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Rodrigo Rodrigues e a tristeza de quando o Covid chega perto da gente

Luciana Bugni

27/07/2020 08h00

Rodrigo no palco, que é lugar que ele gosta (Reprodução/ Instagram)

"Será que o Rodrigo iria curtir nossos churrascos?", meu marido me perguntou chegando em casa. Não é a primeira vez que a gente fala em convidá-lo.  Conheço Rodrigo Rodrigues há mais de 10 anos, quando trabalhava na Contigo! e ele no Vitrine, da Cultura. Nunca, por mais que a pauta fosse corrida, ele deixa de cumprimentar ou conversar um pouquinho. Às vezes sério, às vezes tenso, sempre muito gentil. Rodolfo (meu marido) trabalhou com ele em lives da revista Placar, há uns anos. "Vocês têm muito filho, nunca vai dar tempo de ir num show do SoundTrackers", ele costuma dizer sobre sua banda e nossa prole.

"Acho que ele ia se empolgar com a música", eu respondi sobre a ideia de convidá-lo. "Mas talvez se incomodasse com a coisa ficando meio amadora à medida em que a galera bebe muito", meu marido disse e completou: "Se ele fosse da turma da cachaça, ia achar tudo lindo". Nós rimos. Dá para pensar nisso depois, os churrascos ainda vão demorar muito tempo para voltar.

Era sábado (25), e voltávamos para casa depois de um passeio. A tarde estava agradável e resolvemos ceder aos apelos de afrouxamento de todas as pessoas que nos cercam. Fomos, devidamente mascarados, ao quintal da casa de minha sogra. O espaço é grande e ficamos, quatro adultos e uma criança, distantes. Meu filho de 3 anos explicou para os avós que não podia "encostar neles por causa do coronavírus".

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Eu sentei na soleira de uma porta e fiquei observando o quintal vazio e o papo sobre música rolando. Rodolfo mostrava para o pai alguns vídeos de Rodrigo Rodrigues, seu quase xará (como o próprio Rodrigo se referia aos nomes parecidos e mesmo sobrenome). Tocando, sempre. Meu sogro ficou emocionado com algum acorde de Nowhere Man.

Nowhere plans

Há vídeos antigos do meu enteado, Gustavo, tocando a mesma música naquele quintal, que costuma estar sempre cheio de gente e de música. Um dia, em que tinha assistido um vídeo de Rodrigo entrevistando Paulo Ricardo e tocando Nowhere Man, se empolgou. Fomos para o churrasco e ele tocou a mesma música lá. Rodolfo filmou e mandou por Whatsapp para Rodrigo, que estava em Berlim, viajando de férias. Ele respondeu com um vídeo, gravado no hotel, filmando só a mão dos acordes. Para que meu enteado (a quem ele nem conhece) pegasse alguma nota que estava escapando. Rodrigo é esse tipo de cara legal.

Volta para a tarde de sábado: meu sogro sugeriu que levássemos o guitarrista/apresentador de tv em alguma festa lá para tocarem juntos. E foi assim que voltamos para casa pensando se ele ia curtir ou se seria muita bagunça para alguém que prefere tomar um mate a uma cerveja. "Sou carioca, ué", ele diz.

Enquanto eu vivia esse sábado, soube depois, Rodrigo dava entrada num hospital no Rio com cefaléia, desorientação e vômito. O diagnóstico foi trombose venosa cerebral (TVC). Tudo isso é complicação de Covid, que ele contraiu há duas semanas. Rodrigo foi operado e está em coma induzido.

Depois do baque, passei a tarde de domingo tentando apurar informações. Entrei no Whatsapp na esperança de ele estar online e dizer que tinha sido um susto. Ele não estava. A informação da operação só veio depois.

Em muitas famílias, passamos esses meses rezando para o Covid não chegar perto. A notícia do agravamento do caso de Rodrigo cai como uma bomba num período em que todo mundo começa a duvidar da letalidade da doença e sair na rua para se divertir. O apresentador, claro, vinha saindo desde o início, como vários brasileiros que precisam trabalhar — e não tem jeito, tem que ir mesmo.

Dizem que nosso povo só vai acreditar no perigo do coronavírus quando tiver alguém querido afetado por ela. Talvez Rodrigo seja essa pessoa. Ele entra há décadas na casa de todos com seu bom humor, com seu jeito atencioso, com a "zoação" carioca. A última mensagem que trocamos foi no aniversário dele, em abril. "Que no próximo você possa estar num lugar lotado, com muita música boa e abraço", eu disse. Ele respondeu com um emoji de duas mãozinhas para cima, pedindo aos céus.

Repito o gesto. Que você saia logo dessa. Que encha nossas casas com sua simpatia e seus acordes pelas telas. Os afrouxamentos podem ficar para depois. Take your time, no hurry, como diz a letra da música. O importante é que, nesse futuro sabe-se lá quando, esteja todo mundo lá. Mas não pode faltar ninguém.

A gente pode falar mais disso no Instagram.

 

Sobre a autora

Luciana Bugni é gerente de conteúdo digital dos canais de lifestyle da Discovery. Jornalista, já trabalhou na “Revista AnaMaria”, no “Diário do Grande ABC”, no “Agora São Paulo”, na “Contigo!” e em "Universa", aqui no Uol. Mora também no Instagram: @lubugni

Sobre o Blog

Um olhar esperançoso para atravessar a era digital com um pouco menos de drama. Sororidade e respeito ao próximo caem bem pra todo mundo.