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Luciana Bugni

Luciana Bugni

Amamentar e trabalhar: quem consegue juntar os dois numa boa?

Luciana Bugni

01/09/2017 08h00

 

Minha cara durante a ordenha (Foto: Jai79/Pixabay)

 

Passou o mês do aleitamento, mas minha vida de lactante continua bombando por aqui. Aliás, já vi coisa maluca nessa vida, mas a legislação exigir que a mulher volte ao trabalho apenas quatro meses após o parto é uma das mais loucas. É aquela expressão "tirar comida da boca de criança", só que literalmente. A Organização Mundial de Saúde recomenda que a amamentação seja exclusiva até os seis meses. Mas, um mês antes desse prazo (se você for esperta e guardar férias) você volta ao trabalho e deixa seu filho, que depende exclusivamente de você para se alimentar, sem comida. Deixar a única fonte de alimento de um recém-nascido longe dele oito horas por dia não soa meio cruel? Não sei se é porque sou lactante ou se isso realmente não faz o menor sentido…

Tem soluções, claro. Você sabe como é uma maquininha de tirar leite materno? Começa com um funil preso no peito e acoplado a uma garrafinha. Dessa engenhoca, sai uma mangueirinha ligada a um motor de plástico em formato de bagel. Você liga aquilo na tomada e ele começa a fazer o barulho da sucção, puxa seu mamilo pra dentro do funil e suga seu leite para a garrafinha. Go-ta-a-go-ta. Não por acaso, o barulho do motor da maquina é bastante semelhante a uma vaca mugindo. Moo, moo, moo, moo. Meu leite pinga na garrafinha. Moo, moo, moo, moo. Depois de meia hora de sacrifício, olho a marca no plástico: 70 ml. Meu objetivo é tirar 150 ml. Moo, moo, moo. Depois de uma hora, 130 ml. Desisto. Esse moleque que mame menos amanhã. Desligo a geringonça e tiro meu mamilo de dentro do funil. Invariavelmente uns pingos de leite caem na roupa. Guardo meus peitos pra dentro do sutiã. Guardo o leite numa outra garrafinha, enfio tudo numa térmica que anda comigo para cima e para baixo e saio da salinha onde, no meio do trabalho, faço esse servicinho a cada três horas. Checo de novo se guardei os peitos para dentro — é tanta função, vai que eu esqueço. E aí sigo para meus afazeres.

Tenho uma tendência, digamos, a preferir o natural. Pergunta para os meus vizinhos o que eles acharam das 15 horas em trabalho de parto berrando no chuveiro do meu apartamento. E vou te falar: não há nada de natural em uma mamadeira para um bebê de cinco meses. Em dar leite contado para alguém cuja fome ninguém pode prever. Eu sei, eu sei, tá tudo bem. Moo, moo. Moo. Meu filho está mamando bem, ele deve estar engordando. Moo, moo. Moo. Todo bebê pega mamadeira e ninguém morre. Coloca o leite no saquinho, escreve a data e o volume. Pá, freezer.  Tá tudo certo. Olha lá, como pegou bem a mamadeira. Olha lá, está segurando a mamadeira na foto no WhatsApp. Ele está no colo do pai segurando a mamadeira, independente. Que orgulho. SOCORRO, ELE NÃO PRECISA MAIS DE MIM. Esse menino está sorrindo pra mamadeira agora!

Antes que você venha comentar que eu sou louca, me adianto: é óbvio que eu sou louca. Sinto no universo uma tendência a minimizar o problema só porque sou louca. "Mas ele já mamou bastante". "Complemento está aí pra isso". "Ele tá gordinho, relaxa". "Deixa de ser louca". "Sua neurótica". "Afe, você está insuportável". Pode me detonar, mas me deixa estar louca, sou lactante.

E também não tenho tempo para esse tipo de lamúria. Tenho que trabalhar, poxa. Estou no meio de uma reunião importante tentando mostrar serviço com o chefe novo. Meu peito está empedrado. Olho para o chefe novo, faço cara de conteúdo. Ele fala umas siglas que não tenho ideia do que querem dizer. Preciso mostrar inteligência, preciso mostrar que sou fundamental, passei cinco meses fora, olha essa crise aí. Meu peito lateja. Toda minha natureza pede que eu amamente agora. Continuo prestando atenção na reunião. Olho para baixo rezando: não vaza, não vaza, não vaza. Vazou. Duas rodelas molhadas começam a se formar na altura dos mamilos. Continuo olhando para o chefe novo. Preciso vir de preto amanhã. É mais seguro eu usar blusa preta pelo próximo ano e meio. Sou só eu ou viver isso todo dia é muito louco?

Agora dá licença, que eu vou ali na salinha. Moo, moo, moo. "Seu leite já está secando?", pergunta uma amiga no WhatsApp. Moo, moo. Não vai secar! (Vai sim, por mais que eu evite pensar nisso.) Moo, moo. São seis meses de aleitamento exclusivo. Depois é só levar até os dois anos. Eu vou conseguir. Eu vou conseguir. É claro que vou conseguir. Eu vou conseguir? Acho que eu vou conseguir. Moo. Moo.

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).