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Luciana Bugni

Luciana Bugni

Dia das Mães? Madrasta pode ser bem mais que a mulher do papai

Luciana Bugni

08/05/2018 04h00

Imagina quando a madrasta é a Julia Roberts, como no filme Lado a Lado? (Foto: Divulgação Lado a Lado)

Semana de Dia das Mães, mais um ano que passa e não vejo uma campanha de TV de marca alguma fazendo uma homenagem singela para madrastas. "Ah, mas aí você quer demais", alguém diz. "Você não conhece a minha…", reclama um. "Tá achando que madrasta é tão importante quanto mãe"?, outra pessoa questiona. É lógico que não. Mas seria legal ver a sociedade reconhecer uma vez na vida a importância dessas mulheres que se doam para filhos que não são delas com muito amor e desapego. No Dia dos Pais, tem padrasto homenageado por empresa de celular e marca de cosmético. Se ele é aquele cara legal que assumiu os filhos de outro homem como se fossem dele (e é mesmo, tem que valorizar esses caras também), madrasta é "apenas" a mulher que casou com o pai – quando não é denominada com adjetivo pior. Na cabeça de todos, madrasta não precisa de homenagem, não. Tem é que ficar quieta, como bem definiu Nina Lemos aqui.

A ficção não ajuda. Das histórias da Disney às novelas brasileiras, o que não falta é madrasta diaba. É um tal de roubar dinheiro, de maltratar enteado, de fazer o pai de trouxa… A própria palavra em Português lembra uma bruxa má. Em inglês é mais bonitinha: stepmother quer dizer algo como mãe substituta. Eu acredito mais nessa definição. Alguém que está lá quando as crianças precisam e a mãe está longe, mas que nunca tiraria a importância da figura materna. É o que tento fazer com meus enteados (que cada vez precisam menos de mim, pois já estão se tornando homens). Mas, se precisarem, largo tudo e vou. Madrasta também faz essas coisas, acredita? Volta a estudar mercantilismo, decora de novo a fórmula de Bháskara. Fica ansiosa esperando para perguntar se foi bem na prova. Frita um filé de frango e faz arroz às 8h da manhã para deixar o almoço feito. Desliga a TV e conversa.

Ser madrasta não é o sonho de ninguém. Quer dizer, não conheço nenhuma criança que tenha dito para alguma tia curiosa: "quando eu crescer, vou ser advogada e madrasta de duas crianças". Ou: "Meu grande sonho é cuidar dos filhos de alguém com outra pessoa". Ou "meu personagem favorito na Bela Adormecida é a madrasta". Nunca vi uma amiga animada dizer na fila do banheiro do bar: "Ele é engenheiro, surfa, gosta de Miles Davis e o melhor é que tem dois filhos!". Mas embora ninguém procure, é algo que acontece – e a partir dos 30 anos, é cada vez mais provável. E se já é difícil decidir com quem ficam os amigos depois do divórcio, imagina encarar uma guarda compartilhada de crianças? Devia ter um manual para o madrastismo bem sucedido e adequado.

Essa é uma função solitária. Não há muito como compartilhar vitórias ou frustrações. Não há pai ou mãe que consiga entender direito o que é amar alguém que não saiu de uma parte de seu corpo. Não há amigo que entenda bem o tamanho da angústia ou da alegria sendo que: "eles nem são seus filhos!" Nem a madrasta sabe muito bem o que é isso. Quem é aquele garoto? E por que eu o amo desse jeito?

Ser madrasta é desconstruir a própria personalidade. A gente ouve muito que a maternidade transforma – e é verdade, acho que a mulher praticamente morre no parto e vira outra pessoa. Mas ter enteados nos muda tanto… E vai explicar isso para a sociedade. Vai contar para suas amigas que você não vai sair porque amanhã as crianças têm uma prova importante e pediram para você dar uma repassada na matéria com eles. Vê se alguém entende. Dispensar os filmes europeus e ver filme de herói no cinema? Aconteceu comigo. Ser madrasta é aprender todo dia, no susto, tudo o que você achava que já sabia. Descobrir que não estava pronta, que não estava certa, que nada do que você esteja sentindo agora é mais importante do que o que aqueles carinhas trouxerem. Ser madrasta é deixar para lá.

A gente devia olhar para essas mulheres com outros olhos. Eu mesma nunca tinha pensado no assunto até virar uma delas. Uma amiga disse que maltratou a própria madrasta a adolescência inteira, sob influência da mágoa que a mãe tinha com o segundo casamento do pai. Foi só no próprio casamento em que a ficha caiu. Ela chamou a mãe e a madrasta para a prova do vestido – afinal, o evento era muito importante para todas. E ali, na sala da costureira, com uns 20 anos de atraso, as três selaram a paz e puderam agradecer uma à outra a importância da cada uma. Bonito, né? Que nesse Dia das Mães a gente possa olhar para as madrastas livre dos estereótipos que a literatura infantil nos colocou. Cada história é uma história; mas será que ali, naquela mulher que tenta todo dia entender seu lugar, não há sentimentos de amor verdadeiro, que devem ser mais valorizados?

Pra terminar, esse vídeo fofo sobre a relação entre madrastas e mães: tem amor pra todo mundo, gente! Mas o mais importante mesmo é o bem-estar da criança. <3

Sobre a autora

Luciana Bugni é jornalista e escritora. Vive entre quatro rapazes, muitas bolas de futebol e uma gata, descomplicando a vida e parindo ideias. Edita conversas antigas (é cada resposta que a gente poderia ter dado...), cardápios e reportagens na Universa, aqui no UOL. Já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo” e na “Contigo!” e se especializou em jornalismo feminino popular. Acredita no amor, que mostarda melhora tudo e que as madrastas são uma classe injustiçada pela literatura infantil.

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso sobre a geração que está com 30 e poucos anos, recorrendo aos apps de paquera na marra ou tentando salvar o segundo casamento com todas as forças. E enquanto isso, trabalha, cria pessoinhas e faz de tudo para se divertir (desde que o samba é samba é assim).