menu
Topo
Luciana Bugni

Luciana Bugni

Nem só as mães são felizes: que ninguém se sinta inferior por não parir

Luciana Bugni

11/05/2018 04h00

Lívia (Grazi Massafera) e Tomaz (Vitor Figueiredo), em O Outro Lado: relação além do útero (Foto: Marília Cabral/ Rede Globo Divulgação)

Quando você está num relacionamento longo, as pessoas começam a cobrar: não vão ter filhos? Minha resposta foi sempre a mesma. Um categórico não, seguido de alguma grosseria. Aos 20 anos, não tinha o menor desejo de ser mãe. E ainda tinha pendências próprias demais para resolver em terapia. Eu dizia: quero lá eu ser a responsável pela terapia que meu suposto filho vai fazer no futuro?

Cada vez que alguém me disse a frase "você só vai entender quando for mãe", eu torci o nariz. Como se as mães pertencessem a um grupo superior de mulheres que as outras JAMAIS vão entender. Não acreditava nisso. Mas não podia dizer nada, já que não pertencia ao grupo. Como vou dizer que entendo? Como vou falar que é possível amar seres que você não carrega na barriga se nunca os carreguei?

Agora, sou mãe. Carreguei um ser (maravilhoso e encanatador) na barriga por nove meses. É a segunda vez que no, Dia das Mães, eu posso ser homenageada. E repito: não acredito nisso. Eu não vou entender só porque sou mãe. Toda pessoa boa que carrega o peso e a leveza de amar e cuidar de outras pessoas — sejam essas suas crias ou não – é capaz de entender.

Tenho minha mãe e minha tia. Sempre fomos muito próximas. Com a morte do meu pai, família pequena, ficamos ainda mais unidas. Nem sei há quantos anos eu dou um presente para cada uma no Dia das Mães. É uma sorte danada. Tem assunto que é com minha mãe, tem assunto que é só com minha tia. Não tenho pai vivo, mas tenho duas mães. E, por isso, aprendi bem cedo que o amor não está ligado ao parto ou ao útero e, sim, ao convívio das almas. Isso só se comprovou quando me tornei madrasta.

"Ah, mas você diz que ama seus enteados porque ainda não teve seu próprio filho." Eu ouvia e ficava quieta. Realmente não tinha como saber como era ter filho antes de ter. E hoje, posso dizer que o amor pelo meu filho aumenta uma gotinha por dia. A lactação também nos ajudou a desenvolver uma conexão enorme. Mas eu mudaria a rotação da Terra caso meus enteados precisassem muito. Um amor enorme que hoje é muito maior do que quando os conheci, vindo da capacidade de amar algo que "não é seu". E quem é de alguém? Uma gotinha todo dia.

"Ah, mas você diz isso porque seu filho é um bebê. Quando ele crescer, a gente conversa". Quando todo mundo entender o amor que se conquista a cada dia — e que não exige nada em troca -, a gente conversa. Minha tia foi quem me ensinou.

Que neste domingo, a gente possa homenagear todo mundo que já cuidou de alguém. As tias, as vizinhas, as amigas, as professoras, as madrastas. Que ninguém se sinta inferior por nunca ter parido. Ser maternal está muito mais no coração do que no útero.

E, meu filho, quando for a hora da terapia, manda bala: a culpa será toda minha, estamos aqui pra errar tentando acertar demais. Você está me fazendo crescer todo dia. Obrigada.

 

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).