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Luciana Bugni

Luciana Bugni

Por que não dá mais para ser tio da Sukita em 2018

Universa

22/12/2018 04h00

(Foto: Reprodução)

Quando eu era adolescente, uma propaganda da Sukita virou referência no comportamento "tiozão". Uma menina jovem tomava seu refrigerante no elevador e era abordada por um vizinho que fazia comentários sobre o clima e outros assuntos pertinentes ao local onde estavam. A garota toma o refri de canudinho, responde educadamente as perguntas e, quando ele acha que está fazendo sucesso na cantada, dispara um "tio, aperta o 21 para mim?".

A humilhação do senhor no elevador rendeu, nos anos 90, a expressão "tio da Sukita". Não raro, usávamos para nos referir aos homens que tinham idade para serem nossos pais e insistiam em cantadas meio descabidas nos lugares mais improváveis – fila de mercado e padaria, posto de gasolina e o clássico elevador do prédio. Apesar daquilo incomodar muito as garotas que tinham a minha idade na época, nunca achamos que podíamos colocar os caras em seu devido lugar. Afinal, eram os anos 90. Chamar de tio, como na propaganda, era o jeito educado de dizer "sai fora, isso é errado". Mas a gente nem sabia disso.

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Corta para 2018, virando a esquina de 2019, e a mesma marca de refrigerante coloca de novo o mesmo homem, agora 20 anos mais velho, num elevador com uma garota jovem. É ela quem o aborda: comenta sobre a bicicleta do homem e diz que é um jeito moderno de transporte. Repara que seu tênis e meia são modernos também. É a deixa para o "tio" se empolgar e convidá-la para tomar refrigerante em sua casa. "Nossa, não, obrigada. Algumas coisas podiam se modernizar, né?", ela responde. É a redenção da mulher dos anos 90 – que alívio perceber que a gente pode responder e, mais que isso, deve colocar os caras em seu devido lugar.

Vejo isso nas meninas de 16, 17 e 18 que frequentam minha casa, amigas de meus enteados. Elas não toleram esse tipo de abordagem que me constrangia há 20 anos. Elas não aceitam que mexam com elas no ônibus porque a roupa é curta. Ela conhecem seus direitos e sabem que nunca devemos ser humilhadas por alguém que se acha no direito de nos intimidar sexualmente assim. Que bom. Minha geração nem sabia que aquilo era errado ou no mínimo desrespeito e sofria calada.

Já os meus amigos, com mais de 40 e pontenciais tiozões da Sukita, passam longe do estereótipo. Respeitam as meninas como as crianças que são, amigas de nossos filhos ou filhas de amigos. Meninas, que serão mulheres, e já sabem que devem ser respeitadas.

Temos muito ainda por fazer, mas é muito bom perceber que um pouquinho já andamos.

Errata: A expressão "pedofilia" foi retirada do texto após a publicação, como se explica aqui.

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).