o circo pegue fogo.
Gracyanne e Vivi podiam não entrar nessa. Mas elas podem ter as mágoas delas e no calor do momento a história explode… dá para entender. Mas quem acha que a treta é boa e quer ficar assistindo na internet podia pensar: quero mesmo aplaudir isso? Não parece meio idiota sair correndo da fila da cantina e se enfiar na multidão no intervalo para ver alguém se dar mal?
Deixa as mina, vai. Vibrar com treta de mulher está bem fora de moda.

Sobre a autora

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo”, na “Contigo!” e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso para atravessar a era digital com um pouco menos de drama. Sororidade e respeito ao próximo caem bem pra todo mundo.