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Luciana Bugni

Luciana Bugni

Maura e Ionan: gostar do casal hétero na novela Segundo Sol é homofobia?

Universa

28/08/2018 04h00

Shippar esse casal é homofobia? Depende… (Foto: iStock)

A história é mais ou menos assim, em Segundo Sol: Selma (Carol Fazu) era casada, mas traia o marido com Maura (Nanda Costa). Quando ele morreu, ficou com a amante. Ionan (Armando Babaioff) era casado com Doralice (Roberta Rodrigues), mas a relação não ia muito bem por conta do ciúme da mulher (embora o marido fosse fiel).

Maura e Selma queriam ter um filho e Ionan, colega de trabalho de Maura, decidiu dar uma força: doou esperma para ajudar a amiga a realizar seu sonho. A fecundação deu certo: Maura e Selma terão um filho e rumam para o final feliz.

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Problema 1: o relacionamento de Maura e Selma começa a ficar turbulento. Cobranças chatinhas, brigas bobas. Elas se afastam. Problema 2: Doralice descobre sobre a fertilização e fica ainda mais enciumada. Surta e coloca Ionan para fora de casa. Problema 3: Ionan parece não ter entendido o que significa doar esperma e fica empolgado com a gravidez como se fosse ter um filho. Problema 4: Maura gosta da proximidade do amigo e chega a dizer que acha importante que o menino tenha uma referência masculina (Selma, a outra mãe do menino, fica enciumadíssima). Ou seja, tudo joga o público a torcer por um final feliz de Maura e Ionan. Além de tudo, o casal tem uma química danada.

Isso não passaria de uma entre tantas trocas de casal de novela, não fosse o problema principal: os gays sofrem muito preconceito. Existe tanto discurso na direção da "cura gay", que colocar um casal hétero bacana no lugar de um casal gay que só briga não é uma simples troca de par. É reforçar a mentalidade de que só é família aquele grupo formado por um homem, uma mulher e seus filhos. Estaria tudo bem um casal chato e sem química dar lugar a um casal com pegada e romance, se o primeiro par não fosse espelho para os homossexuais, que são, ainda, marginalizados por sua opção sexual.

Depois de colocar tudo isso, vem a contradição: a história proibida da novela é fofa. A fuga. A química. A parceria. Muito mais pelo lado de Ionan, o cara legal que passa a vida se explicando para uma mulher ciumenta que não tem (ou tinha) razão. Não entendo muito bem esse sentimento e acho que diz muito mais sobre quem sente do que sobre o alvo das crises de ciúme. Ou o ciumento mede a relação pela própria régua ou ele está apenas jogando o parceiro para outra relação. De tanto falar nisso, uma sementinha entra na cabeça da pessoa – aconteceu com o investigador na novela, que acabou beijando a colega. Eles parecem estar envolvidos e seus relacionamentos anteriores subiram no telhado.

Selma estava errada quando traiu o marido com Maura. Agora, Maura e Ionan estão errados ao traírem Selma e Doralice, mesmo que elas estejam sendo meio chatas. Torcer por esse casal é torcer pela imoralidade – tudo que a família tradicional não quer.

Talvez o autor da novela nem tenha cometido um erro: no momento em que a sociedade aceitar os homossexuais, essa vai ser uma simples troca de casal. Shippar Maura e Ionan não é homofobia, lógico. Ficar aliviado que Maura não vai mais abraçar e beijar uma mulher na Tv na frente de todo mundo é homofobia. Vale o exame de consciência. Mas por enquanto, tem muito pai de família aliviado pensando que se Maura "se curou", a filha dele que "se diz" lésbica também vai achar um homem para chamar de seu. E isso é homofobia.

 

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).